O mineiro Elias Silva, nascido na cidade sertaneja de Januária (MG), e radicado na região administrativa de São Sebastião (DF), transformou inconformismo com a situação de pessoas analfabetas em ação. Há quase 30 anos, ele criou a Casa de Paulo Freire, uma entidade sem fins lucrativos aberta a receber alunos dispostos a aprender as letras.
Ele, que trabalhou na roça e andava 12 km até em casa, viu a vida ser transformada ao ler mais.
Inspirada na filosofia do renomado educador pernambucano, a Casa de Paulo Freire vai além de ser uma simples escola de alfabetização para crianças, jovens e adultos.



O professor Elias Silva conduz a proposta educacional de acordo com os princípios da educação libertadora. A casa Paulo Freire tem uma proposta metodológica que faz com que os educandos possam debater os problemas coletivamente.
“A proposta metodológica de Paulo Freire pede que o educando e a educanda sejam alfabetizadas, debatendo problemas dentro do território onde ele mora. Então, as palavras geradoras, são tiradas conjuntamente”.
Ele diz que conversado com os educandos e as educandas para extrair deles quais são os pontos principais que criam obstáculos educacionais.
“Tem as questões da segurança,da mobilidade, do trabalho e da própria metodologia da educação. São temas que surgem numa roda de conversa com os educandos e as educandas”
O educador explicou que o projeto surgiu de um levantamento feito no território de São Sebastião.
“Partimos do princípio de que precisávamos fazer alguma coisa para dar uma atenuada naquela situação, porque em 96, 50% da comunidade de São Sebastião não era alfabetizada”.
Hoje, com 28 anos de projeto, São Sebastião figura dentro dos territórios mais vulneráveis do Distrito Federal. AInda tem o menor índice de pessoas não alfabetizadas.
“Eu estou falando das periferias. São Sebastião, pelos projetos realizados pelo movimento popular e social, a gente conseguiu esse índice baixíssimo de 2,3% de pessoas ainda não alfabetizadas. A perspectiva é que a gente diminua mais”
O projeto conta também com um grupo de voluntários com formações diversas, que abordam seus saberes em áreas como tecnologia, conhecimento social e urbano, entre outras, para promover uma educação integral. Atualmente, o projeto está ativo principalmente em São Sebastião, mas também está em todo o Distrito Federal e região do Entorno.
A Casa de Paulo Freire desenvolve projetos prioritários, como a alfabetização de jovens e adultos, que vai além da simples aprendizagem da leitura e escrita, promovendo cidadania e liberdade através do conhecimento.
A Casa também oferece consultoria para instituições sociais e participa de congressos, sempre com foco na geração de renda e oportunidades econômicas para a comunidade.
Expansão
Elias também falou sobre os planos de expansão e os projetos futuros para a Casa Paulo Freire. O principal objetivo é ampliar o projeto, formar mais educadores e educadoras, e buscar parcerias que possam contribuir com materiais e com a estrutura necessária para montar novas unidades da casa.
“Precisa de cadeira, precisa de quadro, enfim, material diário, material pedagógico, material didático. Essa é uma das metas nessa expansão”.
Em entrevista, o educador compartilhou que, no sábado (29), será inaugurada a primeira extensão do projeto, localizada no bairro João Cândido
“Os núcleos para os bairros mais distantes Então sábado agora nós vamos inaugurar a primeira extensão Que é no bairro João Cândido, que fica mais ou menos uns 3 quilômetros da casa de Paulo Freire Central” , revelou
Elias destacou a importância dessa expansão, explicando que muitos dos participantes do projeto, especialmente aqueles de meia-idade e mais velhos, enfrentam dificuldades de mobilidade e transporte.
“Nós estamos levando o projeto para os bairros mais distantes porque as pessoas com a idade mais avançada, de meia-idade para frente, tem muita dificuldade de mobilidade”
Para garantir a efetiva implementação do programa, é essencial a participação de alfabetizadores voluntários, que devem passar por formações pedagógicas específicas para assegurar a qualidade do ensino.
Números
O analfabetismo vai além da simples incapacidade de ler e escrever. É, na verdade, uma negação de um direito fundamental, um obstáculo que impede milhões de pessoas de acessar o conhecimento e participar plenamente da sociedade.

Essa privação é vista como uma exclusão, como se a habilidade de compreender as palavras que moldam o mundo fosse um privilégio restrito a poucos.
No fundo, trata-se da ausência de uma oportunidade essencial para o desenvolvimento humano.
Segundo os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2023, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as taxas de analfabetismo observaram variações significativas, tanto no Brasil quanto no Distrito Federal, revelando uma mudança importante, especialmente no quadro racial.
Destaca-se também entre algumas iniciativas oferecidas pelo Estado, o programa de alfabetização Brasil Alfabetizado (PBA), criado em 2004 pelo Governo Federal, tem o objetivo de atender grupos em situação de vulnerabilidade que ainda não tiveram acesso à educação formal.
No Distrito Federal, o programa foi adaptado pela Lei nº 5.134/2013 e recebeu o nome de DF Alfabetizado, focando na alfabetização de jovens e adultos.
A seleção desses voluntários exige diploma de nível superior, preferencialmente em Pedagogia, embora licenciados em outras áreas com experiência em alfabetização também sejam aceitos.
Além disso, os voluntários devem estar em dia com a justiça eleitoral, realizar busca ativa de alfabetização e formar turmas com no mínimo 14 alunos nas áreas urbanas e 10 nas rurais, com um máximo de 25 alunos por turma.
Capital
No Distrito Federal, a diferença entre as taxas de analfabetismo entre brancos e pessoas pretas ou pardas foi reduzida.
A taxa de analfabetismo para pessoas brancas foi de 1,4%, enquanto para pessoas pretas ou pardas foi de 1,9%, resultando em uma diferença de apenas 0,5 pontos percentuais.
No entanto, para o grupo etário de 60 anos ou mais, a disparidade aumentou, sendo de 4,7% para as pessoas brancas e 8,7% para as pessoas pretas ou pardas, uma diferença de 4,0 pontos percentuais.
Essa diferença é ainda mais pronunciada em nível nacional: entre pessoas de 60 anos ou mais, a disparidade chega a 14,1 pontos percentuais, com uma taxa de analfabetismo de 4,1% para os brancos e 18,2% para os negros e pardos.
Analfabetismo
Esses dados, obtidos pelo IBGE no suplemento Educação da PNAD Contínua e no Censo Demográfico, nos mostram que, embora a diferença geral tenha diminuído entre a população de 15 anos ou mais, no grupo de idosos a desigualdade persiste e é mais acentuada, especialmente em nível nacional.
A PNAD Contínua considera alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever, pelo menos, um bilhete simples no idioma que conhece. Já a taxa de analfabetismo é o percentual de pessoas analfabetas em relação ao total de pessoas de determinado grupo etário.
Por Mayara Mendes
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira