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Na sala de aula da Big Drummer — escola de música da Asa Norte —, o som forte e ritmado da bateria preenche o espaço, guiado pelas mãos habilidosas de George Camargo, de 46 anos. O estúdio, com duas baterias — uma para ele e outra para seus alunos — e isolamento acústico desde as portas até o teto, tornou-se o ambiente sagrado do baterista. George enfrentou um dos momentos mais desafiadores de sua vida aos 16 anos: uma doença rara, chamada neuropatia óptica hereditária de Leber (LHON), a qual lhe tomou grande parte da visão.
Ainda sem uma cura, a doença é hereditária e ataca o nervo óptico. Contudo, existem diversos testes com as células tronco. “Tive que ir para Boston, nos Estados Unidos, para tentar tratar a doença, mas sabiam pouco sobre ela. Fui o centésimo caso registrado no mundo”, conta George. Assim que soube de sua condição, foi para a casa do avô, na Bahia, para que pudesse aprender a lidar com a nova realidade. Lá, se dedicou inteiramente à bateria e chegava a passar mais de seis horas por dia ensaiando.
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A intimidade com as baquetas começou aos 8 anos de idade, por influência do pai, que também é músico. Ao invés de ceder ao medo e à frustração após o diagnóstico, encontrou na percussão a força para superar as adversidades. Decidiu que a cegueira não seria um obstáculo e mergulhou ainda mais fundo no estudo do instrumento. Hoje, como professor de bateria, George não apenas domina o ritmo, mas também ensina outros a encontrar na música um caminho de resiliência e renovação.
“A música salvou a minha vida! Se não fosse pela bateria eu não estaria mais aqui”, conta, com a emoção clara em suas palavras. Para ele, cada batida é um testemunho de força e perseverança. O instrumento que começou como uma paixão juvenil transformou-se em uma âncora em meio ao turbilhão de desafios que a perda da visão lhe impôs. Agora, George transmite não só sua habilidade técnica aos alunos, mas também o poder da música de transformar dificuldades em superação.
Após a perda da visão, George precisou enfrentar mudanças drásticas para se adaptar à nova vida. “Eu deixei de fazer uma das coisas que mais gostava, deixei de dirigir”, revela. Com os 10% da visão que lhe restam, teve de abrir mão de várias atividades cotidianas, como dirigir, cozinhar e ler, mas também encontrou novas formas de lidar com o cotidiano. “Monto a minha bateria do jeito que gosto e já decorei onde fica cada parte do instrumento.”
Apesar de todos os desafios que George enfrenta, a música continua sendo uma fonte de apoio emocional e força. O poder transformador do som vai além do simples ato de tocar um instrumento, permitindo que George encontre na música um refúgio e uma forma de expressão em meio às dificuldades da vida.
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Sua sala de aula na Big Drummer, além de um espaço de aprendizado técnico, é um ambiente de conexão, onde ele pode dividir, com seus alunos, suas lutas e sentimentos. A história de George remete à letra da música “A Banda” de Chico Buarque, na qual o autor ressalta que as pessoas, mesmo sofrendo, paravam tudo para ver a banda desfilando, mostrando o poder da música e o ânimo que ela gera.
Ao tentar entender os benefícios efetivos da música para a superação de adversidades, o psicólogo da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Matheus, explica que a música ajuda de diversas maneiras. “Tanto pelo estado de regulação emocional, quanto pelo estado de sublimação”, explica. “A história do George me chamou muita atenção porque me remeteu à nossa ancestralidade como brasileiros. O batuque é extremamente simbólico para culturas de matriz latino-americanas”, destacou Paulo.
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Hoje em dia já existem diversos estudos que comprovam os benefícios da música para lidar com as adversidades, inclusive existe uma forma de terapia chamada “musicoterapia”. A musicoterapia é amplamente reconhecida em estudos psicológicos por seus benefícios no tratamento de diversas condições emocionais e cognitivas. Ela utiliza a música como ferramenta terapêutica para promover o bem-estar emocional, reduzir o estresse, e auxiliar no desenvolvimento de habilidades sociais e cognitivas. Pesquisas indicam que a musicoterapia estimula áreas do cérebro relacionadas às emoções, memória e atenção, além de promover a auto expressão.
Em casos de depressão e ansiedade, a música pode atuar como um meio eficaz para melhorar o humor e o equilíbrio emocional. Essa história mostra como a música vai além de ser uma arte ou entretenimento, tornando-se uma ferramenta de cura, resiliência e inclusão para aqueles que enfrentam as adversidades da vida.
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