Por décadas, o caminho para o sucesso no futebol brasileiro parecia seguir uma fórmula relativamente previsível. Um garoto se destacava nas categorias de base, conquistava espaço no elenco profissional, chamava atenção da imprensa esportiva e, somente depois, passava a ser conhecido nacionalmente. A fama era consequência do desempenho.
De 2010 para os dias de hoje, um jogador pode acumular milhões de visualizações antes mesmo de estrear profissionalmente. Pode assinar contratos publicitários ainda na adolescência. Pode ser observado por clubes europeus sem sequer ter disputado uma partida na elite do futebol nacional. E, principalmente, pode se tornar conhecido pelo público muito antes de estar preparado para lidar com tudo o que essa exposição representa. Além disso, segundo dados do relatório internacional Digital in 2019, elaborado pelas agências We Are Social e Hootsuite, o número de usuários de redes sociais no Brasil saltou de aproximadamente 35 milhões no início da década de 2010 para mais de 140 milhões de usuários ativos em 2019. Esse crescimento expressivo ampliou significativamente o alcance de conteúdos relacionados ao futebol e às categorias de base.

Imagem: Gráfico de estimativa de usuários ativos nas redes sociais do Brasil em 2026
Fonte: Adaptado de DataReportal
A transformação está diretamente ligada à forma como a mídia passou a se relacionar com o futebol. Entre 2010 e 2025, período analisado neste trabalho, a consolidação das redes sociais e das plataformas digitais alterou profundamente a forma de apresentar novos talentos ao público. Se antes a televisão, o rádio e os jornais eram os principais responsáveis por essa função, atualmente as redes sociais, os canais digitais, os influenciadores esportivos e as plataformas de vídeo dividem esse protagonismo. A mudança pode ser observada também nos hábitos de consumo do torcedor brasileiro. De acordo com uma pesquisa de mercado realizada pela TIM Ads (2026), os dados apontam que 73% do público prefere acompanhar esportes por meio de plataformas digitais, enquanto apenas 22% utilizam a televisão por assinatura como principal meio de consumo. O fortalecimento da chamada Creator Economy (Economia dos Criadores) ajuda a fundamentar esse cenário: mapeamentos do setor divulgados pela Revista Exame apontam que o Brasil consolidou-se como um polo global de produção de conteúdo, atingindo a marca histórica de 3,8 milhões de influenciadores digitais ativos (EXAME, 2025). Essa expressiva expansão profissionalizada descentralizou a audiência, fazendo com que 56% dos torcedores brasileiros atualmente manifestem preferência por transmissões e conteúdos produzidos por influenciadores e canais independentes em detrimento dos formatos tradicionais da grande mídia (TIM ADS, 2026). Nesse ambiente, jovens jogadores passaram a surgir para o grande público não apenas por meio da imprensa esportiva convencional, mas sobretudo através de vídeos virais, cortes de transmissões, podcasts e conteúdos publicados diariamente nas redes sociais
Embora fenômenos como exposição midiática precoce, pressão por desempenho e construção de imagem pública também possam ser observados em outras modalidades esportivas, esta reportagem concentra sua análise exclusivamente no futebol brasileiro.
O resultado é um cenário em que a revelação de talentos não depende apenas do que acontece dentro de campo. A visibilidade passou a ser um componente central da carreira de jovens atletas. E poucos casos ajudam a entender essa mudança tão claramente quanto os de Endrick e Estêvão.
A nova vitrine do futebol brasileiro
O Brasil continua sendo um dos maiores produtores de talentos do futebol mundial. Segundo dados de 2023 do CIES Football Observatory, o país lidera o ranking global de exportação de jogadores, com 1.289 atletas atuando em clubes estrangeiros, o que coloca a frente da Argentina e França, que são países tradicionalmente formadores de grandes atletas. O futebol brasileiro tornou-se um dos principais mercados formadores do planeta, atraindo a atenção constante de empresários, olheiros e clubes internacionais.
Mas a forma como esses atletas são descobertos mudou profundamente. Até o final dos anos 2000, o acompanhamento das categorias de base era restrito a profissionais do futebol. Olheiros percorriam campeonatos juvenis em busca de promessas. Entre 2010 e 2025, a visibilidade das categorias de base cresceu de forma expressiva. Competições que antes eram acompanhadas quase exclusivamente por profissionais do futebol passaram a integrar a programação de emissoras esportivas, plataformas de streaming e canais digitais. Clubes passaram a investir na produção de conteúdo próprio, divulgando treinamentos, entrevistas, bastidores e lances de jovens atletas em suas redes sociais. Como consequência, jogadores das categorias sub-15, sub-17 e sub-20 passaram a ser conhecidos pelo público muito antes da consolidação profissional. Além disso, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também contribuiu para esse aumento de visibilidade ao criar competições de base, como a Copa do Nordeste Sub-20, a Supercopa do Brasil Sub-20 e o Campeonato Brasileiro Sub-17.
Essa crescente visibilidade das categorias de base é corroborada por dados de audiência da Kantar IBOPE Media; transmissões de decisões nacionais da categoria de base, como a final do Campeonato Brasileiro Sub-20, registraram picos de até 5 pontos de audiência na TV, alcançando a vice-liderança do ibope na Grande São Paulo e superando emissoras abertas tradicionais da TV comercial (NOTÍCIAS DA TV, 2023). Esses índices demonstram o forte engajamento e o interesse mercadológico do público de massa pelas divisões de formação. A Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal competição de base do país, deixou de ser acompanhada apenas por profissionais do futebol e passou a atrair milhões de espectadores. Em 2024, as transmissões da competição pela CazéTV alcançaram mais de 10 milhões de espectadores únicos ainda durante as fases iniciais do torneio. Em uma das partidas mais assistidas da competição, a eliminação do Palmeiras registrou um pico superior a 1,2 milhão de espectadores simultâneos no YouTube. Junto com a Cazé TV, outras emissoras detentoras dos direitos de transmissão do torneio de base como, Record, Xsports, Record News e a própria Federação Paulista de Futebol somadas obtiveram mais de 230 milhões de visualizações, essa métrica digital reflete o total acumulado de cliques e acessos dos usuários nos vídeos e melhores momentos da competição, e não o número de pessoas únicas, o que explica por que o total de visualizações supera a população do país.
Marco histórico da Copinha 2026, com mais de 230 milhões de visualizações
Crédito: Instagram da Copinha (@copinha)
O alcance da Copinha também revela a dimensão que as categorias de formação passaram a ocupar dentro do ecossistema midiático do futebol brasileiro. A edição de 2024 contou com 128 clubes e 255 partidas disputadas ao longo do torneio. O volume de jogos transmitidos permitiu que centenas de atletas fossem observados simultaneamente por torcedores, jornalistas, empresários e departamentos de scout espalhados pelo Brasil e pelo exterior
O alcance dessas transmissões, conforme apontam os dados do balanço oficial de audiência da Federação Paulista de Futebol (FPF,2024), demonstra que o interesse do público pelas categorias de base deixou de ser um fenômeno restrito aos profissionais do futebol. O consumo de conteúdo esportivo também passou a ocorrer de maneira mais fragmentada e contínua. Apenas no YouTube, podcasts esportivos ultrapassaram 8,5 bilhões de visualizações em um único ano, evidenciando a busca dos torcedores por análises, bastidores e debates sobre o esporte. O crescimento de canais esportivos, como a CazéTV, também reforça essa tendência. Um estudo de mercado realizado pela Rakuten Advertising, divulgado em abril de 2026, revela que 63% dos torcedores brasileiros demonstram interesse em assistir a grandes eventos esportivos por meio desses novos formatos digitais, que frequentemente alcançam audiências comparáveis ou até superiores às de veículos tradicionais.
Endrick e Estêvão: os símbolos de uma nova geração
Se existe uma dupla capaz de representar a fase mais recente das transformações observadas entre 2010 e 2025 no futebol brasileiro, ela atende pelos nomes de Endrick e Estêvão. Ambos foram revelados pelo Palmeiras, clube que se tornou referência nacional na formação de atletas. O clube investe todo ano 30 milhões de reais com as categorias de base. Ambos ganharam projeção ainda nas categorias de base. E também se transformaram em personagens frequentes da cobertura esportiva antes mesmo de acumularem uma trajetória significativa entre os profissionais.
Endrick Felipe Moreira de Sousa começou a chamar atenção nacional ainda atuando nas equipes sub-15 e sub-17 do Palmeiras. Vídeos de gols e atuações destacadas passaram a circular de forma intensa nas redes sociais, acumulando milhões de visualizações. Antes mesmo da repercussão nacional, Endrick já despertava atenção. Em 2016, aos 10 anos, disputou a Go Cup pelo Brasília Fut Academy, torneio considerado um dos principais do futebol infantil e que reuniu equipes de diversos países. Seu desempenho chamou a atenção do Palmeiras, que decidiu incorporá-lo às categorias de base. O desempenho despertou interesse internacional rapidamente. Em dezembro de 2022, o Real Madrid anunciou a contratação do atacante em uma negociação que totalizou 72 milhões de euros considerando bônus e metas contratuais, cerca de 400 milhões de reais na cotação da época. O acordo colocou Endrick entre as maiores vendas da história do futebol brasileiro para um jogador de sua idade.
Endrick ainda quando atuava pelo Palmeiras em 2023
Créditos: ESPN Brasil
Enquanto isso, outra promessa surgia no mesmo clube. Estêvão Willian Almeida de Oliveira Gonçalves passou a ganhar notoriedade por meio de vídeos que destacavam sua habilidade no drible, criatividade ofensiva e facilidade para decidir partidas. Seu desempenho despertou o interesse de vários clubes da Europa como, Barcelona, PSG, Arsenal e o Bayern de Munique, porém foi o Chelsea, time de Londres, que pagou aproximadamente 62 milhões de euros, cerca de 356,7 milhões de reais na cotação da época (junho de 2024).
A repercussão foi tão grande que o jogador recebeu um apelido que rapidamente se espalhou pelas redes sociais e pela imprensa esportiva: “Messinho”. A comparação fazia referência ao argentino Lionel Messi. Torcedores, jornalistas e criadores de conteúdo enxergavam semelhanças no estilo de jogo, especialmente na capacidade de conduzir a bola em espaços curtos, na habilidade individual e na criatividade ofensiva.
O apelido ajudou a ampliar ainda mais sua popularidade, mas trouxe também um efeito colateral, a criação de expectativas gigantescas sobre um atleta que ainda estava em formação. E é justamente nesse ponto que a influência da mídia começa a mostrar seus efeitos mais complexos.
Estêvão ainda quando atuava pelo Palmeiras em 2024
Créditos: Globo Esporte
A mídia como ponte e como armadilha
O crescimento das redes sociais alterou profundamente os mecanismos de visibilidade no futebol. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube passaram a funcionar como vitrines permanentes para atletas em formação.Um único vídeo pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas, um drible gravado durante um torneio de base pode ser compartilhado por páginas esportivas, influenciadores, jornalistas e torcedores de diferentes países.
Na prática, isso significa que um jogador pode ganhar notoriedade nacional sem sequer ter disputado uma partida profissional. Para Fernando Silva, jornalista esportivo que atuou como repórter do Bangu entre 2022 e 2025, passou pela BTB Sports e atualmente trabalha de forma independente na produção e cobertura jornalística de eventos esportivos, sem vínculo fixo com um veículo de comunicação, a internet acelerou drasticamente os processos de reconhecimento. Segundo ele, as redes sociais criaram uma capacidade de alcance que simplesmente não existia em gerações anteriores.
Fernando Silva em entrevista com Ganso, jogador do Fluminense FC
Créditos: Acervo Pessoal de Fernando Silva
A percepção é compartilhada por Estevan Teixeira Furtado, jornalista esportivo com passagens pelo SBT Sports Brasília e Metrópoles TV. Para ele, a velocidade das redes sociais alterou completamente a lógica da cobertura esportiva. “Um lance viral pode transformar um jogador em promessa nacional em questão de horas”, afirma. Ao mesmo tempo, ressalta que a democratização da informação ampliou o espaço para novas histórias, mas também aumentou a necessidade de separar análises consistentes de conteúdos produzidos apenas para gerar engajamento.
Estevan em sua época de SBT
Créditos: Acervo pessoal de Estevan
Essa nova dinâmica faz com que jovens talentos sejam observados por uma audiência muito maior do que a formada apenas por profissionais do futebol. Hoje, empresários, clubes, patrocinadores e torcedores acompanham o desenvolvimento de atletas quase em tempo real. Entre esses observadores estão os profissionais de scout, setor responsável pela identificação e análise de jogadores. Tradicionalmente realizado por meio da observação presencial, esse trabalho passou a incorporar vídeos, bancos de dados e plataformas digitais especializadas, permitindo que clubes acompanhassem atletas de diferentes regiões sem a necessidade de deslocamentos constantes. O processo de descoberta de talentos, que durante décadas esteve concentrado nas mãos de observadores técnicos e dirigentes, passou a acontecer também diante do olhar permanente da internet. Nesse cenário, a construção da imagem pública do atleta começa cada vez mais cedo, muitas vezes antes mesmo de sua consolidação dentro de campo.
Segundo Estevan, a escolha de pautas sobre jovens atletas também passa pela história construída fora das quatro linhas. “Eu tento fugir do óbvio. O que realmente me interessa é quem é esse garoto, de onde ele veio e o que enfrentou até chegar ali.” Para o jornalista, contar essas trajetórias é uma forma de humanizar personagens que muitas vezes passam a ser vistos apenas como futuras estrelas ou ativos de mercado.
Estevan entrevistando Robert Renan, atual zagueiro do Vasco
Crédito: Acervo pessoal de Estevan
O papel dos jornalistas na construção das promessas
Embora as redes sociais tenham ampliado o alcance dos atletas, o jornalismo esportivo continua desempenhando papel fundamental na construção das narrativas que cercam esses jogadores. A forma como a imprensa apresenta uma promessa influencia diretamente a percepção do público.
Não é raro encontrar manchetes que classificam adolescentes como “o novo Neymar” ou “a próxima estrela da Seleção Brasileira”.Essas comparações ajudam a despertar interesse e audiência, mas também criam expectativas difíceis de administrar.
Na avaliação de Estevan Furtado, o jornalismo esportivo também precisa refletir sobre sua responsabilidade nesse processo. “O problema é separar o que é análise de verdade do que é só engajamento”, afirma. Segundo ele, a busca constante por audiência pode levar à criação de expectativas desproporcionais sobre atletas que ainda estão em processo de formação.
Matheus Sayd, influenciador esportivo e comentarista esportivo, que trabalhou na TNT Sports produzindo conteúdos sobre futebol e participou da cobertura da Supercopa do Brasil de 2026 pelo Metrópoles, acredita que a mídia tem papel importante na valorização dos atletas, mas precisa agir com responsabilidade. Segundo ele, existe uma diferença entre destacar o potencial de um jogador e transformá-lo em um fenômeno antes do tempo.
Matheus Sayd na cobertura da Supercopa do Brasil 2026 com parceria do Metrópoles
Créditos: Acervo Pessoal de Matheus Sayd
É comum observar, em debates da imprensa esportiva, em programas esportivos, nas redes sociais e entre torcedores, comparações entre jovens promessas e grandes ídolos do futebol brasileiro. Expressões como “novo Pelé”, “novo Ronaldo” ou “novo Neymar” fazem parte do vocabulário recorrente dessas discussões e, muitas vezes, contribuem para criar expectativas elevadas sobre atletas que ainda estão em processo de formação.
O peso da fama prematura
Se a visibilidade aumenta, a pressão cresce na mesma proporção. Essa talvez seja a principal consequência da exposição precoce de jovens atletas no futebol brasileiro.
Lucas Marques Lara, 34 anos, psicólogo e neurocientista esportivo com mais de 12 anos de experiência na área, professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE), coordenador do setor de Psicologia do Esporte do Praia Clube e fundador da consultoria Alta Performance Mental, afirma que muitos jovens jogadores enfrentam cobranças incompatíveis com a fase de desenvolvimento em que se encontram.
Segundo o especialista, que atua diretamente na preparação mental de atletas de alto rendimento, a ansiedade se tornou um dos principais desafios enfrentados nas categorias de base do futebol. “Muitos atletas desenvolvem medo excessivo de errar e preocupação exagerada com desempenho. Existem casos de febre antes de jogos, queda de concentração, insegurança e diminuição da confiança”, explica.
Para Lucas Lara, o problema começa quando o atleta deixa de concentrar sua atenção no processo de evolução e passa a enxergar o futebol apenas pelos resultados imediatos e pelo reconhecimento público.“Hoje, no futebol, é muito comum o jogador pensar mais nas oportunidades futuras do que no próprio processo de desenvolvimento”, afirma.
O especialista acredita que a visibilidade precoce frequentemente faz com que atletas “pulem etapas” importantes da formação emocional.“Ao invés de viver a infância e o processo natural de formação, muitos atletas passam a ser tratados como ídolos muito cedo.”
Lucas Lara em um dos seus trabalhos psicológicos em atletas
Crédito: Ariadenes Soares (@ariadenes_soares)
A percepção é compartilhada por Luciano Santana Lopes, 50 anos, psicólogo esportivo com 22 anos de atuação no futebol. Atualmente, Luciano desenvolve trabalhos no time de futebol do Gama (DF) e no centro de treinamento Guty Performance, além de acumular passagens por clubes como Brasiliense, Capital, Luziânia, Brasília, Dom Pedro e Brazsat.
Segundo ele, quando um jogador ganha destaque ainda criança, automaticamente passa a carregar um nível de cobrança superior ao adequado para sua idade. “Aquele atleta que aparece já bem cedo, com talento, sem dúvida isso já coloca uma carga de pressão nesse garoto. Ele passa a ser mais cobrado, passa a ser mais visado.”
Luciano destaca que crianças e adolescentes ainda não possuem maturidade emocional suficiente para lidar com níveis elevados de expectativa pública. “Crianças e jovens não têm as capacidades desenvolvidas para enfrentar esse nível de cobrança.” Segundo o psicólogo, a pressão não surge apenas das expectativas criadas pela mídia. Muitos jovens convivem com o medo de perder espaço nas equipes, decepcionar familiares ou não conseguir transformar o futebol em uma carreira profissional, fatores que aumentam significativamente os níveis de ansiedade.
Para o psicólogo, o cenário se torna ainda mais delicado porque o futebol moderno passou a identificar talentos cada vez mais cedo. Segundo ele, atualmente grandes clubes já monitoram crianças de sete e oito anos de idade, iniciando processos de acompanhamento e desenvolvimento esportivo muito antes da adolescência. O resultado pode ser ansiedade, perda de confiança, medo de falhar, dificuldades de relacionamento, queda de rendimento e, em casos mais extremos, abandono precoce da modalidade.
Psicólogo Luciano Lopes comemorando o Candangão 2026 pelo SE Gama
Crédito: Acervo Pessoal de Luciano
Quando a promessa vira produto
Por outro lado, a transformação do jogador em produto também cria novos riscos. Em entrevista à CNN Esportes (2023),Cláudio Fiorito, CEO da agência P&P Sport Management Brasil, afirmou que o comportamento digital dos atletas se tornou um fator determinante para as negociações internacionais. Segundo ele, publicações inadequadas, polêmicas nas redes sociais ou posicionamentos mal administrados podem comprometer contratos, afastar patrocinadores e até dificultar transferências para o futebol europeu.
A preocupação não está apenas no desempenho esportivo, mas na preservação da imagem comercial do atleta. Em um mercado cada vez mais conectado, a reputação digital passou a ter peso semelhante ao desempenho dentro de campo. A crescente exposição midiática dos atletas também modificou profundamente a relação entre futebol e mercado. Entre 2010 e 2025, a valorização de jovens jogadores passou a depender não apenas do desempenho dentro de campo, mas também da capacidade de atrair atenção fora dele. Número de seguidores, engajamento nas redes sociais, alcance digital e potencial de marketing tornaram-se fatores cada vez mais presentes na construção do valor de mercado de uma promessa.
Nesse cenário, o atleta deixa de ser observado apenas como jogador. Ele passa a ser tratado como marca, ativo financeiro e oportunidade comercial. A imagem pública começa a ser construída ainda durante as categorias de base, muitas vezes antes mesmo da consolidação profissional.
A influência das redes sociais é tão significativa que, segundo levantamento citado pela plataforma especializada GolMaisGol, com base em dados publicados pela revista Forbes (2024), mais de 70% dos clubes profissionais monitoram os perfis digitais de jovens atletas antes mesmo de estabelecer qualquer contato oficial. O comportamento online, a forma de comunicação e a presença nas redes passaram a integrar os processos de avaliação realizados por clubes, empresários e patrocinadores.
A lógica é simples: além de jogar bem, o atleta moderno precisa administrar a própria imagem. Um vídeo viral, uma entrevista bem recebida ou uma publicação de grande alcance podem ampliar sua visibilidade e despertar interesse comercial. Ao mesmo tempo, qualquer comportamento inadequado pode produzir o efeito contrário.
Esse novo cenário também alterou a forma como empresas e patrocinadores enxergam jovens promessas. Em muitos casos, a capacidade de gerar engajamento se tornou um diferencial competitivo. Quanto maior a audiência construída pelo atleta, maior tende a ser seu potencial de retorno para marcas interessadas em associar seus produtos a novos talentos.
A relação entre futebol e mercado fica evidente em casos como os de Endrick e Estêvão. Ambos ganharam projeção nacional ainda nas categorias de base, acumularam milhões de visualizações nas redes sociais e passaram a despertar forte interesse corporativo antes mesmo de atingirem a maioridade. A relevância comercial desta precoce exposição digital é confirmada por marcas globais de material esportivo: Estêvão assinou seu primeiro contrato de patrocínio com a Nike aos 10 anos de idade, superando recordes de precocidade do mercado nacional (R7 Esportes, 2025). Já Endrick consolidou-se como um dos maiores ativos publicitários do país ainda na base ao assinar um vínculo de longo prazo com a New Balance, focado especificamente no engajamento com consumidores de 13 a 34 anos por meio do ambiente digital (Máquina do Esporte, 2023). Essa visibilidade contribuiu para acelerar o processo de valorização desses atletas, que passaram a ser observados simultaneamente por clubes, patrocinadores e torcedores.
Essa realidade evidencia uma transformação importante ocorrida ao longo dos últimos quinze anos. Se antes o principal desafio de uma promessa era provar seu talento nos gramados, hoje ela precisa lidar simultaneamente com expectativas esportivas, interesses comerciais e exposição permanente nas redes sociais. A carreira começa a ser construída muito antes da estreia profissional e, em muitos casos, o jogador passa a administrar responsabilidades de uma marca antes mesmo de concluir sua formação como atleta.


