Longas jornadas e trabalho nas folgas ajudam com boletos, mas levam a esgotamento difícil de pagar

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Conciliar mais de uma atividade profissional tem se tornado uma realidade para brasilienses que buscam complementar a renda ou adaptar a vida profissional às suas necessidades. O desafio é encontrar equilíbrio sem comprometer a saúde física e mental.


Kennedy Diniz Guimarães, de 31 anos, divide sua rotina entre os plantões de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso como enfermeiro e corridas como motorista de aplicativo nas folgas. Há dois anos nessa realidade, ele explica o que motivou o início da jornada dupla.

“Aumento na renda, uma necessidade financeira. Sempre procuro trabalhar nas folgas, não deixando que um (trabalho) atrapalhe o outro.”


Rever as escalas impõe barreiras que impactam até mesmo no ambiente familiar. “Em relação aos horários, dificulta quando os dois trabalham em horários divergentes”, relata Kennedy sobre os momentos disponíveis que tem com a parceira.

A esposa, Anne Karoliny Guimarães Diniz, de 26 anos, encontrou no trabalho autônomo uma saída para manter o foco na faculdade de enfermagem, vendendo jóias.

“É um serviço lucrativo, rentável e que eu já estava adentrada, só que trabalhando com minha mãe”, relembra Anne.

“Quando ela decidiu que deveríamos parar de trabalhar juntos, eu quis continuar pelo retorno financeiro e por não ser um trabalho com uma carga extensa durante o mês.”

Estudando de segunda a sexta e focando nas vendas na primeira semana do mês, ela escolheu abandonar a carteira assinada.

“Os meus estágios me atrapalhariam muito se eu fosse CLT. O caminho mais fácil que encontrei foi trabalhar pra mim mesma.”

A ilusão da flexibilidade e o fantasma do esgotamento

Embora a autonomia dê a sensação de controle sobre o tempo, a realidade impõe cobranças invisíveis.

Anne pontua que a flexibilidade do casal ajuda a garantir momentos juntos, mas traz um lado negativo.

“Por sermos autônomos, dependemos do nosso trabalho para receber. Então demanda mais horas do dia no trabalho”, desabafa a estudante, que está nessa rotina há cerca de nove meses.

Esgotamento

Essa necessidade contínua de produzir acende o alerta de especialistas sobre o desgaste mental. A neuropsicóloga Gerllany Amorim ressalta que o esgotamento extremo se diferencia do cansaço comum.

“Todo mundo fica cansado em algum momento, e isso faz parte da vida. A diferença é que o cansaço normal costuma melhorar quando a pessoa descansa. Já no burnout, o que acontece é que o esgotamento se torna persistente. A pessoa acorda cansada, perde a energia, a motivação e muitas vezes começa a se sentir emocionalmente distante do trabalho.”

Sinais

Segundo a profissional de saúde mental, o corpo emite avisos claros quando o excesso de trabalho engatilha crises de ansiedade: pensamentos excessivos sobre problemas, dificuldade para relaxar, alteração no sono e desânimo.

“Um sinal importante é quando descansar já não parece suficiente para recuperar a energia”, adverte.

Sente na pele essa rotina o vigilante José Leonildo da Silva, de 53 anos, que trabalha em segurança privada pessoal. Há 43 anos também atua na área de artes marciais.

Além de ministrar aulas de Muay Thai, Jiu-Jitsu e Krav Maga, ele também realiza workshops e seminários.
Para dar conta de todas as atividades, mantém uma agenda paralela à ocupação formal para encaixar os compromissos extras. “Muito tenso. Eu tenho um horário para entrar, mas não tenho para sair. Raramente eu chego em casa cedo”, relata.

“Passei mal”

Leonildo reconhece que tem pouco tempo para estar com os filhos e já enfrentou momentos de esgotamento.

“Já teve um momento que eu passei mal, tanto em casa quanto no trabalho. Porque acumulou um monte de coisa na minha cabeça e eu não tive um direcionamento, não tive um apoio.”

Para ele, o esporte e o trabalho formal se uniram não só pela sobrevivência, mas também pela paixão . “O hobby para mim é fundamental. Eu sempre gostei de luta e sempre atuei na área de segurança. Aí juntou uma coisa com a outra”.

Apesar do amor pela área, José reconhece o peso que carrega. “Não é fácil. Hoje, com 53 anos, eu vejo que Deus me dá uma carcaça boa para segurar a peteca. Mas eu procuro me cuidar”, diz o vigilante.

Direito ao descanso


O motorista Kennedy relata que, quando o mental é afetado, mantém apenas a enfermagem para descansar das corridas, mas lida com o remorso. Ele afirma que sente culpa quando decide não trabalhar para descansar.


A neuropsicóloga Gerllany acredita que essa mentalidade é um desafio cultural. “Uma estratégia simples é mudar a forma de enxergar o descanso: em vez de pensar “estou deixando de produzir”, pensar “estou recuperando energia para continuar funcionando bem amanhã”.

Para quem não pode fugir da rotina cheia, a psicóloga recomenda pequenas pausas de cinco minutos, priorizar o sono e movimentar o corpo. “O segredo não é esperar ter uma rotina perfeita, mas criar pequenas oportunidades de cuidado dentro da rotina real que a pessoa tem.”


Embora muitos trabalhadores associem descanso à improdutividade, a especialista reforça que os momentos de recuperação são essenciais para a saúde mental. “Muita gente vê o lazer como algo opcional, mas ele é uma necessidade para o cérebro.”

“Procuro sempre descansar nos intervalos. Durante os tempos de escape procuro fazer atividade física”, explica Kennedy sobre a forma que encontrou para fugir da rotina.

Enquanto isso, Anne organizou sua vida profissional em busca de mais tempo para os estudos. Já Leonildo, encontra nas atividades criativas e nos momentos de lazer uma forma de aliviar a ansiedade.

“Eu sou um cara muito criativo e eu não gosto de ficar parado. Eu gosto de criar o meu próprio material de comunicação. Cartaz, vídeo[…]. Eu também produzo material de graduação, Prajied, Mongkon, Pangma Lai. Isso para mim é uma terapia. É onde eu me concentro, foco e tiro pensamentos negativos da cabeça.”

Por Ludmilla Oliveira
Supervisão de Vivaldo de Sousa e Luiz Claudio Ferreira

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