Como no universo de O Mágico de Oz, algum lugar depois do arco-íris carrega a resposta para a pergunta que persegue pensamentos: “Quem eu sou?”.
A estrada — similar ao caminho de Dorothy — é deserta, solitária e turbulenta, os obstáculos se escondem nas trincheiras e os ladrilhos dourados machucam os pés.
Na fragilidade e sensibilidade da adolescência, Dionne Hadassa Freitas, 36 anos, se encontrou em uma encruzilhada no meio do caminho do autoconhecimento.
Ao chegar no cruzamento, uma terceira via — antes escondida — abriu os seus olhos para uma nova realidade.
A confirmação de ser intersexo, após 12 anos sendo abordada como menino, sem se identificar com o gênero de criação e sem acesso a informações de qualidade.
“Muitas coisas eram tratadas em silêncio, como tabu ou apenas dentro de uma lógica médica extremamente patologizante”, compartilha a terapeuta ocupacional.
Em uma sociedade condicionada a rejeitar e odiar qualquer corpo que não faça parte da definição binária (homem ou mulher cisgênero) estabelecida, o intersexo vive uma realidade de confusão, medo, solidão, vergonha e uma sensação constante de não pertencimento.
Transição
Para Dionne, o sentimento de não pertencimento também se deu principalmente por conta do gênero masculino que atribuíram a ela, primeiramente.
“Assim que se confirmou minha intersexualidade, consegui transicionar de acordo com minha identidade de gênero”.
Viver essa descoberta durante a adolescência — período que marca o desenvolvimento emocional, social e cognitivo do ser — trouxe desafios que marcaram uma época dolorosa, ao lidar com a sensação de diferença, o receio da rejeição e a necessidade constante de esconder partes de sua história para se proteger socialmente, ainda muito nova.
“Na infância e adolescência existe uma necessidade muito forte de pertencimento. Crescer sem conseguir se reconhecer nas outras pessoas, sem representação e cercada de silêncio, gera muito sofrimento psíquico”, relata, com tristeza.
Ser intersexo
A Intersex Human Rights, organização responsável por proteger e garantir os direitos humanos de pessoas intersexo, define como intersexo quem tem características sexuais congênitas, sem se enquadrar nas normas médicas e sociais para corpos femininos ou masculinos.
As características sexuais incluem cromossomos, órgãos genitais, gônadas, hormônios e outras anatomias reprodutivas, além de traços secundários que aparecem na puberdade.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), podem existir mais de 40 variações de intersexualidade.
Ainda com base nos dados divulgados pela organização, cerca de 2% da população mundial se identifica como intersexo. No Brasil, a estimativa é de que pelo menos 3,5 milhões de brasileiros façam parte da comunidade.
A intersexualidade pode coexistir, ainda, com a transgeneridade e a homosexualidade, além de classificações como ‘mulher intersexo’, ‘homem intersexo’ ou ‘pessoa intersexo não-binária’.
União e resistência
Dionne reforça que a falta de representatividade e figuras de referências tornaram o processo extremamente solitário: “Na época em que cresci, praticamente não existiam debates públicos sobre intersexualidade no Brasil. Muitas vezes, a única narrativa disponível era médica, marcada pela ideia de correção, anormalidade ou inadequação corporal”.
A dor e a ausência levaram Dionne, ao lado de outros ativistas, a divulgar e conectar outras pessoas intersexo em um grupo no Facebook, em busca de — nas palavras da terapeuta — transformar as vivências em uma reflexão crítica, humana e política.
A partir dessa iniciativa, Thais Emilia de Campos dos Santos encontra um refúgio e um espaço para denunciar uma série de direitos violados com ela e com o filho, Jacob Cristopher — também intersexo.
“Faço a denúncia através do caso do Jacob no Ministério Público e na Conferência Internacional do Direito da Mulher. Conto todas as violações, tanto de cirurgias forçadas, dificuldades no registro civil e violências obstétricas. E aí, começo a sentir a necessidade de ter uma associação”, explica Thais.
Em 2020, após tentativas frustradas, nasce a Associação Brasileira de Intersexo (ABRAI), com o objetivo de defender a integridade física e psiquica da pessoa intersexo.
O trabalho de acolhimento da instituição inclui tratamento psicológico, jurídico, entre outros.
“Conforme a demanda da pessoa,fazemos encaminhamento dentro das parcerias que a ABRAI tem, como atendimento psicológico, atendimento médico, orientação jurídica, retificação ou para fazer a certidão de nascimento”.
Em busca de reconhecimento
Os desafios de uma pessoa intersexo não se limitam apenas ao preconceito, seja ele dentro ou fora da comunidade LGBTQIAPN+.
A invisibilidade no sistema judiciário, a violência médica — cirurgias forçadas, procedimentos sem consentimento e falta de transparência — e a fetichização dos corpos intersexuais também fazem parte do dia a dia de Dionne e outras pessoas intersexuais.
“Já vivi preconceito, invasões de privacidade, fetichização e comentários extremamente desumanizantes e violência física, psicológica e sexual”, expõe a terapeuta.
De acordo com o advogado Leandro Cunha, o ordenamento praticamente ignora a existência das pessoas intersexo, restando um enorme vácuo legislativo.
“Por um preconceito e desconhecimento, não há a possibilidade de se indicar a condição intersexo na Declaração de Nascido Vivo (DNV), que é usada como base para a elaboração da certidão de nascimento”.
Dessa maneira, ele explica que pessoas intersexo tem seu sexo ignorado ou são obrigadas a realizar cirurgias genitais, com o mero objetivo de se adequar às características tradicionalmente associadas ao homem ou à mulher.
Leandro complementa: “Isso acaba impondo tambem uma série de dificuldades para que consigam acesso a vários direitos, haja vista que muitos sistemas não estão preparados para que seja consignado no campo destinado ao sexo uma informação que não seja o tradicional ‘masculino’ e ‘feminino’”.
Em 2025, a deputada Duda Salabert propôs a PL N.º 1.318, que institui o Estatuto da Pessoa Intersexo (Lei Jacob Cristopher) e outros direitos.
“A previsão de uma legislação direcionada à atenção dos direitos e necessidades das pessoas intersexo é um enorme avanço. Ter a sua existência reconhecida é primordial para que as pautas dedicadas às pessoas intersexo sejam consideradas”, explica o especialista.
O poder de ser visto
Hoje, aos 36 anos, Dionne se liberta das normas impostas pela sociedade e entende que sua existência é legítima, humana e digna. “Com o tempo, percebi que intersexualidade não é uma falha moral nem algo que invalida a humanidade de alguém. Hoje consigo compreender minha história para além da dor e reconhecer minha potência, minha trajetória acadêmica, profissional e humana”, reflete.
Atualmente, ela usa das redes sociais para dar visibilidade a suas experiências e de outras pessoas intersexo.
A terapeuta enfatiza que, essa visibilidade traz acolhimento e conexão mas, ao mesmo tempo, ela está sujeita a preconceito e exposição — que afeta em especial a relação com o emprego e relacionamentos amorosos.
De qualquer forma, esse espaço na internet reforça a força e a existência das pessoas intersexo, além de abrir o diálogo para denúncias, discussões e a luta pelos direitos que merecem.
“Quando uma pessoa intersexo rompe o silêncio e fala sobre sua existência de forma digna, ela ajuda outras pessoas a perceberem que não estão sozinhas”.

Créditos: Arquivo pessoal
Por Luisa Mello
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


