O documentário estadunidense O Dilema das Redes (dirigido por Jeff Orlowski e escrito por Orlowski, Davis Coombe e Vickie Curtis), disponível na plataforma Netflix desde o mês passada, ainda aquece as discussões sobre os papéis das mídias sociais em dias de ebulição social em diferentes continentes e também com a fragilidade dos estados nacionais e até dos valores democráticos.
“Eu acredito que a sociedade esteja vivendo uma despolitização e não uma polarização política, como traz o documentário. São conceitos diferentes, mas ambos estão na essência da fragmentação da democracia”, afirma o historiador Frederico Tomé, pesquisador das ciências sociais.

Ele explica que o processo de despolitização política é o fator que abrange temas como participação política, alteridade e respeito em comunidade e assim, distingue-se de polarização política. Ademais, a participação constante das fake news e a construção de “bolhas” nas redes sociais apresentam-se como pontos característicos das redes sociais devido à perpetuação da cultura do ódio, que tem ganhado mais espaço que a pluralidade do discurso.
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“Pessoas com propriedade de discurso passam a ter o mesmo espaço e poder de fala que pessoas que não realizaram pesquisas e estudos. Logo, igualam-se as vozes e a ideia de autoridade”, alerta.
“Psicopatia” em redes
Na interpretação de Tomé, o documentário apresenta-se como uma visão maniqueísta sobre a atuação das redes em sociedade. Ele esclarece que, em meados dos anos de 2009 e 2010, o Facebook e demais redes sociais seriam as responsáveis por trazer contribuições para a sociedade após a implantação do feed de notícias.
Entretanto, o que não se esperava, segundo o professor, era a transformação dessa contribuição, a qual revela-se atualmente como causa de psicopatia social. “Nessa época, o Brasil discutia, em base jurídica e legal, sobre o marco civil da internet e neutralidade. As discussões defendiam a possibilidade de impulsionar as questões de representatividade e pluralidade no feed de notícias em perspectivas positivas na sociedade. A partir de 2010, após transformações ou legais ou por causa de algoritmos, as redes sociais foram encaminhadas para outra direção. Para explicar esse fenômeno, cito a psicanalista Maria Rita Kehl ao afirmar que as redes sociais estão psicopatiando o Brasil”.
Regulamentação das redes
O antropólogo Frederico Castilho Tomé acredita que a regulamentação das redes sociais precisa acontecer, mas em conjunto da ponderação do fator social. “Ao passo que, de forma positiva, as redes sociais tenham proporcionado a conectividade entre várias pessoas, elas também revelaram o fim da privacidade, o que demanda no campo do direito uma regulamentação e legislação específica. Logo, estava ancorada em uma perspectiva tecnológica e atualmente precisa de uma revisão social. O intuito desta revisão social está baseado no questionamento do que entendemos por privacidade e o que de fato ela é”.
Visão do direito
Para o desembargador Roberto Freitas Filho, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), pesquisador da área do direito, não somente a relação entre as pessoas foi modificada, como também as relações políticas e com a democracia. “O contexto digital e das redes sociais no qual estamos inseridos é uma desestruturação dos processos de filtragem daquilo que é uma temática que nós temos que tratar no âmbito da esfera pública”, acredita.
Além disso, ele entende que esse contexto altera também a forma pela qual o indivíduo se expressa, se compreende e também altera a dinâmica das decisões políticas e isso é um risco para a democracia. “Você segmenta os grupos sociais, retroalimenta uma comunicação que faz com que a percepção de verdade seja circunstante àquele grupo social”.
A conversa com os pesquisadores ocorreu durante evento de comunicação do UniCEUB e foi mediada pelas professoras Renata Bittencourt e Mônica Prado.
Confira abaixo as discussões sobre o tema
Por Sandy Melo e Gabriela de Lima
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira