50 anos do AI-5: professor brasiliense lembra de violência, ameaças e exílio

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Cinquenta anos depois do AI-5 e recrudescimento da opressão pela ditadura militar, histórias de violações de direitos humanos ainda sobrevivem na memória de personagens do período. Os impactos na educação brasileira, por exemplo, são lembrados e sentidos até hoje. Desde expulsão de educadores do país até vigilância do conteúdo ensinado, a educação foi marcada por censura e violências. Matérias como Organização Social e Política Brasileira e Educação Cívica e Moral eram só uma parte das mudanças que abalariam a educação durante os vinte anos sob o regime.

O professor aposentado Newton Carlos Guimarães da Silva, 60, começou a sentir os baques da ditadura antes mesmo de se tornar educador. Quando universitário, ele trabalhava na Câmara dos Deputados e ajudava os outros estudantes a entrar nas galerias para assistirem às reuniões do congresso. “Até que começou a repressão. Meu carro foi pichado e começaram as ameaças por telefone. Eu era estudante universitário, era contrário, mas não era filiado a nenhum partido, a nada disso”. 

Newton Guimarães

Newton passou a dar aulas e as ameaças continuaram. “Fui avisado que a coisa não estava boa para o meu lado. E então fui demitido do serviço público [da câmara] . Sem processo administrativo, sem tudo que a legislação determina”. Ele continuou a dar aulas, mas o conteúdo já pré-estabelecido pelo ministério controlado pela ditadura não era satisfatório.  

A esposa de Newton foi presa por realizar manifestações contra o regime e o professor teve que sair do país. “Fiquei fora por três anos. Fiquei fora até a Lei da Anistia, mas ainda assim tive problemas”. O processo da anistia do professor ainda está no Ministério da Justiça, esperando julgamento. “De lá para cá tive muita dificuldade em retomar os anos que foram roubados”.

Segundo informações da Comissão da Verdade, do projeto Memorial da Democracia e do Centro de Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, um dos pontos notórios da ditadura era a importância que havia em construir uma memória nacional dentro das escolas. Qualquer situação que mostrasse desconforto com os que estavam no poder ou que atacasse a imagem eram analisadas e vigiadas. As pessoas envolvidas, geralmente, sofriam inquérito policial militar e seriam presas.

O tempo de duração das licenciaturas diminuiu para três anos, o que contribuiu para que docentes se tornassem dependentes do material didático. Os conteúdos passaram a ter como referência uma historiografia misturada com novas ideias da história econômica, sem história social. Livros que tivessem conteúdo contra aquele tempo eram cassados e os autores presos.

Paulo Freire

Entre os educadores que passaram por perseguições, o caso mais memorável é o de Paulo Freire. Fundador do Movimento de Cultura Popular do Recife, ele fez parte do governo de João Goulart como coordenador do Programa Nacional de Alfabetização (PNA). Freire preparou as bases do programa nacional com um levantamento do número e da localização dos analfabetos, além de cursos de preparação dos professores.

Quando a ditadura foi implementada em 1964, o PNA (prestes a ser instaurado, em fase de treinamento de monitores) foi cancelado e os mentores foram perseguidos. Outros movimentos sociais que realizavam programas de alfabetização foram reprimidos com a justificativa que eram subversivos e doutrinavam a população com ideias de esquerda. O Movimento de Cultura Popular também estava entre os programas perseguidos. Paulo Freire foi preso junto com outros educadores que foram expulsos e não atuaram na alfabetização de adultos.

O método de educação de Paulo Freire foi reinstalado após a redemocratização é até hoje é utilizado nas salas de aula para a alfabetização de jovens e adultos. Ele consiste em ensinar palavras em slides que fazem parte do cotidiano dos alunos. Seu ensino é mais que um simples método, é uma filosofia  e um sistema de educação. Seu principal objetivo era uma conscientização através da educação. Com o seu ensino, Paulo Freire foi capaz de alfabetizar 300 trabalhadores rurais em 45 dias, na cidade de Angicos em uma das suas primeiras experiências. Hoje, 55 anos depois,  muito mais que 300 pessoas são capazes de ler graças ao método Paulo Freire.

Confira, no gráfico interativo abaixo, as taxas de analfabetismo de 1950 a 2016:

Por Larissa Lustoza, Larissa Kurita, Geovana Oliveira e Alexandra Lucas

Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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