Na madrugada do brasiliense DJ Fellet, o estilo frenético mistura-se à criatividade serena

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Às 6h30 da manhã, enquanto o último eco das caixas de som ainda vibra nos ouvidos de quem deixou as pistas de Brasília, Eduardo Fellet já está de pé. O som que o acompanha nesse horário não é o grave denso do trap ou a batida frenética do funk, mas sim o seu favorito: o canto dos pássaros e o vácuo de uma cidade que ainda espreguiça.

Dj Fellet. Foto: Anna Greg

O DJ Fellet, figura central na noite candanga, é um homem de contrastes que começam na aparência. Com um bigode bem desenhado que remete a uma estética vintage e um sorriso gentil que desarma qualquer pressa, ele não parece o tipo que vive do caos das festas. Eduardo fala como quem discoteca, faz pausas longas, pensa, ajusta o tom e só então solta a resposta, com a mesma precisão com que encaixa um BPM no outro.

Para quem o vê hoje comandando palcos como o do Contexto, é difícil imaginar que a “fórmula Fellet” é composta por ingredientes que raramente frequentam o backstage.

“É uma fórmula difícil de funcionar. Dj, corredor, que não bebe, não fuma, toca funk, mpb e house no mesmo final de semana”, confessa ele, ajeitando o estilo que carrega seu repertório. Eduardo é o “desenrolado” que prefere o suor da corrida às 10h20 e o silêncio do tabuleiro de xadrez ao burburinho vazio das áreas VIPs.

Barulho e afeto

Essa inquietude de estar sempre fazendo algo, de ser um corpo em eterno movimento, vem de berço. Na casa da família de Fellet, o barulho sempre foi sinônimo de afeto. A irmã recorda com clareza o início dessa jornada, quando Eduardo era apenas um menino testando as fronteiras da própria curiosidade:

“O Eduardo desde pequeno testava novos hobbies o tempo todo, parkour, basquete, desenho… ver ele fazendo algo novo era parte da rotina. Eu me lembro dele com uns 13 ou 14 anos, passava horas brincando num app de remixagem no iPad.”

A música sempre foi o dialeto oficial da casa. Entre um pai colecionador de LPs de rock que brinca de tocar guitarra e uma mãe que homenageou Ed Motta ao batizar o filho, Eduardo cresceu entendendo que o som é uma forma de carinho. A irmã descreve a casa como um lugar onde a música nunca para, um “caos organizado” que se reflete no próprio quarto do DJ:

“Até uma amiga me disse uma vez que nossa casa era muito barulhenta, mas de um jeito bom, viva, divertida e alegre. O Eduardo tem a paciência da mamãe, mas principalmente a determinação do papai em tudo que faz.”

Antes de ser lançado como DJ, Fellet foi o cara da câmera e o estudante de moda, explorando tudo o que o interessava. Esse background visual é o que dá a ele a segurança para subir no palco e apresentar algo que vai além do som; é uma performance de presença.

Uma de suas melhores amigas, que o conhece desde o colégio, lembra que ele sempre foi o centro criativo do grupo, o menino que chamava todo mundo para participar de projetos que pareciam maiores que a idade deles:

“Eu lembro do dia que ele me falou que comprou um ‘brinquedinho’ novo e pediu sugestões de músicas. Um belo dia eu cheguei lá na cobertura e ele tava tocando. Cada vez que vejo ele, ele está mais confiante e maduro.”

Essa transição do menino que toca na cobertura para o DJ que estuda sets de Fred Again e Mu540 aconteceu na velocidade de um clique. O que começou como um hobby de um filmmaker sorridente e corajoso, tornou-se uma das carreiras mais promissoras de Brasília. 

Estudioso

Apesar da ascensão, Eduardo mantém a essência de quem observa a cena de fora antes de entrar nela. Ele estuda o público, faz curadorias obsessivas no Spotify e revisita as memórias dos filmes de viagem que o pai fazia na infância para encontrar a cor do seu próximo set. Para ele, ser DJ não é sobre o barulho pelo barulho, mas sobre a conexão silenciosa que se cria quando a música certa toca no momento exato.

Ele não pode ser reconhecido apenas pelo movimento frenético de quem não sabe parar, mas o de quem entende que descanso e criação são a mesma coisa dita em idiomas diferentes. O som que ele deixa não some quando as caixas desligam. Ele continua. Nos ouvidos, nas pernas, naquele espaço entre a festa e o dia seguinte que ninguém sabe bem como nomear.

Por Anna Greg

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