Na movimentada Esplanada dos Ministérios, em meio a turistas, servidores públicos e manifestações políticas, uma série de barracas coloridas resiste ao tempo.
Há quatro décadas, o artesão Vidal Raimundo Oliveira, de 65 anos, transforma flores secas do Cerrado em fonte de renda, preservação cultural e sustento familiar.

Natural do Ceará, Vidal chegou à capital federal em 1978, quando Brasília ainda crescia entre obras e ruas em construção.
Mas foi apenas em 1986 que começou a trabalhar na barraca de flores secas na Esplanada, lugar onde permanece até hoje.
Vidal representa uma realidade comum a milhares de pequenos empreendedores brasileiros: a construção de uma atividade econômica baseada no conhecimento tradicional, na criatividade e na capacidade de adaptação.
A rotina começa cedo. Todos os dias, o artesão percorre o caminho entre Jardim Ingá, em Luziânia (GO), e o centro de Brasília para abrir sua barraca.
O trabalho começa antes mesmo da chegada dos clientes. As flores secas coletadas no Cerrado passam por um processo artesanal de pintura e montagem que transforma elementos naturais em arranjos decorativos, lembranças e buquês para ocasiões especiais.
O material com que trabalha vem diretamente da natureza. As flores e plantas são retiradas do Cerrado por outras pessoas, sem cultivo ou plantação.
“Isso aqui não é nada plantado, nada cultivado, não. É a natureza mesmo”, explica.

Entre os produtos mais procurados estão os buquês de noiva. Vidal conta que muitas mulheres procuram a barraca justamente pela durabilidade das flores secas.
“A vantagem é que esse material aqui não estraga. O pessoal faz os buquês e pode deixar guardado por muitos anos”, diz.
Mas manter um pequeno negócio por tanto tempo exige persistência. Nem todos os dias terminam com vendas.
“Tem dia que não vende nada. Mas um dia pelo outro a gente vai levando”, conta.
A trajetória de Vidal também reflete a importância dos pequenos empreendimentos para a economia local. A atividade surgiu dentro da própria família, quando um tio começou a trabalhar com flores secas na Esplanada e abriu caminho para que outros parentes encontrassem no artesanato uma oportunidade de geração de renda.
Segundo Vidal, um tio trabalhava no local e abriu caminho para que outros parentes também passassem a viver do artesanato com flores secas. Com o passar dos anos, muitos deixaram a atividade, mas ele permaneceu.

Hoje, aos 65 anos, Vidal segue ocupando o mesmo espaço, transformando elementos simples do Cerrado em peças carregadas de memória, tradição e resistência.
Entre cores, memórias e arranjos feitos à mão, a barraca de Vidal revela uma face muitas vezes invisível da economia brasileira: a dos pequenos empreendedores que transformam conhecimento tradicional em sustento, resistência e desenvolvimento territorial.
Por Catherine Machado
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira e Lourenço Cardoso


