“A arte salva vidas e precisa de recursos”, diz bailarina brasiliense; veja entrevista

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A dança contemporânea, que possui uma formação híbrida, unindo, entre outros, capoeira, jazz e outros movimentos acrobáticos, enfrenta um ponto de tensão estrutural para o fomento cultural, na avaliação da bailarina brasiliense Clara Molina

“Cultura é um senso de identidade, de pertencimento, do nosso povo, da nossa sociedade… A arte salva vidas! já vi muitas vidas sendo salvas por meio da arte”, afirma

Ela explica que o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) exige que os proponentes estejam cadastrados e inscrevam propostas sob um nicho específico. No caso da dança Contemporânea, como se misturam elementos de música, teatro e até circo, isso impede que o artista submeta um projeto integrado entre dança e música sob a mesma inscrição.

A bailarina lidera um grupo de dança contemporânea chamado Coletivo Corpo em Criação.

Ela considera a situação como uma barreira técnica que afasta os proponentes iniciantes, e que o acesso a novos grupos está desfavorável devido a uma cadeia de produtores que atuam há 3 décadas e dominam os “macetes de aprovação” e contam com histórico consolidado.

“E a gente acaba ficando muito separado. O pessoal das artes fica cada um no seu nicho. Produzindo a partir do nicho que você se inscreveu no FAC. Então, se eu tenho a inscrição em dança, eu só posso escrever projeto de dança”, afirma.

Ela também esclarece que a visão de que a dança exige um domínio técnico rígido ou uma formação especializada distanciam as pessoas da arte.

Para ela, a movimentação expressiva é como uma faculdade inerente ao ser humano, utilizada naturalmente em contextos sociais e como recurso de comunicação.

“Nós dançamos”

“O ser humano dança. Não precisa de uma técnica específica. Você dança, você vai numa festa, você fica lá um dois, três, para lá e para cá. Todo mundo tem a dança como recurso assim”, declara

Clara promove espetáculos singulares como a obra Entre, que combina a Dança Contemporânea com práticas somáticas e técnicas de floorwork (trabalho de chão).

Ela reúne um grupo heterogêneo de bailarinos com corpos e histórias de vida plurais, O processo apoia-se no conceito de intérprete-criador, no qual os dançarinos não apenas executam passos, mas interferem diretamente na criação cênica, trazendo suas próprias memórias e bagagens corporais.

A produção do espetáculo teve que ser produzida de forma totalmente independente, sendo financiado com os próprios recursos de Clara, devido às barreiras de escrita para iniciantes, ao número reduzido de vagas contempladas e pela burocracia das categorias.

“A gente luta muito para que esse orçamento dos recursos aumente, para que mais pessoas tenham os projetos contemplados […] Essa é a maior dificuldade: ter recurso disponível para pagar uma ficha técnica.”

Diante desse cenário, ela defende o aumento de verbas, a oferta pelo governo, de recursos gratuitos de escrita de projetos e a criação de editais para planos múltiplos de artes.

Público Geral

Clara vê a tentativa de se aproximar do público geral como uma missão de democratização, pois aponta que o estudo e a pesquisa acadêmica em dança frequentemente se tornam inalcançáveis por se fecharem em um ecossistema restrito, onde pesquisadores conversam apenas com o seu próprio nicho.

De acordo com ela, para aproximar a sociedade, é necessário garantir que pessoas comuns, principalmente aquelas que nunca assistiram uma apresentação cênica, consigam ler o programa do espetáculo e compreender a proposta, e que a eliminação da hierarquia poça desfazer a barreira invisível que separa o artista no palco do espectador na plateia.

Por André Henrique e João Roberto Delattre

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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