Protestos contra o fim do edital de incentivo “Filme em Minas” para produções cinematográficas naquele estado marcaram a exibição de dois cineastas mineiros no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na sexta (23). O curta “Constelação ”, de Maurílio Martins, e o longa “A cidade onde envelheço“, participam da mostra competitiva do festival. Como nos outros dias, o público lotou mais uma vez o Cine Brasília e a plateia deu coro à manifestação.

O curta de Martins conta a história de um homem, brasileiro, que viaja para o enterro se seu melhor amigo, Fred, que havia sido assassinado na noite anterior. No enredo, uma mulher dinamarquesa, que estava a procura do pai, lhe pede carona e os dois viajam juntos. Ele não sabe falar dinamarquês e ela, nada de português. Ambos seguem viagem sem comunicar. O cineasta afirmou que se inspirou em si próprio para realizar o curta, que conta com a participação de sua ex-esposa, natural do país nórdico.
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“Representa a minha própria vida porque eu vivo parte do tempo no Brasil e parte do do tempo na Dinamarca. Eu não falo dinamarquês e meu filho se comunica com a mãe em dinamarquês e não sabe falar português ainda”, disse. Ele ainda vai mais fundo em sua história. “ Para mim, representa medos do passado e do futuro. Quando nós nos separamos, eu vim para o Brasil e bateu esse medo muito forte, de conviver com alguém que é fruto de seu sangue e que não fala a sua língua. Então, o filme também lida com isso”, comentou.
O autor do filme, que já esteve neste festival, não esconde a satisfação de ter sido relacionado novamente. “Olha, a expectativa aqui é sempre grande. Quando você olha isso aqui e vê essa sala cheia e o público de Brasília que tem uma fama de ser bem rigoroso com os filmes, que vem às sessões, que são sempre cheias. Então acho que a expectativa é bem alta sim.”, falou.
Em contrapartida, o autor critica a falta de incentivo geral para o audiovisual, em seu discurso anterior às exibições e se demonstra chateado com a atual condição política do país. “depois de muito tempo volto ao Brasil e percebo o quanto o país retroagiu”, afirma o diretor.
O autor, em 2009, junto com outros companheiros, criou a produtora de audiovisual, “filmes de plástico”, que explora, criticamente, todos os campos do cinema, desde curtas a longas, documentários, ficção, entre outros. De lá para cá, as obras cinematográficas do conjunto participaram de inúmeros festivais, tanto nacionais quanto internacionais. Além disso, receberam inúmeros prêmios.

A produtora do filme, Luana Melgaço, que trabalhou na produção do filme “A cidade onde envelheço”, afirma que é uma grande honra participar pela quarta vez do festival de brasília de cinema brasileiro, que para ela é o festival mais tradicional e mais politizado do Brasil. A produtora acredita que o filme dá os seus primeiros passos com uma exibição muito forte e bem recebida no Brasil e lembra que, no exterior, o filme foi muito bem aceito e tem repercutido muito em grandes festivais como o festival de Rotterdam, que acontece, anualmente, na cidade homônima, nos países baixos.
No discurso que antecedeu a exibição do filme, a produtora explicou a ausência da diretora do filme no festival, Marília Rocha, que estava dando a luz à seu filho, Francisco, e não pôde comparecer.
Manifestação
O programa “Filme em Minas” é um edital que acontece desde 2004 e que oferece suportes àqueles que pretendem fazer produções audiovisuais, estimulando pesquisas e adoções de novas linguagens e formatos. O projeto abrange tanto cineastas consagrados, quanto novatos, o que impulsiona a produção no estado. Somente no biênio 2013/2014, o plano concedeu 4,5 milhões de reais para as categorias. Porém, neste ano, não saiu edital, deixando na mão esses produtores. Luana, junto à produção do filme, promoveu uma pequena manifestação de indignação ao possível fim do edital de fomento estadual. Ela demonstra a força do programa. “O edital foi muito importante para fortalecer a cena que já existia profissionalmente no estado. Dá apoio e financiamento pros filmes de vários formatos, longas, curtas, formato livre, documentários, ficção, serem realizados”, afirmou. “A gente ainda não teve uma notificação de que acabou, mas tem um tempo já que o edital não acontece”, complementou.

Imigração
No contexto histórico que vivemos atualmente, em que há uma imigração muito forte e é sempre pautada, é sempre relevante falar sobre isso. Os dois filmes retratam histórias de personagens que vêm de fora, seja a dinamarquesa no curta, ou das portuguesas no longa. Martins aproveita a história de sua película tratar sobre essa questão. “Eu acho que parte disso é a não comunicação que há entre os povos que convivem no mesmo espaço. Essas estrelas diferentes que vivem na mesma constelação mas que estão a anos luz de distância uma da outra, seja em questões culturais, ou questões econômicas”, opinou. Já Melgaço, não acha que o filme sob sua produção chegue perto disso. “Eu acho que o filme não entra nessa questão de forma tão aberta, o que ela esta falando é da experiência dessas duas meninas sob olhar próprio e único da diretora”, pontuou.
Por Bruno Santa Rita e Gabriel Lima


