As mulheres são a maioria (54,4%) entre os frequentadores da rodoviária do Plano Piloto, segundo informação do DFTrans em abril deste ano. São vendedoras, estudantes, auxiliares de serviços gerais, donas de casa. Todas com rotinas, vidas e objetivos diferentes, mas com o machismo em comum. São vítimas de passadas de mão, um elogio desaforado, uma falta de respeito fora do normal. Como justificativa existem pernas de fora, muito decote, um sorriso fora de hora para ser considerado um “mole”. Uma simples e cansativa ida ao trabalho ou volta para casa é motivo de apreensão. Horário de pico, coletivo cheio e a oportunidade perfeita para assediar aquela figura que aos olhos de muitos é frágil e inferior. Essa é realidade diária das mulheres da rodoviária.
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A auxiliar de serviços gerais, Maria Fátima da Silva trabalha na rodoviária há 9 meses. Ela diz que sempre faz seu serviço sob certa atenção por prezar a sua segurança, e por ter que lidar com a falta de respeito de alguns homens “As vezes você tem que trabalhar com a cara fechada, e as pessoas falam “ah funcionário tá trabalhando de mal humor” e não é. Nosso trabalho já é tenso, se a gente dá um sorriso eles acham que a gente já está dando confiança”. Maria Fátima também pega ônibus todos os dias na rodoviária e diz que já passou por muitas situações desagradáveis. No momento ela não soube lidar, mas conta que se acontecesse hoje faria diferente “No caso se vier me acontecer agora, e espero que não aconteça claro minha reação vai ser outra. Vou gritar, vou querer que vá para a delegacia, vou aprontar um escândalo! Eu acho isso um abuso”.
Marca
No início do mês de junho, a ONG ÉNois Inteligência Jovem em parceria com os Institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão apontou em pesquisa que 94% das mulheres entre 14 e 24 anos já foram assediadas verbalmente e 77% sexualmente. Segundo as 2285 entrevistadas de 370 cidades brasileiras, 72% dos crimes ocorreram com desconhecidos e 90% já deixou de fazer algo por medo da violência.
Jéssica Lawane Sousa é estudante e pega ônibus diariamente na rodoviária. Segundo ela, quando o coletivo está muito cheio, sempre tem um “cara” que encosta atrás “É frustrante porque você saber que o cara está fazendo aquilo pelo fato de você ser mulher”. Sentimento de raiva e culpa. Assim como Jéssica, é o que a maioria sente por ser omissa diante de tal situação “Eu penso que da próxima que acontecer eu vou responder, mas eu fico constrangida e geralmente não falo nada”. Ela conta que, certa vez estava no ônibus com sua madrinha que é surda e as duas conversavam por sinais, até que chegou um homem perto dela e escreveu uma mensagem no celular como se ela fosse surda também “Estava escrito gostosa, linda e etc. Quando falei, ele ficou todo sem graça, ficou fingindo que não era comigo”. Arcaica, atrasada e machista. São esses os adjetivos usados por Jéssica Lawane para se referir a sociedade. “Não é porque eu estou na rua, que eu me tornei patrimônio público”.
A cobradora de ônibus Fernanda Carvalho nunca presenciou nenhuma situação de assédio em seu horário de trabalho. Segundo ela, as empresas orientam que nesses casos o motorista deve mudar sua rota e ir direto para uma delegacia. É o que o motorista Roberto Carlos Borges diz que faria sem pensar duas vezes “Eu levaria o ônibus e o indivíduo para a delegacia na hora”. Para ele, independente do que a mulher coloca em seu corpo, ninguém tem o direito de “passar a mão”, afinal as pessoas compram e vestem o que querem. Fernanda segue na mesma linha de raciocínio. Clama por mais respeito e liberdade “Não é porque eu vou andar de ônibus que tenho que está de bata ou vestido longo. Tenho que vestir a roupa que eu quiser”.
Ausência
Em nota, a Secretária de Segurança Pública diz que o próprio órgão é responsável por compilar as ocorrências criminais. Porém, não há um estudo atual sobre o assunto. Pois, assédio sexual em transportes públicos é um recorte muito específico, teria que abrir cada ocorrência para verificar os locais onde ocorreram os assédios e, assim, apontar os casos registrados em transportes públicos. Por enquanto, seria inviável encomendar tal levantamento, pois a secretária tem prioridades com outros programas. No posto policial da rodoviária, militares informaram que não possuem dados, pois todas as ocorrências são levadas para a delegacia mais próxima, inclusive os flagrantes.
Flávia Dambros é vendedora na plataforma inferior há 3 meses. Quando não está dentro da loja, está na porta a espera de clientes para atender. Ela diz que já escutou coisas bem desagradáveis enquanto trabalhava “A gente tenta ignorar, mas é bem chato”. Todas as vezes que pega o metrô na Estação Central que fica na própria rodoviária, Flávia entra no vagão destinado para as mulheres. Mas, não é sempre que essa regra feminista é cumprida e muita gente se aproveita da falta de fiscalização “Constantemente entram homens nesse vagão. Tem algumas mulheres que falam e eles saem, mas não é sempre”.
Na lei, assédio sexual é constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. A pena do crime de assédio é de um a dois anos de detenção.
Provocação
Neuza Caixeta é dona de casa e pega ônibus normalmente vazio, nunca passou por situações de assédio. Mas, para ela quando ele acontece é culpa tanto do homem quanto da mulher “Como se diz homem é homem eles não respeitam. Ai se você tá com uma roupa curta, vai provocar ele. Ainda mais dentro de um ônibus cheio”. O tipografo José de Nazaré também usa coletivo e concorda com o pensamento de Neuza. Segundo ele, não existe problema de saúde mental por parte dos homens “Não é doença, é falta de vergonha na cara e as mulheres também provocam”. E chega a ser mais radical “Para resolver esse problema só pena de morte e prisão perpétua”.
O Distrito Federal se encontra na Rodoviária do Plano Piloto. Histórias se cruzam todos os dias. E infelizmente as de muitas Marias, Jéssicas, Flávias, Fernandas e Neuzas são iguais e se repetem constantemente.
Por Júlia Campos
Fotos: Agência Brasília