“Michael”: cinebiografia adentra pela músico do ídolo, mas evita polêmicas

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O filme biográfico “Michael” estreia nos cinemas brasileiros em 23 de abril e chega carregado de expectativas proporcionais à lenda que retrata. Dirigido por Antoine Fuqua, o mesmo de “Dia de Treiinamento”, o longa percorre a trajetória do Rei do Pop desde os tempos da banda Jackson Five até a consagração global nos anos 1980, com mais de 30 músicas do catálogo de Michael Jackson utilizadas ao longo da narrativa.

Confira o trailer de “Michael”

O filme é, em muitos aspectos, exatamente o que promete. As sequências musicais são, sem sombra de dúvida, o coração da película.

As coreografias reproduzem com precisão os passos que tornaram Michael Jackson uma referência universal, o moonwalk, o giro característico, a inclinação impossível.

Cada música é uma explosão de energia e técnica que arranca aplausos do público. São momentos que fazem o cinema valer a pena, que justificam a tela grande e a pipoca.

O acerto do elenco técnico

Colman Domingo interpreta o pai do Michael Jackson e ele entende muito bem o que este filme precisa. O ator responde à expectativa com uma bela atuação. Em cada cena que aparece, Domingo rouba a atenção de todos ao redor.

Com um olhar frio e uma presença que oscila entre o autoritarismo e um amor distorcido, ele constrói um pai que é a razão do sucesso e o trauma central da narrativa.

É uma atuação de vilão de blockbuster, e é exatamente isso que o roteiro exige. Joe Jackson é o antagonista, Michael é o herói. A estrutura narrativa do filme se aproxima mais de uma história de super-herói do que de uma cinebiografia tradicional.

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Michael Jackson é interpretado por seu sobrinho na vida real, Jaafar Jackson, em sua estreia no cinema. A responsabilidade era enorme, e o jovem ator sai-se bem. Há algo tocante na entrega de Jaafar, nos momentos musicais, ele não imita o tio, ele o encarna.

A gesticulação, o jeito de fechar os olhos antes de entrar em cena são detalhes que demonstram um estudo e um respeito ao legado que carrega no próprio sobrenome.

Para um primeiro filme, é uma performance que se destaca. As limitações aparecem nos momentos de drama pesado, onde a câmera fecha no rosto em busca de uma complexidade que o roteiro, curiosamente, não lhe permite expressar. Jaafar faz o que pode com o que tem, e o que tem é um personagem que o filme trata como um ser quase intocável.

A maquiagem merece menção especial. A equipe responsável executa com maestria a transformação gradual da aparência de Michael Jackson ao longo das décadas, das feições jovens do Jackson 5 às mudanças mais marcantes da fase adulta. É um trabalho técnico refinado que contribui para a imersão sem nunca parecer forçado.

Foto: Lionsgate/Divulgação

Onde estão as polêmicas?

Aqui reside a ferida mais exposta do longa, os produtores e a família Jackson optam pelo caminho seguro. As acusações de abuso contra crianças, os processos, as contradições de uma vida passada sob observação absoluta, tudo isso é ignorado.

O Michael retratado aqui é um herói sem controvérsias. Os irmãos Jackson, por sua vez, surgem como coadjuvantes , suporte emocional perfeito para a jornada do protagonista.

A ausência das polêmicas é um problema de roteiro. Um personagem sem contradições é um personagem sem profundidade. Ao proteger Michael Jackson de si mesmo, o roteiro de John Logan (que escreveu Gladiador) o reduz a um símbolo, quando a vida real oferecia material para um ser humano muito mais complexo.

“Michael” é um filme que você vai aplaudir e depois esquecer. As cenas musicais justificam o ingresso e fazem jus ao legado de um dos maiores artistas da história. Colman Domingo é extraordinário. Jaafar Jackson surpreende positivamente. Mas quando as músicas param é uma cinebiografia que escolheu o monumento ao invés de tratar sobre a vida em mais nuances.

Por Felipe Farias (repórter assistiu ao filme a convite do Espaço/Z)

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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