Quando Eros Forte, de 25 anos, voltou para casa após uma noite tortuosa com seus amigos, o sentimento de alívio foi grande. Havia sido a primeira vez na vida em que a homofobia o atingira de maneira extremamente violenta.
Durante uma festa aberta e gratuita na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o bloco de humanas da Universidade de São Paulo, a vida do grupo foi para sempre mudada: o crime de ódio os havia atingido de forma física e brutal.

Ele recorda essa marca na vida em uma entrevista por telefone sobre um acontecimento improvável no ensino superior, ambiente marcado pela diversidade e pluralidade.
Marcas
Naquele dia de novembro de 2025, Eros levantou pronto para mais um dia de estágio, faculdade e festa; era uma típica sexta-feira de final de ano.
O dia tinha sido calmo e a ansiedade era para encontrar os amigos no bar “El Kabron”, na Vila Buarque, um lugar tranquilo, rodeado de barzinhos e bastante acolhedor ao público LGBTQIAPN+.
Assim que a aula acabasse, Eros encontraria o grupo para irem juntos à USP de ônibus, um trajeto que, segundo ele, muitas vezes é melhor que as próprias festas.
Como de costume, a ida de ônibus havia sido animada. Estavam esperando que a festa fosse boa, mesmo sabendo que não era um evento voltado especificamente para minorias, mas sim para o público heteronormativo.
“As festas na USP têm maioria desses homens héteros. Como tinha duas festas ao mesmo tempo, uma na FFLCH e uma na FAU, ficávamos indo de uma para a outra”.
Ele avalia que, nas festas no bloco de arquitetura e urbanismo, se sente mais à vontade com mais pessoas se identificarem como LGBT+ do que nos “rolês” de humanas.
Violência no caminho
Entre essas idas e vindas e após “causarem” muito entre si, quando a noite chegava ao fim, a violência interrompeu a diversão. Nando, de 22 anos, estudante de Relações Internacionais e amigo de Eros, estava voltando sozinho por um corredor para encontrá-los quando foi abordado por um rapaz mais alto e esguio.
O agressor começou a tecer comentários odiosos e homofóbicos, provocações chamando-o de “viadinho” e tentando machucar Nando com palavras por sua orientação sexual.
Nando tentava apenas ignorar as ofensas, conforme relata Eros, que acompanhava tudo de uma curta distância e alertava os amigos do que estava acontecendo. De repente, as palavras deram lugar à agressão física.
Pedro, namorado de Nando, saiu disparado em direção ao companheiro que começava a ser espancado. Eros conta que tudo ocorreu muito rápido.
“Em um segundo achávamos que era só mais uma implicância homofóbica, mas quando percebemos o Nando estava apanhando e o Pedro correu para tentar tirar ele de lá”.
Ele continua: “o menino saiu distribuindo socos para todos os lados, acertando o Nando e o Pedro várias vezes. Fomos em cima para apartar quando surgiu um amigo do agressor, e a coisa piorou”.
Sem conseguir conter a briga, que estava muito mais grave para o lado de Nando e Pedro, o grupo ouvia comentários criminosos e termos baixo calão. A situação tomou proporções desesperadoras ao ponto dos namorados serem derrubados pelos agressores.
“Todos que passavam, ninguém nos ajudava. O único menino que passou e falou para pararem estava sozinho, foi ameaçado por eles e seguiu seu caminho de volta à festa”. Ao conseguirem finalmente tirar os meninos da confusão, buscaram os seguranças da festa, que nada fizeram: “falaram que já estava no fim do horário do serviço deles e não podiam nos ajudar”.
Fim de festa
Desamparados e com medo, tentaram fugir da situação o tempo todo, mas o clima da festa já havia evaporado. Nando e Pedro ficaram com muitos ferimentos após o ataque; curiosamente, os agressores focaram apenas neles.
O resto do grupo de amigos de Eros, que é uma pessoa não-binária, era formado em maioria por pessoas trans e NB, que não foram agredidas. Eros reflete sobre isso: “Acho que não fomos agredidos porque não queriam mexer com as ‘travas’”.
No instante em que se sentiram minimamente seguros, achando que tinham se dissipado dos agressores, o grupo aconselhou Pedro e Nando a irem para um hospital. Os dois foram embora de Uber, extremamente assustados e machucados.
Contudo, pouco tempo depois, enquanto os demais decidiam se iam embora de Uber ou ônibus, perceberam que o grupo agressor ainda os seguia de perto e os cercava no ponto de ônibus. Outras pessoas pediram para os agressores irem embora e eles apenas se afastaram, deixando Eros e seus amigos em estado de pânico.
Nesse momento, ligaram para a polícia, que não prestou socorro.
“Ficamos 15 minutos na linha com a policial, que parecia não querer trabalhar ou se preocupar com a gravidade da situação”.
Eros conta que não viu policiamento ostensivo ali, apenas os seguranças da USP e os contratados da festa. Esperaram até o grupo sair de vista para pedirem um transporte até o metrô.
“Fiquei meio paranoico, olhava para trás o tempo todo para ver se não nos seguiam. A ficha só caiu em casa”.
O evento traumático gerou um boletim de ocorrência online e muito sofrimento emocional. “Assim que cheguei em casa desabei, chorei muito. Nunca tinha passado por isso na vida”, confessa Eros.
Ele acrescenta que os amigos ficaram constrangidos: no hospital, não teriam dito que foram agredidos, mas sim que se acidentaram, e o boletim de ocorrência não deu em nada até hoje. O grupo parou de frequentar o campus com a mesma frequência; a sensação de insegurança e o medo de um novo ataque eram constantes.
Mas, como ele mesmo afirma: “o medo não pode vencer minha vontade de viver do jeito que sou”. Eles só voltaram a uma festa agora, em abril de 2026, em um ambiente onde finalmente se sentiam seguros.
Confira histórias de famílias homoafetivas
Por Anna Carolina de Oliveira
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


