Ex-detento ensina crianças da periferia do DF a andar de skate para afastá-los do crime

COMPARTILHE ESSA MATÉRIA

Todo final de tarde, de segunda a sexta, pelas ruas de Taguatinga (DF), um grupo de cinco a sete crianças se reúne para andar de skate lideradas por um homem que garante ter aprendido a se levantar depois da queda.

As crianças dividem um número limitado de apenas três pranchas, mas se divertem enquanto aprendem pelas praças e ruas da cidade, não apenas andar, mas também a como viver a filosofia do esporte.

Foto: Divulgação Pro Radical Skate

Sem CNPJ, sem patrocínio e sem apoio do poder público, Robson Diego de Menezes Oliveira, 43 anos, criou o projeto Brasil Skate School em 2019. “Eu faço por eles o que eu gostaria que fosse feito por mim lá na minha época”, afirma.

Aos 43 anos de idade, Robson dedica sua vida a um projeto esportivo fundado por ele em 2018, buscando apoiar gratuitamente os jovens e suas famílias. Ele já foi preso. Hoje a vida é outra.

Durante a semana, logo após sair do seu trabalho no Hospital Regional de Taguatinga (HRT), onde trabalha como auxiliar de limpeza, ele busca três skates em casa e ensina do final da tarde até a noite.

“Eu não sou pai, não sou mãe, eu estou lá como instrutor de skate, tentando empregar alguma disciplina”, comenta. 

A ideia principal do projeto nasceu do desejo do rapaz, de que crianças mais necessitadas e que moram em regiões com índice maior de criminalidade, não tivessem que recorrer ao crime como escape.

Assim, seus ensinamentos durante as aulas vão além do skate, eles são a forma como Robson transmite aos pequenos a como aplicar o respeito e solidariedade em suas vidas, incluindo a busca de doações e apoio financeiro para com seus alunos.

Queda

Criado em Brasília, em um bairro vulnerável e que de acordo com ele, cheio de criminalidade,  Robson cresceu com sua mãe ausente tendo que se dedicar ao trabalho, acabou se envolvendo e criando vínculos com os criminosos da região.

No entanto, na adolescência conheceu em um amigo, a porta de entrada para o esporte, onde os dois dividiam o tênis e o skate para poderem se divertir.

O contato com aquela nova realidade, fez com que ele entregasse um novo mundo, um lugar afetuoso e que mais importante, o afastou das drogas. “Eu não tinha vida, o skate me deu a vida” relata. 

Apesar da virada, Robson ainda enfrentava uma falta de recursos e as dificuldades financeiras dentro de casa (com o salário equivalente a 250 reais de sua mãe) ele se viu numa situação em que o mundo do crime virou uma opção novamente.

Foi logo após isso que em uma tentativa de assalto para obter recursos para o skate, voltou ao mundo do crime.

O assalto partiu de um convite de um dos skatistas do grupo em que Robson andava entre 2007 e 2008. O homem sabendo do passado dele e das dificuldades financeiras, com aluguel e alimentação que passava, o convidou. Aquela escolha marcaria o início do pior momento de sua vida, destaca.

Com a conclusão do roubo, Robson buscou aquilo que ele sempre desejou mas não pode ter, roupas boas, tênis de marca, um skate com peças de alto padrão, objetos que desejava e que o ensinaram desde a infância de acordo com ele, que eram o significado de “vencer na vida”. Suas ações, no entanto, chamaram a atenção da polícia, o que levou a fugir de casa.

No ano de 2008, ele entrou no mundo do tráfico de drogas, que já tinha tido contato na infância, onde aos 10 anos já tinha consumido sete tipos de droga diferentes. Agora sua vida se resumia ao consumo e venda desses entorpecentes, além de praticar furtos por toda cidade.

Após ser detido em pelo menos duas ocasiões, em 2016 ele foi preso no presídio da Papuda, em Brasília (DF), lugar que ele denominou como um “depósito dos rejeitados”.

Mas, foi no sistema penitenciário onde, por meio de leituras e diálogos com grupos religiosos, Robson começou a refletir sobre sua situação e finalmente se desprender da criminalidade.

Assista a relato

Projeto

Ao ser solto em 2018, ele recebeu um convite de seu ex-cunhado para comandar o projeto “Pro Radical Skate”, sediado no Recanto das Emas e Taguatinga, e que tinha como finalidade ensinar crianças da região a andarem de skate de forma totalmente gratuita.

Mesmo quando o financiamento público do projeto cessou, sua determinação e paixão pelo skate o mantiveram firme, assim, começando a dar aulas voluntariamente. “Quando falei com as mães e alunos eles começaram a chorar. Ficaram muito tristes e eu senti vontade de continuar com eles”, relatou.

Foto: Divulgação Pro Radical Skate

No começo, o projeto tinha seis skatistas voluntários, mas em questão de um ano o número subiu para 50 membros, incluindo alunos e instrutores.

O projeto, apesar de ainda continuar de maneira voluntária, conseguiu apoio de lojas especializadas em skate que doavam peças para incentivar a cultura e o projeto.

“Isso me tirou das drogas e da criminalidade pela primeira vez, pois, por amor, eu mantive meus rolês de skate, com vínculos que a gente começou a construir (ao longo do tempo). O skate foi a ferramenta de transformação da minha vida”, disse Robson.

No entanto, essa trajetória de superação passou por mais um revés com a pandemia da Covid-19 em 2020. O grupo que ele havia criado já tinha alcançado um total de oito cidades no DF e entorno, porém com o isolamento social, muitos desses skatistas abandonaram Robson, levando a um fim do projeto.

O ocorrido fez com que ele partisse para uma nova recaída, no desespero da falta de apoio para seus alunos, ele retornou aos pequenos crimes e ao vício com as drogas, levando-o a ser preso novamente, em 2022.

Após um ano e quatro meses preso, em novembro de 2023, Robson foi solto e desde então permanece afastado do crime.

No ano seguinte à sua soltura, em 2024, ele voltou com o projeto na região em que havia conseguido uma casa, em Taguatinga DF. Para ele, agora tudo estava mais claro. Toda essa jornada carcerária o fez amadurecer, segundo acredita. 

Apoio

Em 2025, Robson voltou com o projeto, mesmo com a falta de verba e materiais, com o apoio de amigos e doadores ele conseguiu trazer o projeto novamente. Hugo, de 46 anos, é deficiente físico e conheceu o projeto de forma ocasional, enquanto assistia a Robson ensinando as crianças da sua vizinhança em Taguatinga, foi então que ele se aproximou para conhecer melhor do que se tratava. Ali ambos desenvolveram uma forte amizade.

O amigo de Robson destacou a dificuldade que o projeto tem passado para se reerguer, e a preocupação que sente pelo esforço que o mesmo aplica diariamente.

“Precisamos de patrocínio para que o projeto evolua, e para que as crianças se sintam incentivadas a seguir”, declara Hugo.

No skate, cair faz parte do processo, mas levantar é o que define quem continua. Robson entende isso na prática e traduz sua própria trajetória como um exercício constante de equilíbrio.

“As dificuldades que foram impostas na minha vida e que eu não gostei de ter passado por elas, hoje são a força motora para eu poder levar incentivo para um monte de pessoas”, afirma.

Para os skatistas, quando falta rolamento ou a base está ruim, o movimento trava, e Robson sente isso diariamente no projeto.

“Eu vou recomeçar com três skates”, diz, consciente de que é muito, mas é poucos. Sem estrutura formal, ele explica que a dificuldade não é só material.

“Como não sou CNPJ, eu não encontro mais outras pessoas que queiram abraçar o mundo”.

Ainda assim, a solidariedade sustenta o projeto na insistência, na tentativa diária de continuar andando mesmo com pouco, porque, para ele, a necessidade é bem maior do que isso.

Resistência

Treinar skate exige repetição, paciência e insistência, valores que Robson carrega como filosofia de vida. Ele sabe que a redenção não acontece de uma vez, mas no gesto diário de continuar.

Ao explicar que seu propósito não depende de reconhecimento. Para ele, a solidariedade tem efeito interno e permanente.

“Você desperta uma centelha de felicidade dentro de você que não depende da validação de ninguém”.

É por isso que segue ensinando, cuidando e orientando, mesmo diante das dificuldades, acreditando que, assim como no skate, quem persiste encontra sentido no caminho e não somente na chegada.

Por Lucas de Moraes Gonçalves e Pedro Vianna

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.

Você tem o direito de:
Compartilhar — copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato para qualquer fim, mesmo que comercial.

Atribuição — Você deve dar o crédito apropriado, prover um link para a licença e indicar se mudanças foram feitas. Você deve fazê-lo em qualquer circunstância razoável, mas de nenhuma maneira que sugira que o licenciante apoia você ou o seu uso.

SemDerivações — Se você remixar, transformar ou criar a partir do material, você não pode distribuir o material modificado.

A Agência de Notícias é um projeto de extensão do curso de Jornalismo com atuação diária de estudantes no desenvolvimento de textos, fotografias, áudio e vídeos com a supervisão de professores dos cursos de comunicação

plugins premium WordPress