Apesar de polêmica, a medida tem o objetivo de diminuir preconceito racial e quebrar obstáculos para estudantes.
“É uma possibilidade.” É assim que João Vitor de Almeida, estudante de engenharia florestal vê o sistema de cotas raciais implantados nas universidades do país. Foi depois de entrar por cotas, e de se perguntar quando era questionado pelos outros, que João entendeu o real motivo de o sistema ainda estar funcionando: é oportunidade e mudança na integração dos alunos negros dentro das universidades. “As pessoas têm que tentar enxergar a justificativa por trás de tudo isso.”, afirma.
A relação de nomes dos estudantes que passaram pelo sistema fica seguro com a secretaria, e nenhum outro aluno ou professor pode ter acesso a isso, o que é melhor na opinião de João Vitor, que acredita que os professores tratariam os alunos de um jeito diferente. “Têm horas que eu nem me lembro que passei por cotas. Mas de certa forma, se fosse divulgado, pensando no âmbito geral, aconteceria sim [tratamento diferenciado]”, comenta.
Confira a entrevista com João Vitor Almeida
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Para a professora Débora Diniz, doutora em antropologia, a sociedade ainda tem uma relutância em aceitar as cotas porque não se identificam com o problema de desigualdade do país. “O acesso à educação é uma questão coletiva. E é por meio da educação que as pessoas alcançam a mobilidade social”, afirma.
Além disso, a professora garante que o sistema não é uma reafirmação do racismo, como muitos alunos contra o projeto costumam argumentar. Ela considera que o sistema não é sobre capacidade, mas oportunidades. “A questão é que a trajetória da população negra não é a mesma da branca. E o preconceito aumenta mais ainda os obstáculos para a ascensão de quem foi e é negligenciado diuturnamente”, afirma.
No Distrito Federal, onde foi o primeiro lugar do país a implementar o sistema de cotas raciais, o objetivo é que em 2016, 50% das vagas sejam direcionadas aos alunos de escolas públicas, 45% sistema universal, e 5% para os alunos de cotas raciais. Atualmente, 5% das vagas já contemplam as cotas raciais, uma diminuição em comparação com o ano de 2013, na qual eram reservadas 20% das vagas.
De acordo com a assessoria da Universidade de Brasília, os números refletem o cálculo de declaração de cor. Até 2014, 198.072 pessoas se declararam negras no DF. Somando com os que se declararam pardos e indígenas, somam 56% da população.
Ainda para a professora, as cotas são necessárias como forma de justiça social, contemplam a diversidade do país, e os fortalecem para o enfrentamento do preconceito. “Deve ser estranho ver alunos negros nos cursos de direito ou medicina. Para nós, isso já não é mais estranho, é uma realidade. E vamos chegar em um ponto onde não haverá mais estranhamento sobre ser atendido em um hospital por uma média negra, por exemplo”, afirma.
Em contraponto, o cientista político Paulo Kramer, o sistema não é tão simples e eficaz assim. Ele acredita que a política pública não deveria premiar alguém por causa da cor de sua pele, já que qualquer aluno é capaz de passar no sistema universal. “Você premiar ou punir um indivíduo porque ela pertence a um grupo com características comuns que estão fora do controle, eu não acho justo”, afirma.
Por acreditar que a grande duração do programa é um atestado de sua incompetência, Kramer também considera que os professores podem tender, alguns inconscientemente outros conscientemente, a diminuir o nível de exigência daqueles alunos que acham mais frágeis, afim de não abaixar mais a autoestima do estudante. “O ingresso dos cotistas leva a uma flexibilização, no mau sentido, dos sistemas de avaliação dos alunos”, afirma.
Para Kramer, além da acomodação, o sistema pode gerar uma série de consequências negativas, inclusive preconceito profissional. “Imagine que você entra em um consultório, o médico é negro e passa pela sua cabeça o seguinte pensamento: ‘esse é da cota’”, analisa. Confira a entrevista a seguir:
A estudante de engenharia elétrica, Ana Letícia Silva, que também passou pelo sistema de cotas, acredita que apesar de que em alguns cursos a concorrência ser menor, isso não diminui o nível de conhecimento das pessoas que estão prestando vestibular. Apesar de não ter se arrependido e ter a consciência de que faria novamente se fosse preciso, Ana considera que o as cotas já são ultrapassadas quando falam sobre integração dos negros nas universidades. “Hoje em dia você já consegue enxergar que não existe uma diferença muito grande no número de pessoas negras e brancas na universidade.Meu curso é bem mesclado”, afirma.
A Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira instituição de ensino no Brasil a adotar o sistema de cotas raciais, em junho de 2004. A partir daí, o número de universidades que adotam a medida aumentou. Em 2012, mais de 40% das universidades já haviam aderido a ideia de que essa atitude era uma forma de acabar com a desigualdade racial dentro das universidades.
Em algumas instituições, a estratégia não beneficia apenas alunos negros, mas também pardos e indígenas. Para concorrer é necessário a autodeclaração de raça, e uma entrevista a ser feita com o concorrente. Esse é um dos pontos de maior discordância pois o critério de escolha é subjetivo. Além do que está previsto na Lei, as universidades também possuem autonomia para implementar outras ações que ajudem o ingresso de outras classes no ensino superior.
Por Deborah Fortuna
Foto: UnB/Divulgação