O Memorial JK, museu destinado a vida e trajetória do ex-presidente, Juscelino Kubitschek, completou 36 anos, e a morte do mineiro 41. O museu, que fez mais de três décadas em setembro, não só serviu de base para contar a história de Juscelino, mas, também, a de muitos que vieram para Brasília ainda nos primeiros anos de vida da capital. É o caso de Paulo Campos, 75 anos. Ele chegou em fevereiro de 1963, quando Brasília já estava praticamente pronta, mas contribuiu para o acervo arquitetônico da capital ao trabalhar na construção do Memorial JK, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 12 de setembro de 1981.
Operário natural de Parnaíba (PI), distante 2.038 quilômetros do DF e 339 da capital piauiense, Teresina, ele desembarcou em Brasília em busca de novas oportunidades e perspectivas. O pioneiro lembra que a cidade não era cheia de construções como hoje. “Brasília era cheia de espaços, a W3 tinha prédios alternados, e não seguidos como hoje. Inclusive não tinha nada perto do Mercado Norte de Taguatinga”, comenta.
O aposentado que chegou como operário, ele teve a chance de mudar de vida com as oportunidades na capital. Chegou a presidir o Sindicato dos Metalúrgicos e, depois, cursou e se graduou nos cursos de direito e economia.

Candangas
Mas não só engenheiros e operários trabalhavam nas obras de Brasília. Pessoas como Maria José Pirangi, 78 anos, também contribuíram para o bom andamento das construções e consequente desenvolvimento da capital. A aposentada trabalhou na parte administrativa da construção de prédios como o Aeroporto Internacional de Brasília JK, além de ver ser edificado o primeiro prédio da Imprensa Nacional em Brasília, dos ministérios e, inclusive, do Congresso Nacional.
Maria José chegou aqui em 1958, quando ainda não existia quase nada na região onde seria Brasília, apenas pequenas vilas operárias. Aos 17 anos, na companhia dos pais, ela deixou a cidade natal Barra do Corda (MA), distante 1.534 km do DF e 350 da capital do estado, São Luís. Maria se adaptou bem em Brasília, aproveitou as chances que lhe foram oferecidas e tem um carinho especial pela cidade. “Não admito que ninguém fale mal da minha Brasília”, comenta.
Diferente de Maria José, Terezinha Brito, 78 anos, chegou quando a cidade já tinha sido inaugurada. Em 19 de janeiro de 1963 ela ganhou de um tio como presente de formatura uma viagem de Matões (MA), que fica a 1642 km do DF, para vir a Brasília. Ao chegar, os olhos se encheram com as obras arquitetônicas e ela se sentiu incentivada a permanecer na cidade pela quantidade de oportunidades para uma professora recém formada. “Não planejava ficar quando cheguei, vim apenas para conhecer, mas as chances de emprego eram tantas e as opções tão diferentes da minha cidade que decidi ficar”, afirma.
A aposentada se lembra que a cidade era repleta de vagas de emprego e o lazer do fim de semana era no Plano Piloto ou na cachoeira do Gama, uma opção de turismo natural. “Tive a oportunidade de conhecer o Palácio da Alvorada por dentro, porque era vizinha de um empregado da família do presidente da época, João Goulart. O governo liberava visitas, pois queria mostrar para os primeiros habitantes como tinham ficado as obras de Brasília”, comenta.

Segundo Terezinha, muita coisa mudou na cidade desde os primeiros anos no DF. Ela cita que o crescimento demográfico assustou por ter saído do planejamento inicial. Hoje Brasília tem mais de 3 milhões de habitantes, mas foi sonhada para 500 mil pessoas. Também comentou que as únicas Regiões Administrativas (RAs) existentes quando eram o Plano Piloto, Taguatinga, Núcleo Bandeirante, Sobradinho e Candangolândia.
Por outro lado, para a maranhense, o que não mudou em Brasília foi a diversidade de pessoas de diversos estados brasileiros. “Parecia uma torre de Babel, cada um tinha um sotaque diferente e tinham muitos mineiros e nordestinos.”
Índices
O comentário de Terezinha é reafirmado por uma análise feita em 2014 pela Companhia de Planejamento (Codeplan), com base na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios do Distrito Federal (Pdad) que apontou 51,8% de imigrantes no DF em 2011: desses, 51,1% vieram do Nordeste.

Além disso, mais de 75% dos nordestinos que moram em Brasília são, principalmente, de quatro estados: Bahia (21,7%), Piauí (21,2%), Maranhão (18,2%) e Ceará (14,7%).
Segundo o geógrafo e historiador Aldo Paviani, especialista em Brasília, o grande movimento migratório para Brasília teve como principais motivos a necessidade de trabalhadores para as construções da Nova Capital, a expulsão de agricultores pela seca que castigou o Nordeste e a oferta de empregos em diversas atividades nos primeiros anos após a inauguração de Brasília.
Aldo explicou que ainda não existe pesquisa específica sobre a permanência dos primeiros migrantes em Brasília, mas, pelo observado, isso dependente da classe social dos indivíduos. “Pode-se inferir, por exemplo, que empresários e funcionários de alto escalão aqui se estabeleceram, compraram imóveis, terras, ou abriram lojas, construíram edifícios e permaneceram”, explicou.
Por outro lado, segundo ele, os que vieram sem recursos foram para os anéis externos, denominado pelo geógrafo de “Periferia Metropolitana de Brasília”. “Foram onde eles compraram casa, terreno ou abriram comércio, mas continuam a trabalhar no DF, principalmente no Plano Piloto”, esclareceu.
Os migrantes que aqui ficaram fizeram questão de deixar um pouco da cultura na capital. Isso é feito por meio da música, das artes, do teatro, da linguagem e da culinária que são expressados em centros culturais, como a Estância Gaúcha do Planalto, a Casa do Ceará, a Casa do Cantador, feita para homenagear a população nordestina do Distrito Federal, entre outros.
Maria Carolina Morais
Sob supervisão de Isa Stacciarini