Guia de comunicação sobre feminicídios aponta diretrizes para coberturas; confira aqui o documento

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A cobertura jornalística de casos de feminicídio exige que os profissionais da notícia adotem conduta mais responsável e ética para que exista um efeito adequado para a sociedade. Esse é um dos argumentos da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF) para criação do “Guia de Comunicação sobre Feminicídios no Distrito Federal”.

A ideia é evitar a revitimização de mulheres e padronizar o tratamento de dados de crimes de gênero na capital. Entre março de 2015 a abril de 2026, foram 241 feminicídios consumados.

Confira aqui o guia

A cartilha, realizada em parceria com o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e a Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF), aponta diretrizes para uma cobertura responsável.

Foto: Mariana Mazzaro/Agência de notícias UniCeub


A cartilha detalha, por exemplo, termos técnicos jurídicos, proíbe a exposição de fotos das vítimas e orienta a divulgação obrigatória dos canais de denúncia, como o Disque 180.

Longe de ser apenas um relato de fatos, o documento mostra que a narrativa midiática possui um impacto real e mensurável no comportamento social, podendo atuar como um gatilho para novos crimes (o efeito copycat) ou como uma ferramenta essencial de prevenção e acolhimento (o efeito papageno).

Termos inadequados

Além disso, um dos principais pontos abordados no documento é a necessidade de abandonar expressões frequentemente utilizadas na cobertura policial, como “crime passional”, “morte por amor”, “tragédia familiar” ou “ataque de ciúmes”.

Segundo o guia, essas expressões minimizam a responsabilidade do agressor e podem transmitir a falsa ideia de que o crime foi motivado por sentimentos ou circunstâncias excepcionais. A orientação é utilizar a terminologia correta e contextualizar os casos dentro da realidade da violência de gênero.

A publicação alerta para a importância de não associar o feminicídio ao comportamento da vítima. Informações sobre roupas, relacionamentos, rotina, vida sexual ou postagens em redes sociais não devem ser apresentadas de forma que sugiram qualquer justificativa para a violência sofrida.

O guia enfatiza que a responsabilidade pelo crime é exclusivamente do agressor e que a cobertura deve evitar insinuações capazes de transferir culpa à mulher assassinada.

Outro tema tratado pelo documento é a humanização das reportagens. A recomendação é que as mulheres não sejam reduzidas apenas à condição de vítimas, mas retratadas como pessoas que tinham histórias, sonhos, profissão, família e projetos de vida.

O guia também orienta jornalistas a adotarem uma postura respeitosa com familiares e amigos, especialmente em momentos de luto, evitando abordagens invasivas e entrevistas que possam aumentar o sofrimento das pessoas próximas.

Uso de imagens

A publicação dedica atenção especial ao uso de imagens e detalhes sobre os crimes. Entre as recomendações estão evitar a divulgação de fotografias de corpos, cenas de violência, vídeos chocantes e descrições excessivamente detalhadas sobre a forma como o feminicídio ocorreu.

De acordo com o documento, a exploração de elementos violentos pode banalizar a tragédia, gerar sofrimento adicional para familiares e comprometer a função informativa do jornalismo.

O guia também destaca a necessidade de preservar a identidade de crianças e adolescentes que perderam mães em decorrência do feminicídio. A orientação é não divulgar informações, imagens ou dados que possam expor os órfãos da violência doméstica e familiar.

Divulgação de canais de apoio

Além de informar sobre os crimes, a publicação recomenda que as reportagens incluam informações sobre os serviços de proteção às mulheres. A medida busca transformar a comunicação em uma ferramenta de prevenção e acolhimento.

Entre os canais que podem ser divulgados estão o Ligue 180, as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam), a Polícia Militar, a Polícia Civil e os serviços da rede de proteção disponíveis no Distrito Federal.

Foto: Mariana Mazzaro/ Agência de notícias UniCeub 

O documento inédito será distribuído aos profissionais de imprensa para padronizar o tratamento de dados de crimes de gênero na capital.

Feminicídio não é evento isolado

Um dos principais erros apontados no guia é a tendência de noticiar o feminicídio como uma “tragédia familiar inesperada” ou um ato impulsivo.

A realidade dos juizados especializados demonstra o oposto: o crime é o ápice de um ciclo contínuo de abusos. No último ano, o Distrito Federal registrou 23 mil ocorrências de violência contra a mulher, evidenciando uma demanda imensa e estrutural.

No lançamento do documento, a juíza Fabriziane Zapata ressalta que as agressões quase sempre deixam rastros antes do desfecho fatal

“O feminicídio não é um evento isolado. Isso é muito sério, porque (…) é sempre noticiado algo comum: uma tragédia familiar, algo inesperado aconteceu (…). Só que não, não aconteceu de repente. Há sinais. Tecnicamente, nós chamamos isso de fatores de risco”,relata.

A magistrada aponta que a sociedade frequentemente inverte os papéis, culpabilizando a vítima por permanecer no relacionamento violento, sem compreender as barreiras invisíveis que enfrentam — barreiras que existem inclusive para mulheres em posições de alto poder aquisitivo ou intelectual.

“Vamos tratar o feminicídio como um problema estrutural. Ele é fruto da violência de gênero, ele é fruto da desigualdade absurda que existe entre homens e mulheres na nossa sociedade”, comentou.

O Efeito Copycat


A forma como um crime é divulgado pode atuar de maneira contagiosa na mente de potenciais agressores. Estudos criminológicos associados ao desenvolvimento do guia analisaram dados oficiais e identificaram uma tendência alarmante: um aumento médio de 13,45% nas tentativas de feminicídio nos três meses subsequentes aos picos de casos consumados amplamente divulgados.

O coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios, Marcelo Zago Gomes Ferreira, explica que a exposição massiva e o detalhamento dos métodos alimentam o chamado efeito copycat (imitação de crimes):

“O crime é um fenômeno contagioso, baseado na observação e na repetição de padrões (…). Não raras vezes, existe uma exposição ideológica massiva e o detalhamento desse método. Esse é o grande problema. Às vezes, também acontece uma questão de normalização disso tudo que está acontecendo. Isso, de certa forma, retira a responsabilidade do autor.”


Zago cita casos históricos internacionais e nacionais, como massacres escolares e o emblemático caso da Wanda Taddei  na Argentina — onde os ataques contra mulheres utilizando fogo saltaram de 6 para 29 por ano após a repercussão midiática do crime cometido por um músico famoso. O perfil narcisista de determinados agressores busca justamente o “palco” e a notoriedade oferecidos pelas manchetes sensacionalistas.


O Efeito Papageno como Caminho

Para quebrar essa corrente de violência, o guia propõe que os jornalistas abandonem o foco nos detalhes sórdidos — que apenas chocam, mas não informam — e evitem termos que romantizam o agressor, como “tomado de paixão” ou “louco por amor”.

A alternativa ética e transformadora é a aplicação do efeito papageno. Inspirado na personagem da ópera A Flauta Mágica, de Mozart, o termo define a capacidade da mídia de reduzir riscos sociais ao focar em soluções, redes de apoio e nas consequências legais para o criminoso.

Marcelo Zago enfatiza que é necessário para a imprensa trazer a notícia, mas com outro foco: na consequência legal do crime, divulgação de condenações, responsabilização, histórias de superação einformações da rede de apoio.

” Existem inúmeras pessoas que estão lendo aquilo que vocês escrevem (…). A imprensa entra na casa das pessoas todos os dias”, comenta.

A juíza Fabriziane Zapata reforça também que a inclusão de canais de denúncia e serviços de acolhimento psicossocial ao final das reportagens é um divisor de águas, pois cerca de 70% das vítimas de feminicídio não possuíam ocorrências policiais anteriores registradas contra o autor.

“Armas e cena do crime são detalhes que não informam. Chocam. Nós temos o poder de mudar isso aqui. A imprensa não é coadjuvante disso, ela é protagonista”,disse.

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Por Mariana Mazzaro 

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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