O vento chacoalha toalhas com imagens de Lula e Flávio Bolsonaro que permanecem penduradas, esperando compradores à beira das ruas da capital. Na quadra 211 da Asa Norte, o vendedor dos produtor é Thiago Alves Maia.
Paraibano de 27 anos, o ofício principal é vender redes de descanso fabricadas em seu estado natal. Mas, desde a Copa do Mundo, aproveita e expõe produtos temáticos, apesar de sua completa falta de interesse tanto em futebol quanto por política. Ele nunca votou para Presidente da República.

“Não me interesso muito por política. Isso aí é só para trabalho mesmo para dar uma acrescentada a mais na diária”, comenta. No entanto, mesmo que Thiago não esteja a par do noticiário e nem tenha seu título regularizado.
Baixo movimento
Ele se mostra decepcionado com a falta de engajamento dessas eleições. Ele lamenta não o período não tem lhe trazido um retorno financeiro tão significativo quanto a de 2022.
“As outras deu para tirar um dinheirinho bom. Já nessa daqui está parada demais. Só vende uma, duas, tem dia de vender cinco. Parece que o pessoal não está muito animado”, comenta o vendedor que também critica a polarização.
Lembranças de casa
Thiago é natural do município de Brejo do Cruz (PB), uma cidade com população estimada de 14.905, segundo o IBGE, e que faz fronteira com São Bento.
Essa última, conhecida como “Terra das Redes”, é um polo industrial de produtos têxteis no interior da Paraíba. Nesse contexto, ao largar os estudos no sétimo ano, o jovem se viu trabalhando em uma dessas fábricas, fazendo acabamentos do mesmo produto que viria a vender em Brasília.
Ele recorda que, aos 17 anos de idade, “estava sem fazer nada”, fora da escola e desempregado.
Ele procura uma nova ocupação, conheceu, por intermédio de um amigo, aquele que é seu chefe até hoje, o José Araújo, também conhecido como Sopinha, que o chamou para participar de um empreendimento de vendas de rede na capital.
“É sofrido morar longe da família. E tem hora que dá saudade do pai, da mãe”, diz o vendedor de toalhas
O vendedor diz que, à época, se interessou por morar em Brasília sob a promessa de melhores salários e um estilo de vida mais tranquilo. Tinha planos de ficar apenas um ano na capital, mas conheceu a sua atual esposa e a engravidou, assim se estabelecendo na Candangolândia.
Devido aos altos custos de manter uma família de três filhos, faz tempo que não visita sua cidade na Paraíba, e pensa em retornar ao estado para ficar mais perto de seus pais, dos quais se mostra muito saudoso.
“Cidadão de bem”
Assim, Thiago vive o seu cotidiano. Sai de sua casa de manhã cedo e pendura suas redes, todos os dias em uma localização diferente. Geralmente nas segundas-feiras está no Jardim Botânico, nas terças e sextas fica na Asa Norte, na quarta se estabelece na Asa Sul e nas quintas varia, geralmente entre Guará e Sobradinho.
Também mora perto do estoque do Sopinha, no Setor de Mansões Bandeirantes, onde busca as mercadorias. “Ele é um patrão bem tranquilo”, conta.
De acordo com Thiago, o seu chefe fornece as redes, camisas e toalhas sem cobrança e, assim, se a mercadoria sobrar, pode retornar. Também emprestou dinheiro do próprio bolso para Thiago comprar o carro que usa para realizar o seu deslocamento diário.
Toalhas vendidas, sem conversas
No comércio itinerante de Thiago da 211 norte, do qual a reportagem visitou, as redes e toalhas ficam estendidas de frente à rua da quadra residencial. Assim, se alguém estiver interessado em comprar o “souvenir” de seu político de preferência, pode encostar o carro e falar com Thiago, estilo “drive thru”.
O vendedor diz que geralmente nem conversa com os consumidores, evitando os assuntos de política, que, assim como o futebol, associa a brigas e exaltações.
Thiago afirma que as toalhas que mais vendem são as do presidente Lula, em todas as cidades satélites. Em 2022, conta que vendia mais de 30 por dia.
À época, a de Jair Bolsonaro também saía bem, de 10 a 15 por dia. Explica que os bolsonaristas, na verdade, preferem comprar bonés ou a bandeira do Brasil, ao invés das toalhas.
“Até em outros lugares, como no Lago Sul, compram pouco. Acho que eles [eleitores de Flávio] são mais envergonhados.”

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Por Artur Maldaner (texto e fotos)
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


