Recomeçar é uma estrada de baixa velocidade, feita de pedregulhos, solavancos e buracos. Foi assim que Lisnel de la Fe Aguilar chegou ao Brasil, em 2021, carregando urgência na mala que atravessou a fronteira. Médico cubano, deixou a família na Venezuela sem longas despedidas.
Lisnel, com 47 anos, não teve tempo para a lentidão. O motor da fuga foi a dor pungente da partida e a urgência de um reencontro familiar que parecia, a cada dia, mais distante. A esposa, que ele não via havia quatro anos, e a filha recém-nascida no Brasil eram presenças intocáveis. Ele precisava vê-las.

“Eu estava doido para ver minha filha, mas o governo não deixava. Eu precisava arrumar outra missão médica para a Venezuela. Paguei com o dinheiro da missão anterior para conseguir. Quando consegui, fugi. Minha prioridade era me reunir com minha família”, conta, com uma mistura de dor e alívio.
Com a ajuda de amigos, Lisnel atravessou a fronteira por Pacaraima (RR), no norte do país. Em 21 dias, conseguiu abrir o protocolo de refugiado.
“Foi só abraço e beijo. Comecei a vida do zero. Tudo o que eu tinha ficou para trás. Só trouxe um pouco de dinheiro.”
Do estranhamento diante de uma nova língua à burocracia envolvida em tarefas básicas, como obter informações ou buscar um emprego, a história de Lisnel está longe de ser um caso isolado. É o retrato de milhares de migrantes que atravessam fronteiras e deixam para trás não apenas territórios e casas, mas também fragmentos da própria identidade. Segundo o Relatório de Tendências Globais de 2025, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), mais de 122 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar seus lares em todo o mundo entre refugiados, solicitantes de refúgio e deslocados internos.
Apoio
Na Casa Bom Samaritano, espaço mantido pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), Lisnel encontrou apoio prático e humano. No Brasil, médicos formados no exterior precisam passar pelo Revalida, Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos, criado pelo Ministério da Educação em 2011. O processo avalia se a formação obtida fora do país atende às exigências dos cursos brasileiros e, somente após a aprovação, o profissional pode exercer a medicina legalmente.
A prova teórica, que custava quase R$ 5 mil, era aplicada no Piauí. Com o apoio financeiro da Casa Bom Samaritano, um dos braços de atuação do IMDH, Lisnel conseguiu viajar para realizar o exame e, finalmente, foi aprovado.
“Graças a Deus, passei”, comemora. Mas dificuldades, não se encerraram ali. Para concluir o processo, ainda precisaria se deslocar até Fortaleza, no Ceará, para apostilar o diploma e obter o reconhecimento por uma universidade brasileira. Mais uma vez, contou com o apoio da instituição.
“Eu falei para a Rosita que estava estudando para a revalidação. O Revalida valida meu diploma para que eu possa atuar aqui. Mas era muito caro, e eu já tinha perdido todo o meu dinheiro com a passagem da Venezuela para o Brasil”, relata.
O acolhimento que Lisnel encontrou faz parte de uma rede de solidariedade construída ao longo de décadas em Brasília. À frente desse trabalho está a irmã Rosita Milesi, referência nacional na defesa dos direitos de migrantes e refugiados e diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH).

A atuação começou em 1988, com a criação do Centro de Estudos Migratórios, hoje um dos principais polos de produção de conhecimento sobre mobilidade humana no país, responsável por pesquisas, publicações e pela revista acadêmica REMHU, reconhecida internacionalmente. Nos anos 2000, a congregação ampliou sua presença territorial com a criação da Pastoral do Migrante e do Refugiado, organizada em diversas paróquias do Distrito Federal e aberta a pessoas de qualquer crença.
Atualmente, o IMDH concentra grande parte do atendimento a migrantes e refugiados que chegam a Brasília, oferecendo serviços como regularização documental, orientações jurídicas, elaboração de currículos e encaminhamento para o mercado de trabalho. Um dos principais equipamentos dessa rede é a Casa Bom Samaritano, espaço de acolhida temporária para famílias vindas, sobretudo, de Roraima. Ali, elas permanecem cerca de 90 dias, enquanto recebem suporte para a transição a uma vida autônoma no DF ou no entorno.
“Nosso trabalho é de proximidade e acolhimento, mas os desafios são muitos.” explica Rosita
Entre eles estão a falta de políticas públicas específicas de moradia para migrantes e refugiados no Distrito Federal, as barreiras linguísticas e as dificuldades de inserção no mercado de trabalho, mesmo quando os recém-chegados possuem formação profissional
Segundo a religiosa, o idioma é um dos obstáculos mais urgentes. Embora universidades como a UnB ofereçam cursos de português, muitas pessoas não conseguem frequentar as aulas por falta de recursos básicos, como dinheiro para transporte. Recentemente, a inclusão de migrantes e refugiados nos Centros Interescolares de Línguas (CILs) representou um avanço importante, após anos de reivindicação.
Outro desafio é a sustentabilidade das próprias instituições. “Tivemos cortes significativos no apoio de organismos internacionais. Muitas vezes conseguimos recursos para ações pontuais, mas não para manter equipes”, afirma.
Balcão do refugiado
Nesse cenário de ajuda e solidariedade, surgiu o Balcão do Refugiado, um projeto de extensão universitária que é, ao mesmo tempo, laboratório de aprendizado e espaço de acolhimento humano. Criado em 2021 pelo professor Rafael Spod, o projeto ganhou novo fôlego em julho de 2023, quando a professora e pesquisadora Raquel Boing assumiu sua coordenação propondo a integração entre os cursos universitários participantes e trazendo novas possibilidades de ação.
O Balcão atua hoje em três frentes principais, cada uma delas um reflexo de cuidado, compromisso e prática com o tema e assunto. A primeira frente acontece na Casa Bom Samaritano, no Lago Sul, que é mantida pela Associação de Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI) e pelo Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH). Ali, os venezuelanos acolhidos pelo projeto Federal Acolhida encontram um espaço seguro, onde podem reconstruir suas vidas e se preparar para uma nova jornada em outras cidades brasileiras.
“Nossos alunos ajudam na organização da casa, no cuidado com as crianças, e oferecem suporte à saúde e à educação. Também promovemos momentos de celebração, como atividades na Páscoa e no Dia das Crianças”, conta a professora.
O segundo eixo acontece em São Sebastião, em parceria com o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR) e a Paróquia Cristo Redentor. Os estudantes que participam do projeto já atuam na assistência jurídica, na regularização de documentos e na orientação sobre benefícios e serviços. Paralelamente a esse trabalho, um grupo de mulheres, uma brasileira e onze venezuelanas desenvolvem oficinas de bordado, atividades de empreendedorismo e cuidados com a saúde mental, e participam de feiras e eventos onde colocam em prática os seus talentos e onde conseguem aprimorar.Já o terceiro eixo se desenvolve junto à Defensoria Pública da União (DPU), sob coordenação do defensor público Gusttavus Ortea.
Os alunos auxiliam os refugiados em processos encaminhados ao Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), pesquisam sobre os países de origem dos migrantes e acompanham cada etapa do processo de refúgio. O acompanhamento no processo de refúgio é feito com orientação do projeto, garantindo que os refugiados se sintam efetivamente amparados.

O projeto também oferece oficinas, serviços de elaboração de currículos e da carteira de trabalho, orientações jurídicas, preparação para entrevistas de emprego, integrações comunitárias, além de treinamentos e capacitações, tudo voltado para atender às necessidades e experiências de cada refugiado.
É foi nesse pensamento de fazer com que as pessoas tivessem conhecimentos dos seus direitos que a estudante de Direito Anaila Mizuta da Silva, de 21 anos, encontrou no projeto um espaço onde formação acadêmica e sensibilidade humana caminham lado a lado. Sua primeira atividade no projeto foi com o SJMR, em um curso profissionalizante chamado Empoderando Refugiadas, feito em parceria com a Acnur.
O objetivo era preparar mulheres migrantes e refugiadas para o mercado de trabalho brasileiro, e os voluntários atuam na fase final do processo, elaborando currículos, simulando entrevistas e orientando sobre as expectativas do mercado.
Nós, alunos, ajudávamos na etapa final do processo construindo currículos, simulando entrevistas e orientando sobre as exigências do mercado. Mas, mais do que isso, convivemos com essas mulheres, ouvíamos suas histórias e aprendemos sobre suas dores e esperanças” , relembra
Segundo ela, essa experiência mudou sua visão de mundo. “Vi mulheres extremamente fortes, que deixaram tudo para trás e, mesmo assim, mantêm uma força de vida e um desejo de recomeçar impressionantes”, relata

A vivência levou Anaila a atuar também em outras frentes do Balcão, como os atendimentos gratuitos em São Sebastião, auxiliando migrantes em situação de vulnerabilidade, e nas ações junto à Casa Bom Samaritano, acompanhando famílias em consultas médicas e audiências na DPU.
“O Balcão mostra que o acolhimento não é só um gesto de solidariedade é um ato de justiça. Cada atendimento é uma chance de garantir dignidade, de ajudar alguém a entender seus direitos e se sentir, de fato, pertencente”, afirma.
“Às vezes, tudo o que a pessoa precisa é simplesmente ser ouvida com paciência.” disse a estudante.
Educação
Segundo a Secretaria de Educação do Distrito Federal, atualmente 1.897 estudantes estrangeiros estão matriculados na rede pública do DF. Mais da metade 1.162 são venezuelanos. Mas há também crianças vindas da Colômbia, de Cuba, do Haiti e dos Estados Unidos.
Mais de 60 nacionalidades compartilham o mesmo território. Para algumas dessas crianças, é a primeira vez em uma sala de aula. Nesta reportagem, acompanhamos como, na prática, as escolas públicas do Distrito Federal recebem os filhos de refugiados e conseguem desenvolver um trabalho de qualidade, mesmo diante dos desafios relacionados à língua, à adaptação e à rotina.
E.C Café Sem Troco
A escola parecia mais habituada à presença de refugiados e mais integrada à convivência entre os alunos. Era uma terça-feira, dia de atividade integradora. Alguns ex-alunos retornavam para compartilhar com os estudantes suas trajetórias o que sonharam ser e quem, afinal, se tornaram. Falavam das profissões que exercem hoje, dos caminhos percorridos, dos tropeços e das conquistas. Mas, desta vez, algo se destacou para mim. Desci do carro e atravessei o portão da escola. A visita acontecia dois anos após a minha última passagem pelo Café Sem Troco. Observei que o pátio estava mais cheio.

A escola já não era apenas um espaço de aprendizado. Havia se transformado na família “Cafelândia”. Os pais participavam mais das atividades, integrados à rotina escolar, e os professores conheciam o ritmo, o aprendizado e os processos de cada aluno. Para entender melhor essa transformação, é preciso voltar ao momento em que a escola se tornou tão importante na vida dessas crianças, jovens e adultos.
2023
Era julho de 2023 quando uma nova comunidade chegava ao assentamento Café Sem Troco, a 50 km do centro de Brasília. A comunidade indígena Warao Coromoto, vinda da Venezuela, trazia poucos pertences, mas carregava uma riqueza imensa de memórias. Diante da crise no país, da escassez de alimentos e medicamentos à alta inflação e ao êxodo em massa decidiram reconstruir suas vidas no Brasil. O crescimento expressivo da imigração venezuelana no país dá contexto a essa chegada.

Entre 2010 e 2022, o número de residentes venezuelanos saltou de cerca de 2 mil para aproximadamente 199 mil, o que consolida a Venezuela como a principal origem de imigrantes no Brasil, segundo o Censo Demográfico de 2022.
Hoje, a comunidade indígena que vive no assentamento é formada por 128 pessoas, 31 famílias, e 54 crianças. Desde a chegada deles, a Escola Classe Café Sem Troco tem buscado se adaptar de diferentes maneiras para recebê-los. A diretora, Sheyla Alves Passos, que lidera a escola há sete anos, foi pessoalmente à comunidade para conhecer suas necessidades. Ao chegar, percebeu que a situação exigia mais do que boa vontade. Era necessário romper barreiras institucionais e culturais para construir um espaço realmente acolhedor e inclusivo.

“Me deparei com mais de cem pessoas, entre crianças, jovens e adultos. A maioria nunca havia frequentado uma escola”, relembra Sheyla. “Não podíamos chegar com um currículo pronto. Precisávamos ouvir. Acolher”, conta.
A Secretaria de Educação do DF chegou a sugerir o encaminhamento das crianças para escolas rurais a 26 km dali, mas a comunidade resistiu por já terem criado um vínculo de confiança com Sheyla. A escola então improvisou: transformou o pátio em sala de aula, abriu seis turmas e reduziu o número de vagas para a comunidade local. Faltavam espaço e professores, mas sobrava urgência.
“Foi um desafio explicar que estávamos incluindo, não excluindo”, explica a diretora. “Era preciso fazer escolhas que beneficiassem a todos a longo prazo.”
Muitos alunos estavam desnutridos. Alguns tinham necessidades educacionais especiais, outros não falavam qualquer um dos idiomas da escola. Para Sheyla, a resposta exigia mais do que adaptação pedagógica:
“Eles não são apenas alunos. São indígenas, refugiados e, em muitos casos, pessoas com necessidades educacionais especiais. Precisam de um olhar totalmente diferenciado.”
Antes do início das aulas, a escola convidou as famílias para conhecerem o espaço. A reação foi comovente:
“Os pais e as crianças olhavam tudo como se estivessem entrando num lugar mágico. Parecia que estavam no céu. Era como levar uma criança a um parque de diversões pela primeira vez.”
Divisor de águas
Nessa história, com a chegada da comunidade, os improvisos, descobertas e urgências entraram em cena os professores. Entre eles, estava Maria Janejandra Fogassa Bispo Pereira, que em 2023 assumiu uma das turmas mistas. Para ela, a experiência foi um verdadeiro divisor de águas. Logo na primeira aula, percebeu que o desafio era muito maior do que havia imaginado.
Contratada para ensinar uma turma de indígenas venezuelanos, Maria Janejandra Fogassa Bispo Pereira foi avisada de que muitos nunca haviam frequentado a escola. Mas antes, ela havia preparado uma aula dinâmica, pensando em um grupo homogêneo. Mas, ao chegar, encontrou uma realidade inesperada: crianças e adolescentes de 4 a 17 anos, em níveis completamente distintos.
“Percebi que ensinar uma criança de seis anos é diferente de ensinar alguém de dezessete”, conta. “Nos primeiros dias, eu pulava, dançava, fazia dinâmicas. Os pequenos adoravam, mas os maiores me olhavam com vergonha e estranhamento.”
Foi preciso ajustar a metodologia. O mesmo conteúdo mas atividades diferentes para as faixas etárias. Os alunos mais velhos, já com alguma base linguística, aprendiam fonética com mais facilidade. Os pequenos exigiam outro ritmo, outra abordagem, outro tempo.
Um dos objetivos da escola foi distribuir os estudantes entre as séries regulares, já que a maioria nunca havia frequentado uma sala de aula. A solução foi começar aos poucos com uma turma mista e básica.
“A cada dia, eu aprendia mais com eles do que eles comigo. A escola deixou de ser um lugar de ensinar para virar um espaço de escuta mútua”, conta Maria.

Apesar dos obstáculos, Maria fala com carinho do que aprendeu com os alunos. A experiência não foi apenas pedagógica, foi humana. Em muitos dias, lembra, saiu da escola em lágrimas.
“Saio daqui chorando muitas vezes”, confessa, com a voz embargada.
A professora se emocionou ao lembrar de um episódio. Durante o momento do almoço, um dos alunos começou a chorar. Ao conversar com ele, entendeu a razão. A irmã do menino havia falecido de desnutrição em Pacaraima (RR). A memória da fome atravessou aquele momento de uma simples refeição. Ainda assim, a professora vê neles algo que a surpreende todos os dias.
“Eles carregam uma dor enorme, mas, ao mesmo tempo, são leves. É isso que me transforma. Sou outra profissional depois de conviver com eles. Aprendi a valorizar tudo.”

E.C Morro da Cruz
A cena se repete em diferentes cantos da cidade, mas, no alto do Morro da Cruz, em São Sebastião, ela ganhou contornos próprios. Era março de 2023, e uma escola nova abriu seus portões para crianças de quatro a onze anos. Ali chegaram os filhos da comunidade local, mas também rostos que atravessaram longas fronteiras. Entre eles, 60 crianças do povo Warao, indígenas da Venezuela, que carregam algumas memórias de terras distantes e viagens repletas de desafios.
A escola, situada na região administrativa de São Sebastião, integra o Complexo Educacional Zumbi dos Palmares, na Área Especial nº 1, Chácara 3, Núcleo Rural Capão Comprido, a cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília. O acesso se dá principalmente pela BR-251, que liga a região ao coração da capital.

A Escola Classe Morro da Cruz atende crianças de 4 a 11 anos e tem capacidade para 216 estudantes. Atualmente, funciona no mesmo prédio do Centro Interescolar de Línguas (CIL) de São Sebastião, enquanto a obra definitiva não recebe licitação.
Dois anos se passaram desde a chegada dos primeiros alunos Warao. Nesse tempo, a equipe aprendeu a decifrar palavras em outra língua, interpretar gestos e silêncios, e compreendeu que ensinar também é um ato de escuta.

A equipe gestora sabia que o trabalho seria intenso, mas hoje percebe que, apesar dos desafios, estão preparados. Preparados para aprender tanto quanto ensinar, e para transformar aquela escola em um lugar onde cada criança se reconhece e pertence.
“Hoje podemos dizer que nos sentimos mais preparados não porque houve um curso, mas porque aprendemos todos os dias com eles” resume Neli Delduca, diretora da Escola Classe Morro da Cruz.
A diretora Neli, ao ser perguntada se a chegada dos alunos Warao havia transformado a escola, sorriu antes de responder
“Com certeza. Receber esses estudantes nos deu a chance de aprender ainda mais. Hoje, posso dizer que nossa escola é a personificação viva da diversidade cultural da nossa comunidade”
Suporte
Se o espaço físico reduzido limita o desenvolvimento da Escola Morro da Cruz, a rede de apoio que se forma ao seu redor garante que as crianças não caminhem sozinhas. Nesse esforço, a Cáritas Arquidiocesana de Brasília tornou-se uma parceira da escola. Ligada à Igreja Católica, a instituição atua diretamente no cotidiano da escola, e oferece não apenas suporte pedagógico, mas também uma presença constante junto às famílias e à comunidade.
A Cáritas Arquidiocesana de Brasília atua junto aos refugiados oferecendo apoio que vai além do acolhimento imediato. A instituição distribui alimentos, roupas e itens de higiene, além de fornecer assistência básica de saúde. Também oferece acompanhamento psicossocial, ajudando os refugiados a lidar com traumas e desafios emocionais decorrentes do deslocamento. Para facilitar a integração social, a Cáritas auxilia no acesso a serviços públicos, moradia e atividades comunitárias, promovendo a participação na vida local.

Além disso, a Cáritas presta orientação legal sobre documentação e direitos, e desenvolve programas de educação e capacitação, como cursos de idioma, profissionalizantes e apoio escolar para crianças e jovens.
Atualmente, acompanha 69 crianças de 0 a 11 anos, pertencentes a 44 famílias, totalizando 185 acolhidos. Entre eles estão três idosos, duas pessoas com deficiência e uma criança de 9 anos em tratamento oncológico.
Entre suas ações mais recorrentes estão o acompanhamento pedagógico dos alunos, a participação em reuniões de pais e mestres e visitas sempre que a escola solicita orientações ou esclarecimentos. A Cáritas também colabora de forma prática: busca crianças antes do término das aulas quando necessário e apoia professores e a direção em iniciativas voltadas ao bem-estar coletivo.
A Cáritas teve importância na história da Amarilis Carolina Fuentes Fernandez, de 30 anos, que deixou a Venezuela em busca de novas possibilidades. Sua viagem até o Brasil foi de ônibus e durou três dias. Grávida de oito meses, enfrentou o choque do idioma já nas primeiras consultas médicas.
“Quando o médico me falava, eu não entendia”, relembra Amarilis. Os primeiros meses no Brasil foram de adaptação difícil, mas também de acolhimento. O apoio da Cáritas chegou em um momento decisivo, quando ela precisava organizar a vida, aprender português e conseguir emprego.
“Foi uma recepção muito boa, todo mundo foi muito acolhedor. O brasileiro dá muita ajuda, e a Cáritas me apoiou. No início foi difícil aprender português, mas consegui emprego, fiz amigos e me senti realmente acolhida”, conta.
De acordo com a instituição, há ainda projetos voltados especificamente para estudantes imigrantes e indígenas, como a parceria com o CIEE, que abre portas para formação e inserção no mercado de trabalho, o reforço escolar para acompanhar o desenvolvimento de cada criança e aulas de informática, que ampliam horizontes em meio à escassez de recursos.
Amarilis nove anos depois, no Brasil, soma algumas conquistas, como a casa própria, a educação das filhas e o sonho realizado de abrir o próprio negócio.
Sobre a saudade? Ela diz que sente falta da comida típica e do pai, que ficou na Venezuela, mas enxerga no Brasil a chance de construir uma vida digna. Outro ponto central é o acompanhamento das famílias, sobretudo em situações de barreiras linguísticas e culturais.A Cáritas promove também cursos de português voltados para o cotidiano, organiza eventos de troca em que os educadores se aproximam da língua materna das famílias e, ao mesmo tempo, ensinam o português.

Ao longo do caminho, são os gestos de solidariedade que continuam a organizar a travessia. É nesse território invisível, tecido diariamente por redes de apoio e cuidado, que vidas seguem sendo reconstruídas.
Essas histórias fazem parte do livro-reportagem “Caminhos de acolhimento: Entre desafios e esperança, recomeçar exige coragem, resiliência e acolhimento
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Por Mayara Mendes
Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira


