Psicóloga e educadora de 106 anos de idade perdeu memória, mas legado está por todos os lados

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Não foi preciso muito tempo para perceber a vitalidade que havia ali. “Você quer ver o quintal?” Rachide mal havia terminado de mostrar a casa quando já encontrava outra coisa para apresentar. Uma pintura, um vaso, uma planta. A cada passo, uma lembrança diferente dos seus 106 anos de história.

Do lado de fora, as flores já começavam a cair. Rachide aponta para elas e conta das árvores que plantou quando chegou àquela casa, 45 anos antes. “Eu gosto demais de plantas, você tá vendo, né?”, diz, enquanto segue pelo quintal. Uma floração termina, outra começa. E ela vai acompanhando.

A casa também guarda o que o tempo levou embora. Um dos cômodos já foi seu ateliê. Ali, Rachide pintava, bordava, lia, costurava, moldava, queimava e pintava vasos, além de tecer os tapetes que ainda se espalham pela casa. As paredes ficaram com parte do que ela produziu.

A história, porém, começou muito antes daquele quintal. Quinta filha de Nita e Miguelinho, Rachide nasceu em Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais. Estudou, concluiu o curso normal aos 15 anos e, depois de se casar com Diomar, mudou-se para Patos de Minas. Quinze anos depois do casamento, Rachide decidiu que era hora de voltar a trabalhar como professora.

Na escola, era descrita pela família como exigente e dedicada, admirada pelos colegas e querida pelos alunos. Fora dela, também encontrou outros lugares para ocupar. Participava da Ação Católica e mantinha um programa no rádio, no qual comentava as leituras da missa.

Em 1963, decidiu começar outra vez. Prestou concurso para professora da Fundação Educacional, ficou entre os primeiros classificados e, em menos de um mês, foi convocada. Pediu demissão da Secretaria de Educação de Minas Gerais e partiu para Brasília com os filhos. Diomar ficaria em Patos de Minas por mais alguns meses, até conseguir transferir seu trabalho.

A capital ainda era nova. A família foi morar em Taguatinga, enquanto Rachide e os filhos mais velhos precisavam atravessar a cidade para chegar ao Plano Piloto. O transporte era escasso, demorado e perigoso. Depois de cinco meses, conseguiram se mudar. “Tudo ficou mais fácil.”

Em Brasília, Rachide continuou na educação. Foi professora, vice-diretora e diretora. Mais tarde, aos 50 anos, decidiu voltar a estudar. Escolheu Psicologia, formou-se no Centro Universitário de Brasília (Ceub) e abriu a própria clínica. Também trabalhou com educação especial. Só parou aos 70 anos.

A vida profissional crescia ao mesmo tempo que a família. Foram sete filhos, 18 netos e, depois, bisnetos. Dinha também entrou nessa história, ajudando a cuidar das crianças enquanto Rachide trabalhava.

Os anos passaram e a casa ganhou árvores, flores, netos e domingos cheios. Foi ali que Rachide continuou encontrando ocupação. Quando perguntada sobre a diversão da sua vida atual, ela mesma tratou de responder: “Diversão quem faz é a gente.”

Aos 100 anos, os filhos reuniram fotografias e histórias em uma revista para celebrar a mãe. Cinco anos depois, em 2025, Rachide ainda fazia questão de mostrar a casa. Caminhava entre os cômodos, apontava para as plantas e encontrava alguma coisa para contar. “Tá vendo? Tem muitas caindo”, dizia sobre as flores.

Aquela tarde também mostrava as marcas do tempo. A coordenação motora já não era a mesma, e a família havia recorrido a cuidadoras para acompanhá-la. Ainda assim, havia movimento em Rachide. Havia curiosidade, vontade de mostrar, de explicar, de continuar.

Hoje, Yeda conta que a realidade mudou. Rachide perdeu quase 100% da memória remota e 100% da memória recente, e o declínio cognitivo se acentuou no último ano. Uma nova entrevista, por isso, já não seria possível.

Restam as fotografias, os relatos da família e a própria casa. Restam as plantas que ela viu crescer, os trabalhos que ficaram pelas paredes e as histórias que, durante décadas, Rachide fez questão de contar.

Por Maria Luiza Pinheiro

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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