Camponesas defendem modo de vida comunitário, produção sem agrotóxicos e resistência diante de dificuldades

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Os cheiros que saem dos caldeirões nas casas da comunidade quilombola da Mata do Café, na área rural de Minaçu (GO), encantam quem passa por lá. Nas feiras livres das áreas urbanas das redondezas ou à beira da GO-241, os doces de mamão e de banana são vendidos pelas camponesas de uma comunidade que apresenta mais do que doçura para o paladar. Queijo, requeijão e produtos de pimenta também vêm dessas panelas cheias de histórias para contar.

Faz, em 2026, exatos 50 anos que a Aldeia Avá-Canoeiro da Mata do Café foi atacada e dizimada por fazendeiros. Pelo menos 15 pessoas foram mortas e seus corpos incendiados junto com as malocas. Desde então, as ameaças a indígenas e a quilombolas não cessaram. Mas a luta desse povo ganhou maior proteção depois que, em 2023, a Fundação Cultural Palmares (FCP) emitiu certificado para comunidade que se autodeclarara remanescente de quilombo.

Cinco décadas depois, a lembrança da violência segue presente entre as famílias que vivem na região. Em meio às disputas históricas por terra e território, a permanência da comunidade também passa pela manutenção de práticas tradicionais de cultivo, produção de alimentos e organização coletiva.

Mais do que o conteúdo na panela, o que camponesas defendem é um modo de vida, produção natural sem agrotóxicos e união comunitária para render recursos para continuar produzindo.

A agricultora Valtenir Viana Barbosa, de 56 anos, nascida e criada no Quilombo da Mata do Café, diz que cada produto representa o cotidiano de um quilombo onde o trabalho coletivo estrutura a vida e a produção de alimentos.

A agricultora Valtenir Barbosa nasceu e se criou no quilombo Mata do Café. Foto: Mateus Péres

“Nós produzimos o queijo, requeijão, doce de leite, doce de mamão, pimenta, jurubeba, doce de banana e muitas coisas”. Segundo ela, a produção é resultado direto do trabalho familiar e comunitário desenvolvido no quilombo.

Além dos alimentos, a agricultora também levou sementes produzidas na própria comunidade, entre elas variedades de milho e pimenta cultivadas pelas famílias da Mata do Café.

“Isso aqui tudo é da nossa produção lá do quilombo. A gente faz em família mesmo”.

Fazer em família orgulha a camponesa que aprendeu as técnicas de aroma e sabor com as mais velhas. Em junho, Valtenir e outras agricultoras deixaram a rotina de trabalho rural para um encontro nacional no shopping popular, Conic, em Brasília (DF). No caso da quilombola, foram quase 400 quilômetros de estrada para garantir visibilidade às riquezas da área rural.

Visibilidade

Além dos produtos da colheita, essas mulheres transformam a vida no campo em alimentos, artesanato e saberes expostos em mesas repletas de queijos, doces, sementes crioulas e peças de argila.

Por trás de cada preparo e de cada peça moldada, estão mulheres que produzem, administram, comercializam e sustentam suas famílias, convertendo o que cultivam em renda e autonomia.

“Muitas vezes o produto da gente fica meio escondido. As pessoas não sabem a capacidade que nós mulheres têm de produzir”, afirma Valtenir.

No encontro em junho, camponesas de 19 estados do país dividem saberes acumulados ao longo de gerações e experiências de resistência na terra.

Ao lado da mesa da agricultora goiana, uma das mesas, vários potes de mel dividem espaço com peças de crochê e objetos moldados em argila.

É atrás dessa exposição colorida, marcada por produtos típicos da região Nordeste, que está a     agricultora Itamarara Almeida, integrante da Coordenação Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Ela percorreu mais de 2 mil quilômetros desde Natal (RN) para participar do encontro. 

Para ela, a presença na mostra ultrapassa a dimensão produtiva e evidencia o papel do empreendedorismo feminino no campo. “Historicamente, as mulheres camponesas produzem alimentos saudáveis, mas também produzem modos de vida”, afirma.

Ocupar esse espaço significa para a agricultora tornar público um trabalho que, durante muito tempo, permaneceu restrito ao cotidiano das famílias rurais.

“Mostrar nossa produção, trazer nossos alimentos e nosso artesanato faz muito sentido para construir uma nova sociedade”, diz.

“É uma forma de mostrar que existem outras maneiras de produzir, de cuidar da terra e de organizar a vida.”

Ela reforça que o que está exposto sobre as mesas representa apenas uma pequena parte de uma rede muito mais ampla de mulheres organizadas em diferentes regiões do país.

“Nós atuamos em diversos estados. Então não dá para saber a dimensão da quantidade de mulheres que estão representadas nessas barraquinhas todas que você vê aqui.”

Clique para ver abaixo uma mesa do artesanato potiguar

Entre os produtos que leva à mostra, Itamarara também apresenta uma produção que atravessa sua própria trajetória familiar. Além da atuação no movimento, ela mantém o trabalho com peças de argila e alfenim, doce tradicional do Rio Grande do Norte.

“Essa produção é de família. O material de argila a minha família produz há mais de cem anos”, conta.

Veja mais dos materiais feitos em argila

Vovô Potinho

Ao lembrar da origem desse saber, ela recupera uma memória afetiva que ajuda a explicar sua relação com o ofício. “Meu bisavô era chamado de Vovô Potinho”, recorda. “Durante muito tempo eu achei que era porque ele era pequenininho. Depois descobri que era porque ele fazia potes.”

A produção familiar, segundo ela, não é apenas lembrança, mas continuidade de um modo de fazer que atravessa gerações.

“Primeiro que eu tenho muito orgulho da minha família. Acho que a minha família produz coisas impressionantes.”

Para Itamara, esse conjunto de práticas não se limita ao aspecto econômico, mas está ligado à preservação de conhecimentos e formas de vida construídas ao longo do tempo no campo.

“Essas mulheres que estão aqui hoje carregam toda essa lógica da produção familiar, da agricultura camponesa, livre de venenos e de transgênicos. Isso contribui não só para a perpetuação da cultura, mas também para a manutenção de um modo de vida.”

Mostra camponesa

A organização da Segunda Mostra Nacional de Produção e Ciência das Mulheres Camponesas funciona justamente como uma etapa posterior ao trabalho realizado nos territórios. A equipe organizadora liderada por Mireli Giovana explica que o evento nasce de uma articulação coletiva entre coordenação nacional, coordenações estaduais e núcleos de base do Movimento de Mulheres Camponesas.

Segundo ela, a intenção da mostra é dar visibilidade à diversidade da produção das mulheres do campo, das águas e das florestas, reunindo em um mesmo espaço aquilo que é cultivado ao longo do ano nos quintais produtivos e comunidades rurais.

“São mulheres de 19 estados que estão aqui com 30 bancas, trazendo a produção que vem direto dos quintais produtivos, mostrando o quanto elas produzem e por que essa política é importante para as mulheres produtoras”, afirma.

Ela explica que a exposição dos produtos representa uma segunda etapa do processo produtivo, quando o que é cultivado, transformado e elaborado pelas mulheres ganha visibilidade pública.

A realização da mostra, no entanto, não segue uma periodicidade fixa e depende da disponibilidade de recursos e de políticas públicas de fomento.

“Existem recursos para execução de feiras e são nesses momentos que a gente promove esses eventos”, diz.

Assim como em outras comunidades quilombolas do país, a organização local se estrutura a partir de núcleos familiares e redes de parentesco, sustentando práticas produtivas e formas de vida tradicionais.

De acordo com dados do IBGE, o Brasil reúne cerca de 1,3 milhão de pessoas quilombolas distribuídas em diferentes regiões, em municípios como Minaçu, no norte goiano, essas comunidades costumam ter porte reduzido ou médio e se organizam em torno da agricultura familiar e da produção artesanal.

Antes do sol raiar

O Quilombo Mata do Café se insere como uma comunidade de trabalho coletivo, na qual a produção cotidiana das famílias é o que sustenta tanto a economia local quanto a presença na feira.

A agricultora descreve a produção desses produtos, que é marcada por múltiplas tarefas, realizadas de forma contínua e integrada. “Eu que tiro o leite, eu que prendo os bezerros, eu que cultivo na horta, eu que faço tudo.” A rotina, segundo ela, começa cedo e se estende ao longo do dia inteiro.

“Desde cedo a gente já está de pé. Não tem hora certa não, é o dia inteiro trabalhando”.

Valtenir relata que aprendeu esse modo de vida ainda na infância, acompanhando a família no trabalho rural. 

“Eu cresci vendo minha mãe fazendo tudo isso. Aprendi assim, trabalhando mesmo, desde nova”.

A divisão das atividades dentro da propriedade não reduz a carga de trabalho das mulheres. Além da produção dos alimentos comercializados, elas acumulam tarefas ligadas ao cuidado dos animais, à horta e ao beneficiamento dos produtos.

“Eu que tiro o leite, eu que prendo os bezerros, eu que cultivo na horta, eu que faço tudo”, resume a agricultora.

Mesmo com a intensidade do cotidiano, ela afirma que o esforço das mulheres nem sempre é reconhecido fora da comunidade. “Muitas vezes o produto da gente fica meio escondido. As pessoas não sabem a capacidade que nós mulheres têm de produzir.”

Veja abaixo produtos feitos pelas camponesas quilombolas

 Ainda assim, Valtenir destaca que esse trabalho tem papel central na economia doméstica. “Nós somos uma parte importante da despesa na nossa casa, porque contribuímos com o financeiro através dos produtos que a gente fabrica.” 

Para ela, estar na feira representa uma oportunidade de visibilidade e reconhecimento do próprio trabalho. “É muito importante pra nós vir aqui e mostrar o que a gente faz lá dentro da nossa comunidade.”

Gênero

As trajetórias das mulheres camponesas, embora originadas em regiões distintas do país, revelam um ponto em comum. A centralidade do trabalho feminino na agricultura familiar brasileira.

Em diferentes contextos rurais, são mulheres que acumulam funções produtivas, de gestão e de cuidado, sustentando não apenas a produção de alimentos, mas também a economia de suas famílias e comunidades. Dados do IBGE e do Censo Agropecuário ajudam a dimensionar essa presença. 

Mudanças climáticas 

O calor intenso e a redução da disponibilidade de água têm alterado de forma direta a rotina de produção agrícola em comunidades rurais da Amazônia. No Acre, por exemplo, açudes secam mais rapidamente. O solo perde umidade e cultivos inteiros precisam ser adaptados às novas condições climáticas.

Confira a entrevista em áudio:

O que antes era percebido como um território marcado pela abundância hídrica passa, cada vez mais, a exigir estratégias de adaptação e sobrevivência no campo.

É assim que a agricultora e liderança do Movimento de Mulheres Camponesas, Edina Belém, moradora de Bujari (AC), descreve as mudanças já sentidas no cotidiano das famílias rurais.

“Isso é um efeito já das mudanças porque a gente tá tendo uma insolação muito forte… lá tá muito quente, muito quente mesmo”, afirma. Ela relatar que a elevação das temperaturas tem impacto imediato na produção e na vida das comunidades.

Em assentamentos como Espinhara e Antônio de Holanda (ambos em Bujari) e Walter Arce (em Senador Guiomard), o abastecimento já depende, em períodos de estiagem, da chegada de caminhões-pipa.

Os açudes, pequenos e vulneráveis, secam com rapidez e deixam famílias sem água para consumo e produção. “Eles não têm água na estiagem porque os açudes secam. É como se, na estiagem, a água regressa junto com a terra”, relata Edina Belém.

Segundo ela, a fragilidade dos sistemas locais de armazenamento é agravada pela dificuldade de acesso a alternativas como poços artesianos, inviabilizados em parte pelo rebaixamento do lençol freático. “No nosso projeto das Camponesas, a gente construiu… era para construir 10 poços artesianos nos locais mais críticos. A gente conseguiu construir três só”, explica a camponesa.

A dificuldade, segundo a liderança acreana, não está apenas no custo da perfuração. Em diversas comunidades, o lençol freático tem apresentado alterações que dificultam o acesso à água mesmo em uma região historicamente associada à abundância hídrica.

Desafios com menos água

Para a agricultora acreana, a água é condição básica de existência no campo. “É vida para as mulheres, é vida para criar, para plantar, para poder beneficiar um produto.”

A dependência se evidencia no processo de beneficiamento da mandioca, base alimentar da região.

“A macaxeira fica de molho nas caixas de água. Depois ela tem que passar por no mínimo três lavagens para poder ficar só aquela massa escorrida… que vai ser temperada e assada.”

A contradição se impõe em uma região historicamente associada à abundância hídrica. “A gente está na Amazônia. E aí como é que a gente explica os nossos rios secando? O Amazonas é o estado que mais tem água e os rios estão secando”, questiona. As mudanças climáticas também atingem diretamente a produção agrícola, sobretudo culturas mais sensíveis ao calor.

“A gente diminui a produção… a alface a gente quase não tem no período da estiagem porque ela é muito sensível.”

Diante desse cenário, agricultoras passaram a adaptar estruturas e técnicas de cultivo. Estufas passaram a exigir reforços de proteção contra o sol intenso.

“Antes a gente usava a lona da estufa como protetor. Hoje a gente já tem a lona da estufa e uma outra lona em cima, que chama-se sombrite”, explica Edina Belém.

Ainda assim, as perdas continuam frequentes. “Ela perdeu cinco leiras (canteiros) de alface só devido ao aquecimento.”

O impacto econômico é imediato. Em sistemas de produção familiar, a perda de uma estufa representa prejuízo direto na renda.

“Quando ela perde uma estufa, ela perde ali R$ 1 mil da produção… perdendo cinco estufas, ela tem uma perda de quase R$ 5 mil.” Sem alternativas, muitas agricultoras são obrigadas a mudar completamente suas lavouras. “Ela teve que investir no pepino, que é mais resistente ao calor… para não ficar sem renda.”

O caso citado por Edina envolve uma agricultora que depende da produção de alface e couve para compor a renda da família. Com as perdas provocadas pelo calor, ela precisou buscar alternativas para manter a atividade produtiva.

“Ela teve que investir no pepino, que é mais resistente ao calor, para não ficar sem renda”, relata.

Além da adaptação produtiva, uma das estratégias adotadas pelas mulheres é agregar valor aos alimentos por meio do beneficiamento. Polpas, doces e geleias passam a substituir a venda da fruta in natura.

Entre os exemplos levados pelas agricultoras acreanas estão a cocada de cupuaçu, doces de banana-da-terra, geleias e o mel de cana, produtos que transformam matérias-primas abundantes nos quintais em fontes adicionais de renda.

“Esses produtos são vendidos nas feiras do MMC… elas levam verduras e também subprodutos para dar utilidade às culturas que têm”, explica.

Para enriquecer a banca


Entre os itens estão cocada de cupuaçu, geleias, doces em barra, mel de cana e preparações à base de banana e outras frutas típicas da região. O objetivo é ampliar o valor da produção e garantir renda. “A gente precisa enriquecer a banca.

“Quando você vende a fruta in natura, nem sempre consegue um bom retorno. Mas quando vira geleia ou doce, já vende melhor”, afirma Edina Belém.

Nos quintais produtivos, frutas como manga, cupuaçu, banana, acerola e goiaba seguem abundantes. O desafio, segundo as agricultoras, está em transformar essa diversidade em renda e, ao mesmo tempo, garantir a permanência das famílias no campo diante de um clima cada vez mais extremo.

Outro exemplo é o pão de batata-doce, um dos produtos comercializados na feira. O alimento pode receber diferentes recheios, como frango, castanha, carne moída, presunto e queijo, ampliando as possibilidades de comercialização.

Confira produtos de camponesas acreanas

Ela destaca que a maioria das mulheres possui quintais produtivos com frutas como manga, cupuaçu, banana, acerola e goiaba. A diversidade de produtos derivados dessas culturas ajuda a enriquecer as bancas e ampliar as oportunidades de venda.

Atualmente, a entrevistada integra a coordenação estadual do MMC no Acre e também representa o estado na coordenação nacional do movimento. Seu trabalho está voltado à articulação e ao fortalecimento da organização das mulheres em suas comunidades.

Foto: Arquivo pessoal de Edina Belém

“Os grupos de base estão nos ramais, assentamentos e comunidades rurais. Hoje faço parte da coordenação estadual e da coordenação nacional. Quando participo de eventos como este, venho divulgar o trabalho dessas mulheres e fortalecer suas ações”, afirma.

Ela explica que o movimento possui uma estrutura organizacional composta por coordenações nacional, estadual, municipal e de base. Além da mobilização política, o MMC investe na formação das participantes e na promoção da autonomia financeira das mulheres do campo.

“As mulheres têm uma responsabilidade muito grande na composição da renda familiar. O movimento busca garantir autonomia financeira para elas e também qualificá-las para aproveitar melhor os recursos que possuem”, ressalta.

Além das formações voltadas à organização e aos princípios do movimento, são oferecidos cursos de capacitação em áreas como produção de doces e geleias.

“A universidade pega os engenheiros agrônomos, vão para lá ensinar a mulherada como produzir adubo, insumos e biofertilizantes”, conta Edina.

No Acre, as ações contam com o apoio de instituições parceiras, entre elas a Universidade Federal do Acre (UFAC), o Senac e a Escola Maria Moreira, que também colaboram em programas de qualificação vinculados a iniciativas do Governo Federal.

Por Mayara Mendes e Mateus Péres
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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