O barraco de madeira de Elvira Dias Sobrinho, no Gama (DF), em que vivia com o marido e os cinco filhos, ficou do tamanho de uma comunidade. O espaço tinha paredes, portas e janelas de madeira e telhado remendado com vários tipos de telha.
Telhas transparentes, de barro e até de papelão. O piso era vermelho, de cimento queimado, em todos os cinco cômodos do barraco: uma cozinha, uma sala ainda sem televisão, um banheiro, o quarto do casal e o outro dos cinco filhos, sendo dois homens e três mulheres.
O quintal era grande, de terra e com árvores frutíferas, com manga, jaca e milho. Esse era o espaço preferido de todas as crianças que passaram a chegar.
Elvira, uma das mães crecheiras pioneiras no Distrito Federal, abriu, no início dos anos 1980, a casa e o coração para as famílias vizinhas que não tinham com quem deixar os filhos quando os adultos fossem trabalhar na região administrativa do Gama, uma área periférica do Distrito Federal.
Em 2025, com 79 anos, Elvira resgata, de forma lenta, os dias agitados que vivia. “Às 7h da manhã, já tinham crianças chegando e eu começava a cuidar delas. No final do dia, minha casa já estava lotada”.
E foi assim, durante 13 anos. Ela não consegue se lembrar de quantas crianças passaram, ao todo, pela história dela, mas tem certeza que foram “muitas”. O limite era de sete por vez. Naquela época, não existia creche pública na região.

Aquele barraco da década de 1980 começava a se tornar uma creche logo cedo, como ela disse.
Chegavam a Clea, o Ricardo, os irmãos Elton e Elidiane e mais alguns pequenos que tinham entre um mês e sete anos de idade. Todas eram crianças das redondezas em que os pais tinham compromisso com o batente longe dali.
Não iam para a creche por luxo ou para estudar. As mães delas precisavam trabalhar duro para sobreviver e tinham que deixar as crianças em segurança. Para essas famílias, esse alguém era “Dona Elvira”. A dona de casa também era uma mulher que precisava sustentar seus cinco filhos.
Como Elvira, a partir da década de 1980, as mães crecheiras no Distrito Federal foram as mulheres que deram a outras mães a chance de trabalhar sem se preocupar com os filhos. As primeiras iniciativas documentadas dessa atividade ocorreram no Gama e em Ceilândia (hoje a maior cidade do DF).
Foram elas as primeiras cuidadoras oficiais antes das creches que se tornaram direitos na estrutura de educação da primeira infância. Foram as mulheres essenciais na vida de tantos adultos que já foram crianças cuidadas por elas.
Critérios
Nesta época, as creches não eram obrigatórias, mas eram urgentes para as famílias e as crianças. Esses espaços de acolhimento não eram vinculados à Secretaria de Educação, mas sim ao Centro de Desenvolvimento Social (CDS), que estabelecia alguns critérios para as pessoas que tinham interesse de atuar como cuidadoras. Este órgão não existe mais hoje em dia.
Na época, também era conhecido por “Serviço Social do Gama”. As creches domiciliares começaram como uma forma de o Estado passar a fornecer cuidado e atenção às crianças sem a responsabilidade de uma instituição. Assim, existiam as creches domiciliares, em que mulheres cuidavam de crianças dentro da própria casa.
Na prática, nessa estrutura de “mãe crecheira”, uma única mulher fazia comida, dava banho, brincava e cuidava por cerca de 12 horas de até seis crianças. Elvira se lembra dos cuidados e até dos horários das refeições.
“Eu dava o café de manhã e tinha a hora certa do almoço, que eram 12h. Eu dava banho geralmente logo pela manhã. E muitas crianças ainda chegavam sujas do xixi que tinham feito durante a noite. De tarde, eu brincava com elas e às vezes a manhã era tão corrida que de noite eu já fazia um baião de dois pra deixar pronto pro almoço do dia seguinte”, recorda.
As crecheiras, antes de desenvolver carinho pelas crianças, começavam nesse trabalho porque precisavam pagar as contas. O Centro de Desenvolvimento Social (CDS), organizava o serviço e pagava um salário mínimo da época se houvesse seis crianças na creche. Quanto menos crianças, menor era o salário, relembram as mulheres ouvidas para esta reportagem.
Elvira, que traz no próprio nome o significado de “cuidadora”, teve que escolher o número máximo de crianças porque precisava do salário mínimo.
Em 2025, aos 79 anos, Elvira diz que tinha certeza que qualquer centavo a mais a ajudaria a ter comida na mesa, criar os filhos e construir a casa simples que sonhava em ter. “Eu ganhava o dinheiro de viver com a creche”.
Ser mãe crecheira, segundo avalia atualmente, envolvia carinho, mas também uma forma de garantir sustento da própria casa e de cada mãe que deixava seu filho ali para ir trabalhar. E não era um trabalho fácil.
Mas antes de ser crecheira, Elvira lavava e passava roupas em casas de família, ganhando de acordo com a demanda. “Eu lavava roupa, fazia faxina e fazia de tudo o que precisava. E eu tinha muita sorte porque eu sempre fui uma mulher muito forte e sabia pra qualquer trabalho. E até hoje acho que sou uma mulher resistente”.
Nessa época, ela ainda amamentava sua filha bebê, a Angélica. As filhas mais velhas, Rosângela e Maria de Fátima, 12 e 13 anos, tinham que levar a irmã menor para a casa onde Elvira estava lavando roupas na hora de dar de mamar para Angélica.
Ela teve a ideia de ser crecheira por sugestão de uma amiga. Separou os documentos necessários. “Peguei minha certidão de casamento e a certidão de nascimento de todos os meus filhos. Era só o que eles exigiam. Aí fui até o CDS e disse que eu queria ser mãe crecheira e preenchi os meus dados e um questionário. E eu vi que era uma coisa muito organizada”.
Ela se lembra de algumas perguntas feitas: 1. Você tem capacidade de cuidar de crianças? 2. Quantos filhos você tem? 3. De quantas crianças você quer cuidar?
Segundo Elvira, assim que ela falou da intenção de ser crecheira, recebeu o aviso de que a creche (casa das mulheres) tinha que ter higiene e que seria feita uma visita prévia e outras uma vez por semana para atestar a segurança e limpeza do local. “Aí quando eu aceitei isso, fizeram a primeira visita, eu fui aprovada, e começaram a mandar as crianças”.
A partir desse dia, a mãe crecheira cuidou e foi importante na vida de crianças pelos próximos 13 anos.
Na casa das mães crecheiras, as crianças comiam, tomavam banho, brincavam e até tiravam cochilos. No barraco de Elvira, o quintal grande era o lugar preferido de muitas crianças naquela década.
Ouça um trecho da entrevista com Elvira
“Se hoje estou aqui, foi por causa de uma mãe crecheira”
Perto da casa de Elvira, o menino Maurício Oliveira da Silva, foi cuidado por uma outra mãe crecheira, a “dona Merentina”, até os oito anos de idade.
Hoje, aos 45 anos, Maurício é porteiro de uma escola na cidade de Valparaíso de Goiás (GO), a 22 km do Gama. Ele recorda que, junto aos seus sete irmãos, foram cuidados todos por Merentina.
Há tempos, nenhum deles precisava mais dos cuidados de Merentina porque já estavam adultos. Mas dona Merentina ainda fazia parte da rotina de Maurício e dos irmãos, até ela morrer, em 2019.
“A gente ia naquela casa sempre que possível. Sempre foi a mesma. E ela nunca se esquecia da gente”, afirma Maurício.
Merentina ficou cega depois de mais velha (Maurício não se recorda da idade exata), mas, mesmo sem enxergar, conseguia reconhecer cada uma das crianças que cuidou, mesmo elas já adultas.
Ao passar a mão no rosto de cada um ou ouvir cada voz, ela se lembrava do nome e de toda a história de cada um deles, que ela ajudou a construir.
Maurício e seus irmãos têm de um a dois anos de diferença de idade. Na década de 1980, a mãe deles engravidou com frequência durante uma década. “Minha mãe era assim: um filho no colo, um na barriga e um no pensamento. E pra ela trabalhar, ela tinha que deixar a gente com a dona Merentina”.

Maurício se lembra de tudo o que fazia na casa em que ficava, aquela em que “quase morava”.
“A gente brincava, banhava, comia. Às vezes, a gente não queria nem ir pra casa. Todos os nossos irmãos criaram uma memória muito afetiva por ela”.
Merentina só cuidava da família de Maurício (as oito crianças), já que somente com eles, já extrapolava o número máximo de crianças permitidas pelo Centro de Desenvolvimento Social (CDS). A mãe das crianças não pagava nada e ajudava com alimentos quando podia.
Atualmente, Maurício acredita que ela saía no prejuízo porque reconhece que ele e os irmãos davam muito trabalho e gastos e ela recebia muito pouco.
Maurício também conta que até hoje lembra as almôndegas que ela fazia para o almoço e que todos comiam até acabar. Tem na memória também que o afeto e carinho foram tão grandes que ele e o irmão mais velho passaram a chamar dona Merentina de “mãe”.
A partir desse apelido carinhoso, a mãe biológica de Maurício começou a ficar enciumada e resolveu tirar as crianças da creche.
Nesse período, ele e o irmão mais velho já dariam conta de ajudar a cuidar dos mais novos ou poderiam ficar na casa de outras mulheres. Elas eram parentes distantes ou vizinhas para quem a mãe dava uma ajuda financeira pequena.
Ele se diz grato a todas essas mulheres que ajudaram a cuidar dele, de todos os irmãos e que ajudaram principalmente à mãe dele, que precisava de mulheres de confiança para que os filhos pudessem hoje ser adultos que foram muito bem cuidados quando crianças.
Estrutura das creches domiciliares
As creches eram organizadas pelo Centro de Desenvolvimento Social (CDS). No órgão público, trabalhava Maria da Conceição Pereira Fé Severiano Miranda, que em 2025 tem 70 anos de idade.
Ela participou da construção das creches no DF, e principalmente no Gama. Maria se lembra que Elvira e Merentina foram pioneiras no trabalho de mães crecheiras em todo o DF.
Recorda-se também que as regiões do Gama (DF) e Planaltina (DF) eram referência na atividade de mãe crecheira, mas que, em outros lugares como Sobradinho e Ceilândia, também tiveram creches domiciliares com essa estrutura.
Só no Gama foram atendidas, ao menos, 500 crianças, diz antiga servidora
Conceição, como prefere ser chamada, se emociona ao lembrar de todo o trabalho que era feito nas creches domiciliares.
“Foi a coisa mais linda que existiu. Era um trabalho muito lindo porque a casa da crecheira também virava a casa da criança. Ela recebia carinho, amor e cuidado de mãe. A crecheira tinha que ser uma mãe da comunidade que também tinha filhos e não podia trabalhar fora”, diz Conceição.

Conceição lembra com muito carinho das mães que ajudou. Foto: arquivo pessoal.
Elvira também se lembra da estrutura organizada daqueles dias. “Era muito bem coordenado, muito organizado. Não tinha nada bagunçado. No serviço social, tinha até psicóloga”.
Entre os trabalhos que Conceição fazia, estava o de receber as mulheres interessadas em serem crecheiras. Recebia também as mães que queriam uma creche para os filhos. Outra atividade era visitar as casas antes de virarem creche para ter certeza de que o local era adequado para receber as crianças.
“Eu olhava se era tudo limpinho, organizado… Não era nada chique, todas muito simples, mas precisavam ser limpas”.
Ela guarda na memória com muito carinho o trabalho no qual tanto se envolveu por cerca de 20 anos, especialmente porque quando começou a atuar no protejo das mães crecheiras, ela estava ao final de uma gravidez e logo iria se tornar mãe.
Ela lembra-se, inclusive, de várias mães que atendeu enquanto amamentava o próprio filho que, em 2025, tem 45 anos. Depois, ela teve mais dois filhos.
“Eu criei meus filhos lá no CDS. Eles até participaram de muitas atividades”.
Conceição consegue visualizar “muitas mães” que atendeu. Tanto as que iam para procurar uma creche, quanto as que queriam ser mães crecheiras. Ela também enumera histórias que foram muito marcantes.
“Uma mulher estava grávida e teve o neném na rua quando estava indo trabalhar a pé. Quem a socorreu e acabou ajudando no parto foi uma crecheira, que depois foi quem cuidou dele”, recorda.
“Tinha que ser uma casa dentro da realidade da criança”; ouça um trecho da entrevista com Conceição
Apesar dessas recordações de um passado marcado por dias difíceis por causa das dificuldades financeiras, a antiga servidora qualifica o trabalho como “bonito e organizado”.
“Só podiam deixar os filhos nas creches domiciliares as mães que trabalhavam. E era por isso que elas conseguiam trabalhar”.
Ela conta que o projeto foi idealizado pelo então secretário Davi Boianovsky, no final da década de 1970. “Ele era um professor e pediatra e esse projeto era a menina dos olhos dele”, relembra Conceição.
Ela participou da criação junto a um corpo técnico formado por um médico pediatra, uma nutricionista, uma assistente social e uma economista doméstica.
A nutricionista e a economista montavam um cardápio de acordo com as condições financeiras das mães (crecheiras e biológicas) que deveria ser nutritivo às crianças. As crecheiras precisariam cumprir o estabelecido. “Se não fosse por isso, muitas crianças seriam desnutridas naquela época”.
As mães crecheiras eram responsáveis por comprar tudo o que fosse não perecível e as mães das crianças deviam entregar na creche alimentos não perecíveis, como frutas e carnes.
No entanto, as famílias viviam em situações tão precárias que, muitas vezes, não conseguiam levar os alimentos para as crecheiras.
Havia dias em que as crecheiras precisavam pedir ajuda ao CDS para conseguir alimentar os próprios filhos e as crianças atendidas.
Elvira tem isso na mente como se fosse agora.
“Eu pegava as comidas de casa pra elas porque as mães não conseguiam levar. Quando eu via que estava acabando, eu avisava pras meninas do Serviço Social. Elas mandavam uma cesta básica ou algum ingrediente. A gente alugava uma carrocinha e ia lá pegar. Tinha época que era uma cesta por criança, então era muito bom e às vezes até sobrava”.
E, com esse controle, muitas crianças chegavam quase em situação de desnutrição nas creches. Elas tinham a saúde renovada por causa do trabalho dessa equipe multidisciplinar, das crecheiras e também das visitadoras.
As visitadoras eram mulheres que iam nas casas pelo menos uma vez por semana para conferir a limpeza e organização do local e principalmente a saúde de cada criança.
Para isso, elas levavam a ficha de saúde de cada uma (com informações de possíveis doenças da criança, da família dela e até histórico da gravidez e do parto) uma tira para fazer as medidas do braço da criança (por onde mediam se estavam nutridas) e uma balança.
Os pediatras já deixavam em cada ficha qual seria o peso ideal de cada criança e a crecheira tinha que ajudar a cumpri-lo, seguindo as recomendações alimentares.
Visitadoras
Todo esse material ia dentro de uma mochila. Cada uma dessas mulheres ia a pelo menos 15 casas por semana, de bicicleta e com o material nas costas.
Shirley Maria, de 62 anos, era uma das visitadoras e se lembra bem do trabalho que fazia. “Nós éramos várias visitadoras, divididas por setor no Gama – Leste, Oeste e Sul. A gente ia uma ou duas vezes por semana na mesma casa, mas o trabalho de ir em diversas residências era diário”.
Ela diz que, na verdade, o nome correto para a função era auxiliar de campo, mas a forma “mais popular” era “visitadora”. “A gente olhava como as crianças estavam, se tinha alguma doente, se as mães estavam trabalhando e se estavam colaborando com a alimentação da criança. E a gente anotava tudo”.
No caso de alguma criança com enfermidade, as visitadoras anotavam os sintomas e os possíveis remédios tomados para levar para a equipe médica do Centro de Desenvolvimento Social (CDS).
Sobre o trabalho das mães biológicas, Shirley relata que elas tinham que comprovar as atividades laborais porque os filhos só teriam direito às creches domiciliares se fosse para que a mãe pudesse trabalhar sem se preocupar com o filho. “Elas entregavam uma declaração ou carteira de trabalho”.
As visitadoras também se certificaram se todas as crianças estavam presentes no dia e durante a semana. Além desse papel fiscalizador, elas levavam materiais lúdicos e brincavam com as crianças.
Os brinquedos eram carregados nas costas dentro da mochila. “Quando a gente chegava, espalhava tudo no chão e, só depois de brincar, é que a gente pegava todas as informações”, afirma Shirley.
Shirley diz que o afeto se multiplicava pelas seis ou sete crianças que corriam pela casa. Aquelas crianças que passavam quase 12 horas preenchendo cada cômodo do lugar viam nas crecheiras uma figura familiar.
“Era um laço que a criança tinha com uma outra família. Na creche conveniada – que eu acompanhei muito também porque eu estava no serviço social, a gente consegue ver a diferença de elo, de família”.
“Confiavam muito em mim”
Shirley se lembra de muitas mães crecheiras que visitou. Entre elas, estão Elvira e Geralda (que preferiu não se identificar com o sobrenome).
Ela tinha 36 anos na época que começou com o trabalho de mãe crecheira e o fez durante cerca de cinco anos.
Diferente de Elvira, ela contava com uma ajudante. “Eu não achava um trabalho pesado. Eu tinha minha cunhada que me ajudava quase sempre e eu tinha um espaço bem grande pras crianças”.
Geralda se recorda e lamenta que, na época, as crianças com até 5 ou 6 anos de idade, ainda não iam para a escola. Ficavam praticamente em tempo integral nas casas das crecheiras.
Também se lembra de uma situação que a emociona até hoje. “O Marquinhos era uma criança autista e ele já tinha passado por outras mães crecheiras que tinham muita dificuldade com ele. Mas comigo ele se adaptou e a gente se deu muito bem”.
“Esse serviço ajudava muito as mães que precisavam trabalhar. Elas eram mães carentes e a maioria era mãe solo”.
A memória de Geralda também visita o cheirinho do café da manhã e o preparo das mamadeiras que precisavam estar prontos o quanto antes.
Para Geralda, as visitadoras eram bondosas com as crecheiras e com os pequenos. Aliás, Elvira também diz que as visitas não eram inoportunas. Era uma forma carinhosa de cuidar das crianças. “As meninas eram muito boas, vinham uma vez por semana. Para ver como estava a creche, a limpeza da casa, se não tinha briga”.
Por falar nisso, Conceição conta que as visitas eram muito bem organizadas. Havia um mapa do Gama colado na parede de uma sala do CDS, que tinha traçado o caminho de cada visitadora, cada uma com uma cor diferente.
“E eu lembro que a gente colocava um alfinete em todo lugar que tinha uma creche. E as cores do caminho das visitadoras também eram as cores da ficha de cada criança que ela visitava”, recorda Conceição.
Além das visitas, havia reuniões com as equipes do CDS e as mães crecheiras. Os encontros eram no próprio CDS ou em grandes espaços como igrejas e salões. Nessas horas, havia um retorno do trabalho das crecheiras, além de dicas de como fazê-lo.

Como explicaram Conceição e Shirley, tinha ainda momentos em que as crecheiras eram orientadas pela equipe com médico, psicólogo, nutricionista e economista a como cuidar da própria saúde.
Elvira recorda que era também um momento de descontração e uma oportunidade de interagir com as outras crecheiras.
“Tinha lanche, a gente conversava… era bem divertido, uma distração pras mulheres naquela época. As mulheres quase não saíam de casa ainda”.
Era também o momento em que as crianças tinham uma recreação, no mesmo local das reuniões. As crecheiras caminhavam com as crianças até a sede do Centro do Desenvolvimento Social. Elvira tinha preocupação em sair com os pequenos na rua.
“A gente levava as crianças. Aquela renca de meninos na estrada, com muito cuidado por causa dos carros. Dava até medo porque era muita criança e a gente ficava preocupada. Mas lá no CDS também tinham atividades para elas. As crecheiras iam se encontrando no caminho que a gente chegava lá. Às vezes, todo mundo junto”.


As visitadoras e outras mulheres da equipe do CDS também ensaiavam apresentações lúdicas para as crianças, como dança, música e teatro.

Inspiração
Maria da Conceição Pereira Fé Severiano Miranda ajudou a construir a estrutura do trabalho que, segundo ela, “foi o mais lindo que já existiu”.
Essa mulher negra recorda que, no no Gama, em 1960 (ano da inauguração de Brasília), quando ela tinha nove anos de idade, se sentiu “jogada” em uma área vazia junto com os pais. Foi nesse nada que ela começou a construir a história dela.
Antes do Gama, ela morava em Teresina (PI). No Distrito Federal, chegou primeiro à Vila Planalto. Recorda ter desembarcado de um caminhão na nova cidade.
“Os caminhões traziam a gente e os candangos. Iam jogando a gente. Tinha muita gente chegando construindo seus barracos de madeira”. Era só poeira e mato e cada um tinha que construir onde ia morar. As casas eram todas de madeira. “A gente ia usando o que era possível para construir”.
Quando maior, na infância e adolescência, Conceição estudou em escolas públicas da região até que passou no concurso para trabalhar no CDS. Ela passou para cargo na área administrativa, mas o chamado sempre foi para as causas sociais.
Ela começou trabalhando com as creches, ajudando na inauguração e no desenvolvimento. Quando o serviço foi acabando, as escolas classe conveniadas à Secretaria de Educação, as primeiras crecheiras foram envelhecendo, Conceição foi encaminhada para trabalhar com o serviço social de menores infratores.
“Os meninos da creche domiciliar, que hoje já estão adultos, devem ter se tornado pessoas muito boas. Porque eles eram todos acompanhados”.
Conceição defende que as crianças recebiam amor e atenção de sobra. “No fundo, a crecheira cuidava ali, mas ela amava, ela queria bem. E o que toda criança precisa, além de cuidado, é de amor”.
Uma casa de “alvenaria”, uma ligação e uma família
Com os candangos e pessoas de outras regiões que foram levadas para ocupar o Gama (DF) estava o marido de Elvira, José Pedro. Foi ele quem construiu aquele “barraco” de madeira, próximo ao de Conceição. Elvira foi morar lá quando se casou com ele, aos 20 anos, em 1966.
Elvira veio da cidade de Cajazeiras (PB) com a família pouco menos de um ano antes do casamento, direto para a região do Gama.
Mas mesmo depois de casada, as condições da casa (o “barraco”) continuaram precárias. O sonho de Elvira era construir uma casa melhor para a família e também para as crianças que cuidava. “Uma casa de verdade, de alvenaria”, como ela disse.
E este desejo foi realizado por causa do trabalho dela como mãe crecheira. Com o pouco dinheiro que sobrava a cada mês, ela ia juntando. Foi assim que conseguiu um valor para comprar os materiais de construção.
“Eu que ia lá comprar os materiais. Às vezes, com carrinho de mão a pé, e algumas vezes pegava carroça com alguém que eu nem conhecia direito. Só sei que eu queria minha casinha construída pra mim e para os meus filhos”, disse.
E assim, a sonhada casa de alvenaria foi construída. Agora com os tijolos e telhas que foram carregados por Elvira. Também carregadas por ela, muitas crianças da creche chegaram a acompanhar a construção e até ficaram um tempo na casa nova.

Além da casa, Elvira comprou itens que queria para a casa há muito tempo, mas não tinha condições de comprar: uma mesa, um radinho, uma televisão. “Fui juntando aos pouco e foi bom porque meus filhos viviam na casa dos outros que já tinham televisão. Aí eles puderam assistir na minha casa mesmo”.
Depois de 13 anos trabalhando nesta atividade gratificante, porém muito cansativa, Elvira sentia que precisava reduzir o trabalho, apesar de se considerar ainda muito forte (naquela época e até hoje).
Apesar do carinho que acabou desenvolvendo pelas crianças, o trabalho de casa era muito e ela já se sentia cansada com a chegada da idade. “As crianças já precisavam de uma pessoa mais jovem”.
Como Conceição explicou, as creches domiciliares diminuíram quando as creches regulares do modelo atual começaram a chegar.
O descanso era necessário, mas Elvira sempre teve uma força reconhecida por ela e por quem passa perto: “Eu era muito sadia, muito corajosa e até hoje eu não tenho preguiça. Eu sou uma mulher resistente”!
Às vezes, a antiga crecheira se sente menor porque não teve estudos, mas a gargalhada e gratidão são imensas quando se lembra que todos os filhos foram à escola (mesmo com mochila de saco de arroz), daquela ligação e de tudo o que veio depois na educação dos filhos de dona Elvira. O orgulho maior mesmo é quando ela fala onde seus filhos chegaram e como cada um construiu uma nova família.

Crecheiras ainda socorrem regiões com menos políticas públicas de educação, diz pesquisadora
Em 2025, ano em que esta reportagem foi feita, ainda existem creches informais em regiões vulneráveis do Distrito Federal, que funcionam sem nenhuma assistência governamental.
Elas existem porque muitas crianças não têm, como antes, onde ficar enquanto os pais trabalham. Eles não têm condições financeiras de contratar uma cuidadora ou matricular os filhos em creches particulares que funcionam em tempo integral.
A professora e referência em educação inclusiva e influência feminina, Gina Vieira, explica que, pelas graves lacunas nas políticas públicas, as crecheiras ainda socorrem comunidades desassistidas.
Ela explica que mulheres organizam alternativas para que crianças sejam acolhidas e cuidadas em lares que o fazem de maneira informal e que se sustentam à base de contribuições simbólicas das mães ou a partir de doações.
“Estas situações são parte do nosso processo histórico de negligência com a educação das classes populares”.
Ela explica que, por muito tempo, no Brasil, o acesso à educação formal e a direitos básicos era privilégio das classes mais abastadas.
Apenas em 1988, na nova Constituição, é que se estabeleceu a educação como direito de todos e todas, a despeito de classe, raça ou gênero.
“Por outro lado, o país está longe de cumprir de forma plena este dispositivo legal, sobretudo, no que tange à garantia de creches e escolas para a educação infantil”, afirma a professora.
Além de a educação infantil se tornar obrigatória de forma tardia, como explicou a professora, foi só em 2022 que a creche se tornou uma obrigação do Estado.
O Supremo Tribunal Federal decidiu que a oferta de vagas em creche e pré-escola para crianças de até 5 anos deve ser uma obrigação do poder público. Se não for feita, qualquer responsável pode recorrer à justiça para garantir a vaga.
Assim, além das creches informais, ainda há uma deficiência em ofertar creches para todas as crianças do Distrito Federal.
Segundo informações prestadas pela Secretaria de Educação para esta reportagem, com dados coletados em 9 de novembro de 2025, atualmente há 271 creches com oferta gratuita na capital, com 3.367 crianças aguardando na fila.
A região onde a fila é maior é em Taguatinga, com 771 crianças à espera de uma vaga.
As creches públicas – construídas pelo governo – são ainda mais raras. A maioria das vagas atuais são em creches privadas em que o governo tem um convênio para ofertá-las de forma gratuita à população.
Em outro relatório da Secretaria de Educação, que constam as principais creches do DF, de 130 creches do DF, apenas 59 são públicas e gratuitas.
No Gama, por exemplo (onde as atividades de creches domiciliares eram referência), a primeira creche pública foi construída somente em 2024. Antes disso, existiam apenas as conveniadas.
Apesar de parecer uma solução mais urgente, não há construção de novos espaços e terceirização do serviço.
Além disso, mesmo que a fila por espera de creche seja zerada ainda há uma lacuna quando à oferta por creches de período integral, o que vai além das regiões de vulnerabilidade porque os filhos pequenos só seriam atendidos em um turno.
Para a especialista Gina Vieira, a creche e escola pública em tempo integral deveriam ser prioridades máximas em qualquer governo.
“Um dos maiores desafios que as mães solo enfrentam quanto a criar os seus filhos sozinhas é justamente ter um lugar seguro onde deixá-los enquanto trabalham”.
Ela explica que a garantia de creches e escolas de tempo integral oferece tranquilidade e segurança às mães que precisam trabalhar para garantir o seu sustento e colabora sobremaneira para que crianças e adolescentes tenham o direito de crescer e desenvolver-se em ambientes que favoreçam o seu bem-estar, a sua aprendizagem e o seu pleno desenvolvimento.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Educação e cobrou respostas durante cerca de quatro meses sobre a quantidade de creches que oferecem período integral, expectativa e outros dados e informações sobre o assunto, mas não teve retorno.
Inclusive, também foram solicitadas explicações sobre as atividades de mães crecheira atualmente. Foram sete e-mails enviados à assessoria de imprensa durante o segundo semestre de 2025. Foram feitas ligações para a assessoria de comunicação que não atendeu ou orientou à repórter a enviar as perguntas por e-mail.
Mesmo assim, não houve qualquer retorno da Secretaria de Educação sobre um tema tão importante para o local em que vivemos.
No entanto, os dados obtidos pela reportagem estavam em planilhas disponíveis no site da Secretaria de Educação em que a divulgação é obrigatória por lei, desde que foi sancionada pelo presidente Lula em maio de 2024:
“Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a criação de mecanismos de levantamento e de divulgação da demanda por vagas no atendimento à educação infantil de crianças de 0 (zero) a 3 (três) anos de idade. Art. 2º O Distrito Federal e os Municípios, com o apoio da União e dos Estados, realizarão, anualmente, levantamento da demanda por vagas no atendimento à educação infantil de crianças de 0 (zero) a 3 (três) anos de idade”.
O papel do cuidado ligado à mulher
Todas as pessoas envolvidas na atividade de mães crecheiras eram mulheres, a não ser pelo secretário idealizador do projeto. Quem procurava interesse em deixar o filho em uma creche também era sempre a mãe.
A professora Gina Vieira explica que há um machismo que estrutura toda a sociedade estabelecendo uma divisão sexuada do trabalho, de forma que a responsabilidade pelo cuidado é reportado exclusivamente às mulheres.
“O papel das mulheres foi e é decisivo no trabalho do cuidado e na educação de crianças e adolescentes. As mães precisam se equilibrar entre a tarefa de trabalhar para suprir as necessidades dos seus filhos e filhas e cuidar deles”.
Ela contextualiza que muitas vezes são de comunidades em situação de vulnerabilidade que salvam estas mães, abrindo as suas casas para acolher crianças e cuidar delas por valores bem abaixo do que seria justo que elas recebessem.
“São mulheres vítimas de lacunas nas políticas públicas se apoiando umas nas outras para sobreviver”, reflete a especialista.
Como ela explicou, a educação foi e ainda é formada pela maioria de mulheres. Segundo dados do Censo Escolar de 2023, as mulheres representam 79,5% dos professores e ocupam 81,6% dos cargos de direção escolar.
As crecheiras nas favelas de hoje
“Cuido de crianças”.
O aviso está no muro da casa de uma rua de paralelepípedos, na região administrativa do Sol Nascente, que é, em 2025, a segunda maior favela do Brasil.
Atrás do portão marrom, mora Maria José Aragão da Cruz da Mota, mais conhecida como Zezé. Muitas crianças a chamam de tia ou até de mãe. Zezé é mãe crecheira ainda em 2025, aos 50 anos de idade, e faz este trabalho desde 2009.
Diferentemente do início dos trabalhos das mães crecheiras, as famílias têm opções de serem atendidas em creches regulares da rede pública de ensino.
Na casa de Zezé, as crianças já começam a chegar a partir das 4h30 da manhã para que os pais possam trabalhar no turno contrário às aulas.
O trabalho é o mesmo do passado: ela faz comida e dá para as crianças, troca as fraldas e roupas quando necessário, dá banho, além dos cuidados do dia a dia. Zezé compra todos os alimentos e as mães pagam uma mensalidade. É um preço baixo, que só dá para sobrevivência.
“Se eu cobrasse um preço mais alto, as mães não iam conseguir pagar porque todo mundo aqui é muito carente. Então eu ajudo elas e elas me ajudam”.

“Eu tive câncer e as crianças me ajudaram”; ouça trecho da conversa com a crecheira Zezé
Atualmente Zezé cuida de 15 crianças, mas chegou a cuidar de até 23 de uma vez, totalmente sozinha, no início deste trabalho. Hoje em dia, essas 15 se dividem em turnos da manhã e da tarde, a depender do horário que vão para a escola.
Às vezes, Zezé leva algumas delas para a escola e até a van escolar de um projeto da região que as leva de volta para a casa. Depois, os pais as buscam quando voltam do trabalho. Geralmente, todas já foram embora às 20h.
“É igual filho”
Maria José conta que, em todos esses anos, foram estas crianças que a ajudaram a continuar vivendo e sobrevivendo. Não só pelo pequeno pagamento que ela recebe das mães todos os meses, mas principalmente pelo carinho e amor de cada uma das crianças que a ajudou a passar por momentos tão complicados, especialmente o câncer de mama, que desenvolveu em 2018.
“A gente pega amor e vínculo. É igual filho. Tem criança que me chama de mãe. E eles me ajudaram a passar pela pior fase da doença. Foram meu apoio quando eu mais precisei”, se lembra ela ao contar sobre a doença.
Até o ano de 2009, Zezé trabalhava como diarista, mas ficou desempregada quando começou a passar mal com frequência, com necessidade de se ausentar do trabalho e passar mais tempo em casa. Neste mesmo ano, uma amiga deu a ideia de se tornar mãe crecheira.
Zezé não imaginava que a atividade iria crescer tanto, a ponto de se tornar seu principal trabalho. Daí por diante, ela passou a conciliar o tempo entre cuidar das crianças e da casa e fazer o tratamento contra o câncer, que incluía a quimioterapia, que a deixava muito debilitada.
Em setembro de 2019, as sessões de quimioterapia acabaram e em 2020 começaram as de radioterapia. Era impossível cuidar das crianças sozinha e tão fragilizada com o tratamento nestes três anos. Neste momento, a ajuda veio das próprias mães que ficavam alguns dias na casa de Zezé, e ainda das crianças mais velhas que ajudavam a cuidar das mais novas e dela própria.
“Os maiores viam que, às vezes, eu não conseguia levantar e pegavam água pra mim, perguntavam se eu precisava de alguma coisa. Eles me ajudaram a passar por tudo, a não entrar em depressão por causa da doença”.
Além disso, a irmã de Zezé, que mora em Goiânia (GO), também passou seis meses na casa dela para ajudar com a casa, as crianças e o tratamento. “Mas como ela também tinha criança pequena, ela não podia ficar muito comigo aqui, tinha que voltar pra família dela em Goiânia”, lembrou Zezé.
Os próximos dias ainda foram difíceis, mas ela conseguiu retirar a mama pelo SUS e começou a se recuperar. Atualmente ela não tem mais diagnóstico de câncer. Entre remédios que toma todas as noites, exames periódicos e tratamento que precisa fazer de seis em seis meses, as crianças estão com Zezé.
Em todo esse tempo, algumas crianças entravam e saíam da casa e dos braços dela, mas não da lembrança. Ela sempre cuidou e cuida até hoje de crianças de 1 a 12 anos porque, como ela explica, a partir desta idade elas já começam a ficar sozinhas em casa, ou a ajudar os pais em outras atividades.
Desafios e planos
No dia 1º de outubro de 2025, enquanto lavava as louças acumuladas do almoço e do lanche das crianças pensava nos principais desafios deste trabalho que, segundo ela, apesar da correria é gratificante.
“O maior desafio é a alimentação delas. Porque as mães não têm condições. Então eu sempre tenho que arcar com a maioria das coisas. Tem até umas mães que conseguem dar o básico, como arroz, feijão, óleo…. Mas é só isso”.
Além disso, apesar das conquistas atuais em relação à época que Elvira e Geralda eram mães crecheiras, Zezé não conta com nenhum recurso público. Maria José diz que não gosta de receber ajuda em dinheiro porque se preocupa com a possibilidade de pensarem que ela é, de alguma forma, “aproveitadora”.
Em 2023, ela se mudou de casa para construir uma estrutura melhor para as crianças e assim tentar entrar em algum programa do governo. A casa tem quatro cômodos: uma sala com televisão pequena, uma cozinha com armários, vasilhas espalhadas e um fogão pequeno, um quarto e um banheiro. Mas o quintal de cimento, mesmo em reforma, é a parte preferida das crianças. Para ela é o que mais importa.


Neste local, ela paga aluguel. Onde morava antigamente, ali perto, é uma casa própria dela. No entanto, após a separação do marido, ele ficou morando lá e ela achou por bem procurar um quintal maior para as crianças, mesmo que precisasse pagar aluguel. Porém, o espaço ainda está em reforma, desde que se mudou há três anos e ela precisou organizar rifas para ajudar com o valor.
Ela tem esperanças de conseguir fazer a melhor reforma para as crianças.
Gratidão crecheira
Uma das crianças que fica com Zezé é o Artur. Ele tem nove anos e chegou à casa de Zezé com 18 dias de nascido. Ele fala com orgulho que está ali desde que nasceu e que adora ficar naquela casa.
“Brinco aqui, brinco na rua, assisto televisão, como… eu faço tudo aqui. Tem um montão de criança aqui que são minhas amigas”.
Artur tem quatro irmãos e todos ficam sob os cuidados de Zezé. A mais velha tem 12 anos e o mais novo fará seis meses em dezembro de 2025. Eles são filhos da Zilane Lima de Brito, que precisa deixar as crianças para ir trabalhar.
Ela tem 33 anos e também mora no Sol Nascente, a poucos metros da casa de Maria José. Ela conta que precisou de Zezé desde que chegou ao Sol Nascente, há 12 anos, depois da indicação de um amigo. Ela lembra que todos os filhos ficaram com Zezé desde recém-nascidos.
“Eu sempre precisei da dona José e das creches. Mas como eu sempre cheguei tarde, o horário da creche de manhã não é suficiente e preciso deixar eles com ela. Aí eles ficam até o horário que eu chego em casa e busco eles”.
Ela é natural da Bahia, mas veio para o Distrito Federal tentar uma vida melhor. Hoje só ela e o companheiro moram na capital, sem o restante da família e ela trabalha como cabeleireira o dia todo para sustentar a casa e os filhos.
Ela diz que a ajuda de Zezé é ainda mais essencial para ela enquanto cabeleireira porque muitas vezes não tem horário fixo de trabalho, especialmente no fim do ano.
Atualmente Zilane está de licença maternidade e passa boa tarde do tempo com o filho recém-nascido na casa de Zezé. “Primeiro porque eu acabo ajudando ela com as outras crianças e com a casa e ela me ajuda. E também porque minhas crianças gostam muito de ficar aqui. Eles nem querem ficar em casa”, justifica.
Zilane considera que o preço que Zezé cobra é “bem em conta” (250 reais), principalmente considerando todo o trabalho que tem. Ela diz que o investimento que Zezé tem feito na casa é muito alto, para tentar deixar o melhor para as crianças, por mais simples que seja. “Não pesa no bolso dos pais, até porque as pessoas aqui do Sol Nascente têm renda baixa. Se fosse mais deixar em uma creche particular, ninguém teria condições”.
O Sol Nascente tem renda per capita de 915 reais, de acordo com os dados da última PDAP, de 2021.
Zilane é muito grata a Zezé. Ela tem certeza que todos os filhos gostam muito dela e que o trabalho que ela faz de mãe crecheira é muito cuidadoso e amoroso, “mesmo diante de todas as dificuldades que ela passou”.
Ela reflete que “a vida não é fácil como é mostrado na televisão. Se a gente pudesse sair de casa às 8h horas e sair do trabalho às 17h e passar o resto do dia com os filhos. Não é assim, não tem como. A vida faz a gente precisar de trabalhos como esse que a dona José faz”!
Creche precisa de doações
Em 2013, em meio a montanhas de lixo com quase 55 metros de altura, naquele que já foi o maior lixão da América Latina, havia crianças catando o que comer na Estrutural (DF).
Em frente a uma das casas próximas, havia uma mulher de muletas que observava os pequenos e dizia: aí tem rato e muita sujeira, vocês vão ficar doentes. Venham aqui que eu dou um biscoito”. Não tinha muito, mas pelo menos um para cada era possível.
Com o passar dos dias, apareciam novas crianças naquele lixão na esperança de conseguir um biscoito da “tia” que ficava sentada no mesmo lugar todos os dias, ao lados das muletas.
Nem com este equipamento ela conseguia andar direito por causa de um carro que a atropelou enquanto ela vendia frutas em uma BR. Depois do acidente, ela ficou sem andar e, por isso, ficava sentada por horas à espera do então companheiro chegar para ajudá-la a se levantar.
Em um desses dias, uma menina de oito anos de idade veio em direção à mulher. Ela esperava que fosse para pedir um biscoito, como já havia feito outras vezes. Mas foi surpreendida por uma pergunta: “tia, a senhora quer que eu te ajude a ir tomar banho ou pentear os cabelos”?
No dia seguinte, outro menino que também tinha o costume de pedir biscoitos perguntou: “tia, a senhora quer que eu te ajude a levantar e te carregue para dentro de casa”?
Emocionada, ela aceitou todas as ajudas. Assim, pelo menos oito crianças começaram a entrar na casa dela e ela passou a “adorar a companhia”.
As crianças pediam pra ficar na casa dela todos os dias e comer biscoitos. Mas a mulher disse: “eu não tenho condições de dar comida pra vocês”. Apesar da fala, o coração estava comovido e com vontade de ajudá-las, mesmo sem condições.
Foi aí que pensou em ir à igreja pedir um conselho para o padre e perguntou às crianças: “vocês têm condições de me levar até a igreja?”
Com a resposta positiva dos pequenos, todos foram até a igreja e voltaram com a notícia de que a igreja iria ajudá-la financeiramente a cuidar das crianças. Teria que ser na casa dela mesmo, de forma simples, mas o sacerdote enviaria porções de arroz, frango, biscoito e outros tipos de alimento.
No dia seguinte a essa conversa, nasceu oficialmente a creche da dona Nazaré.
Sem fachada, em frente ao lixão e com uma lona estendida para ampliar o espaço, Maria de Nazaré Almeida de Lima Fernandes, passou a ser conhecida na região por cuidar de crianças, como é até hoje.
Na época, ela chamou uma vizinha para ajudá-la porque ainda estava com as muletas e com o braço machucado. Aos poucos, os movimentos foram voltando e hoje ela se locomove e se movimenta normalmente.
Em 2025, ela tem 60 anos e guarda com carinho toda a história, que nunca imaginou. “Eu não tive ideia de abrir uma creche. Foi algo que veio até mim. Nunca nem passava isso pela minha cabeça”.

Desafios diários
Ela se lembra de uma criança que disse algo que a comoveu logo quando começaram a entrar na casa dela: “tia, quando a gente está aqui na sua casa eu nem preciso ir ao mercado roubar”.
Nazaré se lembra que de início o repreendeu: “você rouba? Isso não pode!” E a resposta foi: mas tia, se eu não roubar, minha família não tem o que comer.
Atualmente ela cuida de 20 a 35 crianças no mesmo espaço, mas que foi reformado com a ajuda de igrejas da comunidade. Ela também conta com mais três mulheres da região.
Nazaré coordena tudo e é quem corre atrás de doações de roupas, cestas básicas e ajuda financeira. Todas juntas, elas fazem comida (café, almoço e jantar) e cuidam das crianças que têm entre cinco e 10 anos. Elas vão para a creche no turno contrário às aulas em escolas públicas da região.
Nazaré explica que a forma que elas cuidam das crianças menores, abaixo de cinco anos, é procurando doadores de enxoval, fraldas e cestas básicas para as mães.
“A gente ajuda as mães que acabam ficando sem emprego para cuidar do bebê. E eu não tenho condições de cuidar dos menorzinhos porque eles precisam de muita atenção. E acaba que as mães deles realmente não vão trabalhar para cuidar deles”.
No entanto, é um trabalho desafiador. “Eu tenho medo de faltar alguma coisa para as minhas crianças ou para as mães dos bebês porque eu sempre dependo da solidariedade dos outros”.
Até 2024, Nazaré morava no mesmo lugar onde é a creche. O local com dois andares tinha na parte de baixo uma garagem e em cima uma cozinha, dois “quartinhos”, um banheiro e uma grande área de concreto para as crianças brincarem.
O modelo é o mesmo das casas de Elvira, Geralda e Zezé: a casa pequena, com todos os cômodos pequenos, mas a área para as crianças é grande.
Tragédia e recomeço
Um desses “quartinhos”, como Nazaré descreve, era dela e o outro do filho dela. No entanto, no dia do Natal (25 de dezembro) de 2024, ele morreu assassinado aos 28 anos e Nazaré não conseguiu mais chamar de lar o local onde vivia com o filho “porque a saudade dói demais”.
“Algumas pessoas já tinham me aconselhado a separar a minha casa da creche porque muita gente batia no meu portão me pedindo comida, água, várias doações….e eu não conseguia descansar e às vezes era ruim até pras crianças. Mas eu não tinha condições de pagar um aluguel. Só que depois que meu filho faleceu, eu não tive mais condições de ver aquele lugar sem ele”, explica.
Depois da tragédia, Nazaré entrou em depressão e chegou a abandonar a creche por uns dias. Apesar de as crianças virem até ela, ela só conseguia ficar dentro do quarto escuro chorando de saudade do filho.
“Eu não tinha estrutura. Em todo canto eu via meu filho. Eu escutava a voz dele me chamando… eu fiquei muito ruim e fiquei uns quatro meses assim”.
Aos poucos, ela foi aceitando receber mais visitas dentro do quarto, seja das crianças que cuidava ou pessoas da comunidade, especialmente de outra igreja que passou a frequentar.
Ela se lembra de uma visita que foi muito marcante. “Foram duas meninas, uma de 6 e uma de 3 anos me abraçar quando eu estava chorando e disseram que estavam com saudades de mim”
Assim, quando Nazaré resolveu sair do quarto depois da depressão, a igreja alugou um pequeno apartamento para que ela morasse.
O local é próximo à creche, que ficou exclusiva para o atendimento das crianças. Nazaré, além das atividades na creche, percorre potenciais doadores para pedir e recolher cestas básicas, brinquedos, roupas e outras necessidades. Enquanto a crecheira dos nossos tempos busca o sustento, as crianças ficam com as outras duas vizinhas.
As crianças ficam com saudade nos momentos de ausência. “Elas descobriram onde eu moro e vão lá bater na porta quando eu não apareço. Ontem mesmo estava cheio de crianças aqui comigo”.
Nazaré diz que, apesar da perda do filho, não se sente mais sozinha por causa dessas crianças, como àquelas que, hoje adultas, a ajudaram a andar, tomar banho e até pentear os cabelos.
Ela afirma que sustentar uma creche só com doações é muito difícil. É um trabalho que envolve até “muita humilhação”, como a própria Nazaré descreveu, mas muitas vidas de crianças e adultos resgatadas do lixo, das drogas e até das ruas.
Por Milena Dias
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


