Arquivos e memórias: acervo de imagens raras do fotógrafo Antônio Gaudério é recuperado pela filha

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O fotojornalista Antônio Carlos Matos Santos, conhecido como Antônio Gaudério, completou 68 anos no último dia 7. A carreira proeminente em jornalismo investigativo teve um brusco fim em 2008, durante uma visita à construção de uma casa da família, Gaudério caiu em um buraco de cerca de três metros de profundidade.

O impacto da cabeça contra o concreto provocou perda de massa encefálica e deixou sequelas permanentes como a perda total da memória. Anos após o acidente, o acervo do fotógrafo vem sendo restaurado pela filha, Ana Aurora Borges, em um processo que uniu preservação técnica, memória familiar e patrimônio documental junto ao pai. 

Confira o site com imagens do profissional

Ao abrir caixas e gavetas onde estavam reunidas fotografias, negativos e cromos produzidos ao longo da carreira do pai, Aurora encontrou um cenário de deterioração.

“Eu vi muita coisa mofada, muita coisa riscada, muita coisa abandonada. E eu comecei a precisar acionar a minha rede de apoio, acionar os amigos do meu pai, acionar laboratórios e falar: ‘Gente, como é que eu faço com tudo isso? O que que eu tenho que fazer com tudo isso?’“

Sem experiência em preservação de acervos, ela buscou orientação para aprender a limpar, digitalizar e manusear materiais fotográficos antigos. O desafio, entretanto, ia além da recuperação física das imagens.

“Meu pai tinha perdido a memória por motivos óbvios do acidente (…) essa distância temporal fez com que eu perdesse a memória do trabalho dele. O trabalho do meu pai tava totalmente esquecido (…) e a gente, como memória coletiva, como cidadãos do Brasil, também sofre um processo de esquecimento muito grande com relação à nossa própria história.“

Carreira

Nascido em Ijuí (RS), em 1958, Gaudério iniciou os estudos em arquitetura antes de abandonar a área para seguir carreira no fotojornalismo. Trabalhou em veículos como Diário Catarinense, IstoÉ e Veja São Paulo até chegar à Folha de S.Paulo, onde permaneceu por mais de 20 anos.

Ao longo da carreira, tornou-se referência na fotografia documental e investigativa, registrando temas como trabalho escravo contemporâneo, exploração do trabalho infantil, migração, pobreza urbana, saúde pública e o futebol como fenômeno social.

Sua produção acompanhou um período de profundas transformações no Brasil. Entre o fim da década de 1980 e 2008, o país consolidou a democracia, ampliou a legislação de proteção aos direitos humanos e viveu avanços sociais importantes.

Ao mesmo tempo, continuou convivendo com desigualdades, violência, trabalho escravo e outras violações de direitos. Foi nesse contexto que Gaudério construiu uma fotografia voltada para as pessoas e para os aspectos menos visíveis da realidade brasileira.

Segundo Aurora, essa linguagem continua presente mesmo após o grave acidente doméstico , que provocou perda significativa da memória e interrompeu sua atuação profissional.

“O olhar dele é atento ao que ninguém está olhando; a maioria das fotos do meu pai, a foto principal, nunca estava na pauta principal, mas nos entornos daquilo, no diálogo e na atenção aos detalhes. As fotos também têm uma margem, uma moldura que é da própria foto, de uma visão estética do banal. É um olhar apurado para a beleza e pela estética, mesmo falando de temas absolutamente banais e corriqueiros.“

Ela afirma que só conseguiu compreender plenamente a identidade visual construída pelo pai após se distanciar emocionalmente da obra.

“Se a fotografia é a escrita da luz. Então, assim como qualquer poema, assim como qualquer autor, assim como qualquer prosa, tem a sua linguagem, tem seu estilo linguístico. E assim é com o Antônio Gaudério.“

Mesmo hoje, esse olhar permanece.

“Eu vou dar um exemplo. A minha irmã é modelo e muitas vezes ela precisa fazer foto tipo street fashion. E aí ela pede pro meu pai tirar as fotos dela e vira e mexe ele pegou uma pessoa em situação de vulnerabilidade social lá no fundo. Minha irmã fala: ‘Não, pai, não era isso’.“

Ao longo da carreira, Gaudério recebeu alguns dos principais reconhecimentos do jornalismo brasileiro, entre eles o Prêmio Vladimir Herzog, em 1993, menções honrosas da mesma premiação em 1995 e 1998, o Prêmio Folha de Jornalismo em 1995, 1998 e 2007 e o Prêmio Ayrton Senna de Fotografia, em 2000.

Para Aurora, o trabalho de recuperação do acervo deixou de ser apenas uma tentativa de preservar a trajetória do pai.

“Eu entendi que o nome Antônio Gaudério é muito menor do que a importância da gente olhar pra história do nosso país.“

A reflexão dialoga com uma percepção recorrente sobre o patrimônio histórico brasileiro: a de que o país convive com sucessivas perdas de sua memória documental.

Preservar o acervo de Antônio Gaudério significa, portanto, mais do que conservar fotografias. Significa garantir que registros sobre trabalho escravo, infância explorada, desigualdades sociais, migrações e tantos outros temas permaneçam acessíveis às futuras gerações como documentos da história brasileira.

Hoje, o acervo pode ser consultado no site oficial e no perfil do fotógrafo no Instagram que junto do público relembra sua carreira e vida. As imagens preservam não apenas a trajetória de um dos principais fotojornalistas do país, mas também fragmentos da memória coletiva de um Brasil que, muitas vezes, insiste em esquecer sua própria história.

Por Eliza Lima

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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