Diretor de “Honestino” era amigo do líder estudantil assassinado em 1973 e utilizou documentos raros para produção do filme

COMPARTILHE ESSA MATÉRIA

Dois jovens entram no cinema para assistir ao filme Satyricon (1969), de Federico Fellini, na Praça Roosevelt, no Centro de São Paulo. Um deles se escondia e vivia clandestinamente perseguido pela repressão. O outro estava com medo. Pensava na possibilidade de que estar naquela sessão pudesse colocar seu amigo em perigo. Os amigos eram Honestino Guimarães e Aurélio Michiles.

Na tentativa de confortar seu amigo que estava com medo, Honestino virou para Aurélio e disse: “calma, companheiro, a hora agora é a diversão. Vamos ao Fellini”. O episódio ocorreu em 1970, momento de recrudescimento da ditadura militar.

É de Aurélio Michiles o filme “Honestino”, que estreou nesta semana no País. O cineasta diz, hoje, que a amizade entre os dois explica a motivação especial para a produção.

Aurélio chegou a Brasília em 1968, aos 16 anos, vindo de Manaus (AM), na mesma época de outros jovens amazonenses, entre eles o escritor Milton Hatoum. Ainda estudante do Ensino Médio, ele preparava-se para o vestibular de arquitetura da Universidade de Brasília (UnB). Honestino, então, já era uma das principais lideranças do movimento estudantil brasiliense e estudante de geologia na universidade. 

“Não diria que convivi com o Honestino. O mais correto seria dizer que tive uma relação de amizade”, explica Aurélio. A ideia de transformar essa relação em filme, no entanto, demorou a nascer.

“Essa história sobre o Honestino sempre esteve dentro de mim”, conta. Mas, por envolver uma trajetória “dramática” e “trágica”, o diretor admite que a empurrava para debaixo do tapete.

A decisão de enfrentar essa memória veio de maneira inesperada. Em uma troca de mensagens com a escritora Isaura Botelho, Aurélio recebeu um vídeo da reinauguração da ponte Honestino Guimarães, sobre o Lago Paranoá, em Brasília. Nas imagens, Lucas, neto de Honestino, discursava sobre o avô.

Aurélio comoveu-se e ligou para Isaura e anunciou: “Vou fazer um filme sobre o Gui (apelido de Honestino”.

Pouco depois, recebeu dela uma caixa com objetos que haviam pertencido a Honestino: cartas destinadas a familiares e amigos, fotografias, poesias, documentos da Ação Popular e outros vestígios de sua trajetória.

Foi também nesse processo que Aurélio encontrou Nilson Rodrigues, produtor e exibidor de cinema brasiliense que já carregava uma ideia semelhante. O encontro ajudou a transformar a intenção em produção.

Entre o arquivo e a memória

Filmar um período como a ditadura militar impõe um desafio que vai além da preservação de documentos.

Inspirado pelo cineasta Alberto Cavalcanti, que não enxergava uma fronteira rígida entre documentário e ficção, o diretor buscou construir uma narrativa que ultrapassasse a simples reunião de documentos históricos. O objetivo era encontrar uma dramaturgia capaz de estabelecer uma relação entre o passado e o presente.

“O mais importante é identificarmos a metáfora que se encontra em cada história a ser revelada”, afirma.

No caso de Honestino, a metáfora está justamente na tentativa de iluminar um lugar ainda obscuro da história brasileira. Não se trata apenas de recuperar um personagem desaparecido, mas de compreender o que sua trajetória pode dizer ao presente.

Honestino não aparece apenas como uma vítima da ditadura. Ele é apresentado como alguém que enfrentou os dilemas de sua geração e tomou decisões a partir das questões políticas de seu tempo.

Ao mesmo tempo, sua história é colocada diante dos dilema do presente de defesa da democracia.

O que significa lembrar

As imagens em preto e branco, os documentos oficiais e os relatos históricos registram os acontecimentos, mas não necessariamente conseguem transmitir a sensação de viver sob ameaça.O jovem que enfrentava a repressão também era aquele que queria assistir a Fellini com um amigo.

Ao realizar o filme, Aurélio diz que nunca pensou inicialmente em provocar uma grande reação social. Seu desejo era mais simples: levar o público às salas de cinema para que brasileiros pudessem conhecer aquele jovem que dedicou a vida à defesa da liberdade e da democracia.

Honestino foi assassinado aos 26 anos pela ditadura militar. Seu corpo nunca foi encontrado.

O desaparecimento, portanto, não terminou com o fim do regime. Permaneceu como uma ferida aberta para familiares, amigos e para a própria história brasileira.

Aurélio espera que Honestino possa não apenas fazer o público conhecer sua história, mas também despertar alguém que saiba algo ainda não revelado sobre seu desaparecimento.

“Caso o filme desperte alguma vontade inaudita de alguém que saiba dessa história e queira revelar, essa é a hora de fazer justiça com esse hediondo episódio”, afirma.

Por Isabela Gullane

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.

Você tem o direito de:
Compartilhar — copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato para qualquer fim, mesmo que comercial.

Atribuição — Você deve dar o crédito apropriado, prover um link para a licença e indicar se mudanças foram feitas. Você deve fazê-lo em qualquer circunstância razoável, mas de nenhuma maneira que sugira que o licenciante apoia você ou o seu uso.

SemDerivações — Se você remixar, transformar ou criar a partir do material, você não pode distribuir o material modificado.

A Agência de Notícias é um projeto de extensão do curso de Jornalismo com atuação diária de estudantes no desenvolvimento de textos, fotografias, áudio e vídeos com a supervisão de professores dos cursos de comunicação

plugins premium WordPress