Orgulho LGBT: cristãos gays buscam viver a fé longe de julgamentos

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“A igreja é historicamente um espaço homofóbico. Nós não somos respeitados nesse espaço”. A afirmação de Júnior Lopes, de 34 anosz homem gay e católico, resume um conflito vivido por pessoas da comunidade LGBTQIAPN+: a tentativa de conciliar fé e orientação sexual, em ambientes onde frequentemente se sentem rejeitados.

Medo, culpa, isolamento e sofrimento são sentimentos recorrentes nos relatos ouvidos pela reportagem.

Jovens passaram anos com a sexualidade oculta dentro da igreja. Outros se afastaram da religião por não conseguirem lidar com o receio da rejeição e com impasses internos.

João Paulo Júnior, 22, conhece essa realidade. Católico desde a infância, ele entrou no ambiente religioso ainda criança, quando começou a atuar como coroinha durante as missas.

Mas, o caminho para conciliar a fé e a identidade como homem gay foi marcado por conflitos e sofrimento psicológico.

Ao mesmo tempo em que buscava manter a vida religiosa, João lidava com sentimentos e afetos que pareciam incompatíveis com aquilo que aprendia na igreja.

A culpa, segundo ele, era constante e vinha da dificuldade de encontrar espaço para sua sexualidade dentro da doutrina religiosa. Para ele, é inegável a falta de abertura para relacionamentos homossexuais em espaços religiosos.

“Eu procurei válvulas de escape na pornografia ou até em situações de exposição mais perigosas de vida, com pessoas mais velhas. Tudo isso me gerou bastante confusão”.

Hoje, ele gostaria que as pessoas compreendessem que a orientação sexual não é uma escolha. 

“Ser gay traz um sofrimento absurdo na nossa vida, uma confusão na adolescência que gera muitos danos e questões de validação que levamos para a vida inteira”, desabafa.

A busca

Depois de se afastar da igreja, João sentia falta justamente do que a religião havia lhe proporcionado durante anos: o senso de pertencimento.

“Eu precisava de uma comunidade novamente, já que a minha tinha deixado claro que eu não era bem-vindo”. Foi no grupo Diversidade Cristã Brasília que ele encontrou um espaço para compartilhar experiências sem esconder quem era.

Grupo se reúne toda sexta-feira para rezar o terço. Crédito:acervo pessoal 

“É um momento de espiritualidade sincera, em que as pessoas partilham dores muito íntimas e todo mundo se apoia. Isso, para mim, é a definição de comunidade”.

Fé e identidade

A experiência de Atenea Garcia Gómez, 26, foi diferente, mas também marcada pelo medo. Bissexual e católica, ela afirma nunca ter questionado essas duas dimensões da própria identidade.

“Existem duas coisas que eu tenho certeza absoluta. Primeiro, eu acredito na fé católica apostólica romana. Segundo, eu sou uma pessoa bissexual”.

Embora nunca tenha sofrido discriminação diretamente dentro da igreja, Atenea acredita que isso ocorreu porque seus relacionamentos públicos sempre foram com homens.

“A grande questão foi perceber que a igreja fazia isso com outras pessoas e o medo de que um dia acontecesse comigo”. Na época em que atuava como catequista em uma igreja tradicional, ela temia que sua função fosse colocada em risco caso se apaixonasse por uma mulher.

“Eu pensava que, se descobrissem, talvez não me quisessem mais como catequista.”

“Não estou só”

O medo ainda existe, mas hoje ela afirma não carregar esse peso sozinha. “Eu sei que vou estar amparada. Se falarem alguma coisa, está tudo bem, porque eu não estou sozinha e a luta não é só minha.”

Para Atenea, a participação no grupo também fortaleceu a convicção de que pessoas LGBTQIAPN+ têm o mesmo direito de viver a fé como qualquer outra pessoa.

“Eu faço questão de rezar o terço, de lutar para casar na igreja, de participar das catequeses. Deus me criou do jeito que eu sou. Por que esse direito me seria negado?”

Recomeço

Júnior também enfrentou um longo processo de negação. Durante anos, tentou esconder parte de si para permanecer dentro dos padrões esperados pelo ambiente religioso.

“Por muito tempo eu mesmo me subjuguei. Entrei em um processo de depressão, por tentar matar essa parte que existe dentro de mim”. 

O sofrimento acabou afastando-o da igreja durante anos. Apesar disso, nunca abandonou a espiritualidade.

“Deus não julga quem eu sou. Quem julga são as pessoas que estão na igreja.”

Mesmo sendo filho de uma família católica, Júnior também frequenta ritos de outras religiões, como o candomblé e o espiritismo. Ele continuou buscando diferentes formas de viver a fé até conhecer o grupo que acolhe pessoas LGBTQIAPN+.

“Encontrar um grupo de gays voltado para a igreja é um alicerce que traz tranquilidade. O primeiro encontro foi desafiador e cercado de insegurança, mas esses sentimentos rapidamente deram lugar ao acolhimento.

“Me trouxe paz e tranquilidade. É um espaço onde todos podem falar e se abrir.”

Atualmente, Júnior construiu uma relação própria com a espiritualidade. Conversa com Deus diariamente e o considera um amigo.

Laços

Para Camila Santos, coordenadora do Diversidade Cristã Brasília, muitas pessoas chegam ao grupo após experiências de rejeição em ambientes religiosos. Criado em 2013, após a eleição do papa Francisco, o grupo surgiu inspirado em uma prática semelhante, que acontecia no Rio de Janeiro. Hoje, reúne entre 10 a 15 participantes que desejam viver plenamente a fé, mas não encontram espaço para isso em suas paróquias.

Além de pessoas LGBTQIAPN+, o grupo também recebe familiares e religiosos interessados em compreender como tornar as comunidades de fé mais acolhedoras. 

Na opinião da coordenadora, a rejeição enfrentada pelas pessoas ajuda a explicar o afastamento de muitos fiéis das igrejas. “À medida que isso acontece com mais frequência, elas vão deixando de frequentar os espaços religiosos”. No coletivo, o acolhimento começa pela escuta.

“Quando a pessoa vem e traz a sua história, a gente acolhe, ouve e se coloca à disposição. Como estamos em um ambiente religioso, a primeira coisa que oferecemos é uma assistência espiritual.”

Ela afirma que muitos participantes chegam desconfiados após experiências negativas em outros espaços religiosos.  “Muita gente vem desconfiada, sem acreditar que é possível ser quem é e viver a fé de maneira livre e tranquila. A maior parte sai aliviada.”

Portas abertas

Em Brasília, iniciativas semelhantes têm reunido pessoas que tentam reconstruir vínculos com a religião após episódios de exclusão ou que simplesmente procuram um espaço onde possam exercer a espiritualidade. Para muitos participantes, esses espaços representam a possibilidade de viver a fé em comunidade sem precisar esconder quem são.

Todas as pessoas são convidadas a comungar na igreja. Créditos: Beatriz Vasconcelos 

Localizada na quadra 309, na Asa Sul, a Catedral Anglicana também recebe pessoas LGBTQIAPN+. Os fiéis se reúnem aos domingos, para celebrações com missa aberta ao público .

Para o pastor Aubri Ecoten, o preconceito contra a comunidade está ligado a interpretações fundamentalistas dos textos religiosos. Segundo ele, a Bíblia foi escrita em contextos históricos patriarcais e precisa ser lida à luz da realidade atual.

O pastor também destaca que os Evangelhos não registram condenações de Jesus à orientação sexual.

No altar 

Phillipe Nathan realizou na Catedral Anglicana um sonho que carregava desde a infância: casar na igreja.

Quando a Igreja aprovou a celebração do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ele e o marido, Caio Costa, já estavam com a cerimonia civil organizada. A decisão mudou os planos.

“Eu tinha aquele sonho de criança de ir para o altar, receber a benção religiosa e fazer isso junto com a minha comunidade. Se eu estava ali integralmente, por que não teria direito ao sacramento como qualquer outra pessoa?”

Em abril de 2019, os dois se tornaram o primeiro casal a celebrar um casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo em Brasília. Apesar da felicidade, os dois recordam que o pioneirismo também trouxe apreensão.

Cerimônia aconteceu em 27 de abril de 2019. Créditos: acervo pessoal

“Tínhamos medo de aparecer alguém para tumultuar a cerimônia ou fazer algum tipo de manifestação”, lembra Phillipe.

Antes de encontrarem um espaço aberto, o casal passou por outras comunidades religiosas em que  sentiram que a aceitação tinha limites.

“Era uma aceitação condicionada. Você podia frequentar, mas não podia demonstrar afeto ou falar abertamente sobre quem era”.

Para Caio, a exclusão começou muito antes. Criado na Igreja Católica, ele cresceu ouvindo que sua orientação sexual era incompatível com a fé.

Aos 14 anos, procurou um padre para se confessar, por acreditar que sua homossexualidade era um pecado. Na conversa, ouviu que iria para o inferno. “Meu mundo acabou ali. Eu continuei indo para a igreja, mas algo se quebrou para sempre”. 

Apesar disso, nunca abandonou completamente a espiritualidade. Anos depois, encontrou na Igreja Anglicana um espaço onde poderia viver a fé, sem precisar se esconder .

Bispo Maurício (a esquerda) ao lado de Philipe e Caio e a direta, reverenda Tati (a direita).

Para ele, a experiência de rejeição vivida por pessoas LGBTQIAPN+ em ambientes religiosos está longe de ser excepcional. “Nenhuma vivência é única. Todo homem gay, em algum momento, já passou por isso”. 

Por Beatriz Vasconcelos e Giovanna Torres.

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