Em cartaz no CCBB Brasília, a mostra “Joaquín Torres García – 150 anos” convoca o visitante a inverter mapas, reposicionar o olhar e reconhecer, na América Latina um centro pulsante de criação e pensamento. O acesso é gratuito.
A inversão não é apenas geográfica, é um gesto que desestabiliza hierarquias, desloca centralidades e reivindica autonomia. “Seria um erro mostrar Torres García como ele sempre foi mostrado, sem diálogo com o presente. Essa exposição também é um gesto político”, afirma o curador Saulo di Tarso em entrevista à Agência Ceub.
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Leia mais sobre a exposição sobre Torres García
A latinidade vive hoje um ápice na cultura pop, seja pela apresentação de Bad Bunny no Super Bowl ou de Shakira na praia de Copacabana. Mas a exposição do CCBB nasce muito antes disso. É o fruto de uma inquietação persistente do curador Saulo di Tarso diante da história da arte no continente.
“Essa discussão sobre a América Latina não é de agora, é uma construção de décadas”, afirma.
“Eu entendi, ao longo do tempo, as barreiras que impedem a circulação da nossa arte”, disse o curador.
O instante da revelação
O encontro de Saulo com a obra de Joaquín Torres García se deu por uma obra do acaso. Em 2009, numa viagem ao Rio Grande do Sul, ele comprou um jornal numa banca e descobriu que os uruguaios iriam eleger o próximo presidente no dia seguinte.
Não pensou duas vezes: atravessou a fronteira e hospedou-se em frente à Praça da Independência em Montevidéu, para acompanhar a movimentação do povo.
A poucos metros de seu hotel estava o museu dedicado a Torres García. “Eu não tinha afeição pela obra dele antes de entrar no museu”, confessa. “Quando eu vi aquilo, foi definitivo pra mim. Eu fui desmontado internamente.”
Ali, entre pinturas, escritos e brinquedos, se revelou o artista que não cabia nas leituras apressadas. alguém que dissolvia fronteiras entre arte e vida, entre rigor formal e imaginação lúdica.
Virar o mundo do avesso
No centro dessa travessia está a imagem que se tornou ícone: a América do Sul invertida. Reproduzida à exaustão em bonés, camisetas e até tatuagens, a obra está exposta no CCBB, num convite a que o público aprecie seu sentido original.
“Não é só um mapa, é uma construção de pensamento”, diz o curador. “Nosso norte é o sul, como diz o próprio Torres García”.
Cinzas e memória
No processo de preparação da exposição, há uma memória que dificultava as negociações: o incêndio de 1978 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que consumiu parte da obra de Torres García no Brasil. O curador reconhece que mais que recordar uma perda, é preciso interrogar o que foi feito.
“O Brasil ainda não deu uma resposta diplomática sobre o incêndio de 1978”, afirma Saulo.Se hoje se fala em globalidade, Torres García já a apresentava décadas atrás.
O pensamento atravessa continentes: da África às culturas indo-americanas, do Mediterrâneo à modernidade europeia. “Ele foi um dos primeiros a enxergar a arte como um sistema global. Eu o considero inclusive o primeiro artista global”, observa o curador.
A exposição
Para o visitante percorrer a exposição com leveza, foi necessário, por trás, toda uma engrenagem. A produtora Cynthia Taboada explica o processo que se estende por anos, atravessando fronteiras e negociações delicadas.
“A produção é um trabalho de começo, meio e fim, que pode levar anos, da concepção até a implantação da exposição.” Reunir obras dispersas pelo mundo exige persistência, diálogo e confiança.
“Um dos maiores desafios é manter os vínculos com os emprestadores ao longo do tempo”. Cada deslocamento é milimetricamente calculado: “A obra nunca é movimentada sem acompanhamento técnico especializado.”

A presença de um ícone
Entre as muitas peças reunidas, uma concentra olhares e simbolismos: “América Invertida”. Sua presença em Brasília é uma conquista.
“Trazer ‘América Invertida’ foi um grande orgulho, pois foi uma negociação muito delicada”, afirma Cynthia. “Imagine que os museus também precisam receber seus próprios visitantes, mas mesmo assim emprestaram suas obras”.
A “América Invertida” tem uma fama toda particular: “A gente costuma chamar de uma ‘Mona Lisa latino-americana’”, brinca Cynthia.

Entre o concreto e o céu
Em Brasília, a exposição encontra um cenário que amplia sua potência: a arquitetura aberta do CCBB Brasília. Ali, o percurso da exposição não se encerra nas paredes.
“Essa não é uma exposição para ver, é para vivenciar”, afirma o curador. “A exposição está dentro da vida e a vida dentro da exposição.”
Do lado de fora, crianças correm, famílias se espalham pelo gramado e o céu de Brasília se impõe. Do lado de dentro, formas, símbolos e linhas desenhadas por diversos artistas dialogam com esse movimento.

Exposição em trânsito
Como o próprio pensamento que a sustenta, a mostra não é fixa. Iniciada em São Paulo, agora ela desembarca em Brasília, de onde partirá para Belo Horizonte. A exposição se transforma a cada cidade, reconfigurando-se no espaço disponível.
“Cada itinerância é quase uma nova exposição. O CCBB São Paulo não tem nada a ver com o de Brasília”, explica Cynthia. “É preciso recriar o percurso para garantir a melhor experiência.”
O convite
A mostra devolve profundidade a esse gesto aparentemente simples de virar o mapa de cabeça para baixo. E, ao fazê-lo, sugere que talvez o mundo não precise ser reinventado, apenas reorientado.
“Muita gente usa a ‘América Invertida’ sem saber quem é o autor ou o que ela significa”, observa Saulo.
Serviço
Exposição: Joaquín Torres García – 150 anos
Local: CCBB Brasília – SCES Trecho 02, Lote 22 – Setor de Clubes Sul, Brasília (DF)
Período: até 21 de junho de 2026, de terça a domingo, das 9h às 21h (entrada até 20h40)
Entrada: gratuita
Por Danilo Lucena
Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira


