Quando subiu os 20 degraus até a sala de costura do Instituto Corrente do Bem pela primeira vez, a professora Adenilva Silva de Souza, 44 anos, não imaginava que o espaço mudaria completamente sua rotina. Baiana, mãe de dois filhos e moradora de Brasília desde a adolescência, ela encontrou na costura uma alternativa de trabalho, acolhimento e recomeço.

Hoje, Adenilva é professora do curso de costura intermediária da instituição, localizada no Sol Nascente, região administrativa do Distrito Federal conhecida por concentrar uma das maiores comunidades periféricas do país.
Entre moldes, linhas e tecidos, ela ensina outras mulheres a produzir roupas e, ao mesmo tempo, reconstruir a autoestima.“Eu penso assim: se eu não tivesse entrado aqui, às vezes eu paro para pensar o que eu estaria fazendo”, afirma.
Antes de chegar ao Instituto, Adenilva trabalhou como caixa de supermercado, atendente, doméstica e em casas de show. Depois de enfrentar crises de ansiedade e depressão, passou a frequentar o curso de costura como aluna. Cerca de um ano e meio depois, tornou-se professora.

Aprender para ensinar
A sala de costura faz parte da rotina de Adenilva há anos. O que começou como uma oportunidade de aprender uma nova habilidade acabou se transformando em uma responsabilidade que ela carrega com orgulho: ensinar outras mulheres.
Ao acompanhar as turmas, ela reconhece em muitas alunas histórias parecidas com a sua. Mulheres que chegam tímidas, inseguras ou desacreditadas da própria capacidade e que, aos poucos, passam a se sentir mais confiantes. É justamente essa transformação que mais a emociona.
Para Adenilva, a costura não é apenas uma técnica. Ela observa que, conforme as alunas aprendem a produzir uma peça, também passam a acreditar mais em si mesmas. Muitas chegam sem nunca ter utilizado uma máquina de costura e, meses depois, conseguem criar roupas completas com as próprias mãos.
Entre uma aula e outra, ela também se tornou uma espécie de conselheira. Escuta histórias, acompanha dificuldades e celebra conquistas que muitas vezes passam despercebidas para quem está de fora. Cada peça pronta representa mais do que um vestido ou uma roupa infantil.
Representa o resultado de um processo de aprendizado que envolve paciência, persistência e confiança.”A gente vê que elas começam a acreditar que conseguem fazer outras coisas também”, resume.
O curso integra as atividades do Instituto Corrente do Bem, organização que atua há 16 anos no Sol Nascente. Inicialmente voltada para ações assistenciais, como distribuição de cestas básicas, a entidade passou, há cerca de quatro anos, a investir em cursos profissionalizantes e projetos educacionais.
Além de lecionar, Adenilva produz vestidos, shorts e camisas em casa. Ela e as alunas planejam abrir uma loja virtual para vender as peças confeccionadas.

Entre acolher e transformar
Segundo a coordenadora da iniciativa, Adriana de Pádua Queiroz, a mudança aconteceu após a percepção de que a assistência imediata não era suficiente para transformar a realidade das famílias atendidas.“Receber cesta básica ajuda naquele momento, mas não muda a vida delas. A costura veio justamente para gerar autonomia”, explica.
De acordo com Adriana, muitas mulheres atendidas pela instituição não conseguem trabalhar fora de casa porque precisam cuidar dos filhos, enfrentam dificuldades financeiras ou vivem situações de vulnerabilidade emocional e familiar.“Pensamos em algo que elas pudessem fazer dentro de casa, que ajudasse na renda e também na autoestima”, diz.
Atualmente, o curso de corte e costura funciona duas vezes por semana, dividido entre turmas iniciantes, intermediárias e avançadas. As aulas acontecem em um mezanino simples, onde máquinas de costura dividem espaço com tecidos, moldes e peças em produção.
O ambiente funciona em uma rua de asfalto irregular do Sol Nascente, cercada por pequenos comércios, casas geminadas e crianças brincando na praça próxima. O som contínuo das máquinas se mistura às conversas das alunas e às orientações da professora.
As máquinas utilizadas nas aulas foram obtidas por doações. Hoje, o Instituto conta com sete equipamentos em funcionamento. A manutenção do espaço também depende de doadores e pequenos parceiros.As alunas começam aprendendo costura reta e manuseio básico das máquinas. Depois, avançam para modelagem, corte e confecção de roupas completas.
No ano passado, o Instituto promoveu o primeiro desfile com peças produzidas pelas próprias participantes. Para este ano, a proposta é ampliar o projeto e incentivar a venda das roupas pela internet.“Queremos ensinar não só a costurar, mas também o empreendedorismo, como vender online e divulgar o trabalho delas”, afirma Adriana.
Em outra máquina, Darilene concentra o olhar em cada ponto do tecido. Natural da Bahia, ela interrompeu os estudos aos 13 anos após ser retirada da escola pelo pai. Casou cedo, enfrentou relacionamentos difíceis e trabalhou durante anos para conseguir concluir a faculdade de Pedagogia.

Um futuro alinhavado aos poucos
Para Darilene da Silva Santos, a costura trouxe algo que vai além da possibilidade de renda: trouxe perspectiva. Em uma comunidade marcada por desafios sociais e econômicos, imaginar novos caminhos nem sempre é simples. Por isso, cada aula representa uma oportunidade de construir planos concretos para o futuro.
Ela gosta do ambiente coletivo criado dentro do Instituto. Enquanto trabalha em uma peça, troca experiências com outras mulheres, compartilha dificuldades e aprende com histórias que se cruzam dentro da sala. O espaço acaba funcionando como uma rede de apoio informal, onde cada uma ajuda a outra a continuar.
A rotina de produção exige atenção aos detalhes. Medidas, cortes, acabamentos e correções fazem parte do processo. O trabalho demanda tempo e paciência, mas também traz uma sensação de realização quando a peça finalmente fica pronta.
Nos desfiles organizados pelo Instituto, Darilene viu de perto o resultado desse esforço coletivo. As roupas apresentadas na passarela foram produzidas pelas próprias alunas, que acompanharam todas as etapas do processo, desde a criação dos moldes até os acabamentos finais.
Ver as peças prontas e sendo usadas por outras pessoas reforçou a sensação de que o aprendizado pode abrir novas possibilidades profissionais.Mais do que uma atividade manual, a costura se tornou uma ferramenta para imaginar novos projetos de vida.
Mesmo formada, não conseguiu se identificar com a profissão. Mais tarde, passou a enfrentar crises de ansiedade e depressão após a mãe sofrer um AVC.Foi no curso de costura que encontrou uma nova rotina.“Você pega um tecido e cria algo. Naquele momento você esquece tudo o que está lá fora”, conta. “Eu fui saindo daquele mundo depressivo e voltando a conviver com as pessoas.”
Darilene já vendeu algumas peças produzidas no curso e pretende continuar costurando. Neste ano, participa novamente da produção das roupas para o desfile do Instituto.
As histórias das alunas refletem o impacto observado pela coordenação do projeto. Segundo Adriana, muitas mulheres chegam ao curso enfrentando depressão, violência doméstica, abandono e baixa autoestima.
“O que a gente vê é que elas voltam a viver”, afirma.
“Quando começam a aprender, fazer amizades e perceber que conseguem produzir algo bonito, isso muda dentro delas e muda também a família inteira.”
Entre as participantes está também Edilene Alves Dourado, 41 anos, hoje recepcionista do Instituto. Ela começou como aluna das primeiras turmas de costura e decidiu retornar às aulas neste ano.
Piauiense e mãe de dois filhos, Edilene enfrenta crises severas de ansiedade e depressão. Ela relata já ter tentado suicídio três vezes.“A costura virou uma terapia pra mim”, afirma. “Quando você está ali focada, você não pensa nas coisas ruins.”

Um dia de cada vez
A trajetória de Edilene é marcada por desafios que ultrapassam as dificuldades financeiras. Nos últimos anos, ela passou a enfrentar crises de ansiedade e depressão que mudaram completamente sua rotina e afetaram toda a dinâmica familiar.
Durante muito tempo, ela foi a pessoa responsável por cuidar da casa e dos filhos. Com o agravamento dos problemas emocionais, a situação se inverteu. O marido e os filhos passaram a assumir um papel mais ativo nos cuidados diários, uma mudança que ela descreve como difícil de aceitar.
Edilene conta que uma das partes mais dolorosas do processo é lidar com a incompreensão das pessoas. Segundo ela, quem nunca passou por situações semelhantes nem sempre entende a dimensão do sofrimento causado pela depressão e pela ansiedade. Muitas vezes, o julgamento vem antes da escuta.
Foi nesse contexto que o Instituto passou a ocupar um papel importante em sua vida. Estar em contato com outras pessoas, participar das atividades e manter uma rotina fora de casa ajudou a reduzir o isolamento que costuma acompanhar os períodos mais difíceis.
Ela fala sobre a costura como quem descreve um momento de pausa. Enquanto está concentrada em uma peça, sua atenção se volta para os tecidos, as medidas e os pontos da máquina. Por algumas horas, os pensamentos que costumam acompanhá-la perdem espaço para uma tarefa concreta.
Hoje, Edilene prefere olhar para frente. Entre seus maiores desejos estão concluir a construção da casa da família e acompanhar o crescimento dos filhos. São metas simples, mas que representam muito para quem aprendeu a valorizar cada pequena conquista ao longo do caminho.
Além de trabalhar na recepção da instituição, Edilene utiliza as aulas como parte do processo de recuperação emocional.“Eles falam pra gente que não querem que a gente fique parada aqui. Querem que a gente cresça”, diz.
No Instituto Corrente do Bem, a costura vai além do aprendizado técnico. Em uma região marcada por dificuldades sociais, as aulas se transformaram em espaço de convivência, geração de renda e reconstrução pessoal.
No fim da tarde, enquanto as máquinas desaceleram e as últimas peças são guardadas, as conversas continuam pela escada e pela porta do Instituto. Entre uma linha e outra, o que se costura ali vai além das roupas.

Costurando futuros
No Sol Nascente, a transformação acontece de forma silenciosa. Entre máquinas de costura, moldes e conversas compartilhadas, mulheres redescobrem a própria capacidade de produzir, aprender e seguir em frente. A proposta do Instituto Corrente do Bem vai além do ensino técnico: a organização busca estimular autonomia, empreendedorismo e mudança de perspectiva, incentivando as alunas a enxergarem possibilidades que ultrapassam os limites da sala de aula.
Hoje, além da costura, a entidade oferece cursos de informática, musicalização, crochê e reforço escolar, mantendo a educação como principal ferramenta de transformação social. A instituição também pretende ampliar o apoio às costureiras com ações voltadas ao empreendedorismo e às vendas pela internet, fortalecendo oportunidades de geração de renda dentro da própria comunidade.
Por Manuela Bonorino (texto e fotos)
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


