“Às vezes, o ideal é abaixar a câmera”, reflete professor sobre os limites éticos do fotojornalismo

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Em meio às guerras e crises que se multiplicam ao redor do mundo, o fotojornalismo de guerra se torna um campo delicado onde a verdade visual se choca com dilemas éticos profundos.

Para o professor de fotografia e fotojornalismo, Lourenço Cardoso, que atua há 16 anos na área, o debate sobre as fotos de impacto é um tema de complexidade ética.

“No fotojornalismo, espera-se que você tenha compromisso com a verdade, sem alterar a realidade, sem dramatizar ou manipular as imagens. Ao interferir, você está mudando a realidade. Às vezes, você pode chegar à conclusão que o ideal é abaixar a câmera.”

Entre mostrar a dor alheia e conscientizar e preservar a dignidade das vítimas, fotógrafos e veículos enfrentam a difícil decisão sobre o que deve, ou não, ser revelado ao público.

Até que ponto a imagem pode mobilizar ou dessensibilizar? E quando o compromisso humano entra em conflito com o compromisso jornalístico?

“Mostrar ou não mostrar”

“São várias questões que estão envolvidas quando a gente está lidando com a fotografia do sofrimento alheio”, reflete. 

Como explica o docente, a comunidade fotojornalística possui um guia de ética que, como em qualquer outra profissão, serve de bússola para a compreensão de como agir em devidas situações. 

“Temos um código de ética no fotojornalismo que diz que uma fotografia que apenas ofende, humilha ou não traz informação como base não deve ser publicada apenas para expor as pessoas.”

Ainda assim, ele reforça que não é certo que as normas éticas sempre serão capazes de auxiliar os profissionais em momentos decisivos, como em conflitos ou guerras. 

Para isso, Lourenço explica que há debates atuais que defendem a importância da divulgação de fotografias, ainda que chocantes, ao amplo público visto que “são provas contundentes” daquilo que acontece no mundo. 

Sensibilidade 

Desde o surgimento do fotojornalismo moderno no final do século 19 muitas imagens dramáticas foram capturadas e publicadas, desempenhando um papel fundamental na formação da opinião pública.

O exemplo dado pelo professor é a fotografia da Menina de Kim Phúc, em 1972, durante a guerra do Vietnã, que ajudou a expor a brutalidade do conflito e teve impacto direto na  percepção e mobilização da sociedade contra a guerra. 

“A foto da menina Kim Phúc queimada por bomba de napalm teve um peso enorme na opinião pública e na tentativa de parar a Guerra do Vietnã. Hoje, estamos vendo na Faixa de Gaza um genocídio ao vivo, com milhares de crianças mortas, jornalistas assassinados, e o que o mundo está fazendo a respeito?”

Com essa reflexão levantada pelo profissional, outro tópico que vem em mente é se a constante exposição a imagens de sofrimento pode gerar sensibilização ou dessensibilização.

“Não há uma resposta simples para a decisão de publicar ou não uma foto. A experiência do fotojornalista é fundamental. Às vezes as imagens mobilizam, às vezes não.”

Para o fotojornalista, este debate é cada vez mais relevante em um mundo saturado por imagens e informações, onde a sensibilidade e o respeito caminham lado a lado e a urgência de mostrar a realidade é um desafio constante. 

É essencial usar a experiência para revelar a verdade, mobilizar a sociedade e, ao mesmo tempo, preservar a humanidade por trás das imagens.

Por Maria Paula Valtudes e Riânia Melo

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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