Um corpo ocultado sob folhagens e galhos secos, no fundo frio de uma vala às margens do Pistão Norte, em Taguatinga, guardava os vestígios da madrugada de quinta-feira, 10 de setembro de 2026. Nas imagens de monitoramento, a polícia conseguiu identificar dois homens caminhando lado a lado pela QND 12.

Um dos homens, esguio, de 1,65m de altura, pele negra, corpo magro e cabelos cacheados raspado na lateral, havia sido atraído, segundo relatado para a polícia civil, por um falso pedido de ajuda para buscar uma lona.
Ao fingir amarrar o tênis, o outro homem, de pele parda, cabelo crespo, barba fechada, magro e de cerca de 1,80m de altura, segurou a vítima por trás, cortou seu pescoço e desferiu 14 golpes de faca. Após o ataque, o corpo da vítima foi deixado em uma vala de escoamento de água.
O ocorrido se deu em meio a cidade, nas proximidades do Taguaparque, em plena área aberta e urbana. O suspeito trabalhava como segurança na Feira da Praça do Bicalho. Já a vítima havia sido acusado de furtar a mesma feira.

Aquele silenciamento não era o primeiro ato de violência na história da vítima. Dois anos antes, após a suspeita de um outro furto também na Feira do Bicalho, o homem de 46 anos, que vivia em situação de rua, foi espancado e teve a cabeça pisoteada por outro segurança do local.
Ele habitava as ruas da quadra QNE, mas para a maioria dos pedestres e comerciantes, era apenas uma figura diluída na paisagem. Estava constantemente à vista de quem passava pela região, porém permanecia não sendo visto em sua humanidade.
Seu nome
O corpo ocultado e não identificado no noticiário era de um homem que dividia impressões por onde passava. Após o noticiário divulgar o assassinato cometido naquela noite, mesmo que seu nome nunca tenha sido mencionado, os moradores do bairro reconheceram quem ocupava aquele corpo. Era Julio Sousa Carrera de Melo Santos, conhecido na região como “Juninho”.
Ele costumava andar pelas ruas do Bicalho e ficar sentado no chão da fachada da Lotérica Alvorada. Costumava também beber e furtar pequenos comércios da redondeza.
Júlio havia sido expulso da frente da lotérica. Os comerciantes passaram a se sentir inseguros com a sua presença após roubar o freezer da Banca Carisma, localizada na Comercial Norte.
“Ele costumava ficar por aqui, mas eu não conhecia ele não. Eu e ele não conversávamos.
Ele roubou um freezer que eu tinha. Há três anos. Aí o pessoal botou ele pra correr daqui” relatou o dono da banca que se identificou apenas como José. Encostado na parede de sua loja e com o outro braço segurando a cintura, evitou contato visual e demonstrou indiferença ao falar de Júlio.
Para alguns, era uma presença incômoda. Para outros, alguém que precisava de ajuda. “Quando ele tava bem, era tranquilo demais. Mas quando não tava, não sei se era por causa de droga ou se era cachaça, aí xingava todo mundo”, conta o vendedor de bijuterias chamado Alfredo, que trabalha circulando de bicicleta por Taguatinga Norte e sempre avistava Juninho.
“Não vou julgar ele. Não sei porque ele fez isso. Acho que foi fraqueza”, afirma. Expulso da fachada da lotérica a pedido dos comerciantes, Julio permaneceu vagando entre as calçadas e a praça do Bicalho. Naquela região em que vivia, pedia ajuda e cometia pequenos delitos. Foi justamente nesse lugar que foi atacado e morreu.
Na sexta-feira, 11 de setembro, um dia após o assassinato, a Polícia Civil do Distrito Federal identificou o autor do crime e realizou a abordagem dentro do ônibus em que pretendia fugir para o Goiás.
Detido e levado pela equipe da 17ª Delegacia de Polícia, durante o interrogatório o suspeito confessou o homicídio e alegou que Julio causava prejuízos por furtos na feira para justificar a barbárie cometida.
“Não sei o nome dele. Só conheço por ‘Juninho’”, diz Alfredo. Frase também dita por outros moradores e comerciantes que acompanhavam o paradeiro do rapaz. Aquele homem tinha um nome que quase ninguém pronunciava, viveu nas ruas e encontrou a morte em uma vala escura.
Por Ludmilla Oliveira (texto e fotos)
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


