Eram seis da manhã e o sol do sertão já raiava antes mesmo do dia começar.
Diadorim se levantou e, diante do reflexo masculino no espelho, vestiu-se de jagunço para a “guerra” que se aproxima.
A masculinidade, porém, não veio do figurino, mas da própria existência como homem.
Essa história não acontece no sertão de João Guimarães Rosa, mas no Distrito Federal.
Este Diadorim, um nome social xará da personagem da ficção, carrega o sobrenome Silva e se preparava para encenar uma adaptação teatral de “Grande Sertão: Veredas”.
Diadorim, de 28 anos, morador do Gama (DF), entende a travessia que faz como um caminho de auto aceitação e de recomeço.
“Me apaixonei por esse nome e por essa história. Não consegui me imaginar com outro nome que não fosse esse”
No livro, a inquietude da existência é declarada com a frase:
– Sou nascido diferente, sou eu mesmo, diverjo de todo mundo.
Na realidade de Diadorim, essa inquietação só emergiu dezoito anos após o nascimento, durante a universidade, quando passou a se perguntar — pela primeira vez — quem realmente era.
A dúvida deu lugar à certeza quando, ao ler sobre pessoas não binárias na Biblioteca Nacional de Brasília, ele reconheceu a si mesmo naquelas palavras e sorriu, identificando-se com elas.
Durante dois anos, a não binariedade atravessou seu processo de transição.
Ao ler sobre a identidade não binária, ele reconheceu a si mesmo naquelas páginas e, pela primeira vez, sorriu com a leveza de quem finalmente encontrou o próprio reflexo.
Diadorim, influenciado pelos padrões sociais, acreditava que homens trans precisavam corresponder a uma ideia rígida de passabilidade masculina, imagem na qual não conseguia se reconhecer.
Foi apenas aos 20 anos que ele compreendeu a própria masculinidade para além dessas expectativas.
Hoje, aos 28 anos, Diadorim se identifica como uma pessoa trans masculina, ou seja, um homem trans.
Primeiro contato
O primeiro contato do rapaz com o ambulatório trans aconteceu em 2021, por meio da convivência com pessoas trans na Universidade de Brasília (UnB), durante a licenciatura em artes cênicas.
O espaço apareceu como uma possibilidade de cuidado da saúde física — até então negligenciada, já que, segundo Diadorim, “me dava muita disforia tratar dos meus órgãos internos, tidos como femininos” —, e também como um caminho possível para pensar a transição de gênero.
Foi apenas no ano seguinte que o universitário conseguiu atendimento. Naquele momento, se identificava como uma pessoa não binária e buscava entender outras formas de hormonização.
“Eu queria entender se existia uma hormonização mais lenta, menos violenta, que me permitisse um corpo mais andrógino também”, relembra.
Antes de qualquer prescrição, porém, veio algo que parecia simples, mas essencial: o reconhecimento. Pela primeira vez, foi chamado pelos pronomes corretos em um ambiente de saúde.
A psicóloga e mestra em psicologia clínica Helena Liesegang explica que o respeito aos pronomes é um pré-requisito para a continuidade do tratamento médico de pessoas trans.
Segundo ela, o preconceito nos espaços de saúde pode aprofundar sofrimentos já existentes e afastar pacientes do cuidado.
“O preconceito dentro da saúde impacta diretamente o desenvolvimento dessa pessoa e pode gerar um sofrimento psíquico ainda maior. Muitas vezes, ela sente que precisa engolir a violência para conseguir acesso ao mínimo”, afirma.
“Nos casos mais graves, isso acaba impedindo o atendimento e afastando essa pessoa do cuidado, empurrando-a ainda mais para a marginalização”, complementou.
Ambulatório trans
Localizado na 508/509 Sul, o ambulatório trans surgiu em 2017 como uma iniciativa voltada ao atendimento das demandas da população trans no Distrito Federal.
No início, médicos engajados na pauta passaram a destinar parte de suas cargas horárias ao atendimento voluntário em um espaço cedido pelo Centro de Doenças Infecciosas (Cedin).
Em 2024, o serviço foi oficialmente institucionalizado em parceria com o Ministério da Saúde e a Secretaria de Saúde do Distrito Federal.
Ambulatório trans localizado na 508/509 sul. Créditos: Laura Cunha
A criação do espaço responde a uma realidade enfrentada pela população trans no acesso à saúde.
Segundo Isabela Peixoto, enfermeira e diretora do espaço, cerca de 70% das pessoas atendidas nunca haviam passado por uma unidade básica de saúde.
Entre os motivos, podem ser destacados a transfobia e o medo de serem reconhecidas por alguém da própria comunidade que trabalha em Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) da região.
“Os serviços de saúde pública não foram preparados para receber pessoas trans. A atenção primária está extremamente sobrecarregada, inchada. Então, é preciso capacitar, treinar e conversar com os profissionais, e isso leva tempo”, afirma a enfermeira.
Além de promover o processo de formação com profissionais da rede pública, o ambulatório também oferece dois tipos de atendimento para pessoas maiores de 18 anos.
O primeiro é individual , com acompanhamento de especialistas em áreas como dermatologia, psiquiatria, ginecologia e endocrinologia.
O segundo, que ocorre por meio de consultas coletivas, é voltado à socialização, troca de experiências e fortalecimento dos vínculos dentro da comunidade trans.
A procura pelo serviço, no entanto, é maior do que a capacidade de atendimento. Atualmente, o ambulatório mantém uma fila de espera com cerca de 300 pessoas e consegue receber, em média, 30 novos pacientes por mês.
Para entrar na lista, é necessário preencher um formulário online disponibilizado pelo ambulatório.
O acesso deve ser solicitado por e-mail, disponível no site da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, ou presencialmente, no próprio ambulatório.
Segundo a diretora, o primeiro contato ocorre em um grupo de entrada, no qual são explicados os procedimentos do serviço, como agendamento de consultas, acompanhamento hormonal e encaminhamentos para cirurgias.
Depois, cada paciente passa por um acolhimento individual, etapa considerada central no processo de cuidado.
“É uma entrevista bem mais minuciosa, em que a gente pergunta sobre toda a vida da pessoa”, explica.
O outro lado
Diadorim conta que esperou pouco menos de um ano na fila do ambulatório. Ainda assim, os desafios começaram logo no início do tratamento, principalmente pela localização do único serviço especializado no Plano Piloto. Morador do Gama, ele afirma que, por causa do tempo de deslocamento, precisa reservar uma manhã inteira para consultas, que duram entre uma e duas horas.
Segundo ele, a alta demanda do ambulatório também está ligada ao despreparo das Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) para atender pessoas trans. “Eles acham que, se eu quebrei um braço, tenho que ir para o ambulatório trans só porque eu sou trans. Ainda existe muito esse desfalque no DF e acabam querendo empurrar toda a população trans para o ambulatório”, critica.
Para Isabela Peixoto, essa dificuldade revela uma falha estrutural na formação dos profissionais da saúde. “Não formamos profissionais que falem sobre saúde LGBT, sobre saúde da população trans. Muitos saem da graduação sem nunca terem tido uma aula sobre isso”, afirma.
A avaliação é compartilhada por Silvia Baldim, mestre e doutora em saúde pública pela Universidade de São Paulo. Segundo ela, os ambulatórios trans cumprem hoje um papel fundamental ao oferecer atendimento especializado para demandas relacionadas à hormonização, saúde mental e garantia de direitos sexuais e reprodutivos.
Ainda assim, o ideal seria que esse cuidado estivesse presente em toda a rede pública. “A ideia é que, em algum momento, não seja mais necessário ter ambulatórios trans e que qualquer porta de entrada do SUS consiga atender essa população com suas especificidades”, explica.
Apesar das dificuldades estruturais, Diadorim afirma ter sido acolhido no ambulatório desde o início do tratamento. “Fui super bem recebido. Até hoje continuo lá, e já estou há um ano em hormonização”, conta.
Para ele, o diferencial do espaço não está na ausência de erros, mas na disposição dos profissionais em aprender. “Eles não são perfeitos, são humanos. Mas entendem quando erram, não têm problema em pedir desculpas e continuar. Acho que isso é o mais importante.”
No livro de Guimarães Rosa, o respeito ao outro também aparece como um processo contínuo de transformação:
– O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando.
Por Ana Luisa Oliveira, Isadora Carmona e Laura Cunha
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