Patrícia: a cigana que lê destinos na rodoviária, mas evita deixar rastros

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As saias bordadas e coloridas me chamam a atenção assim que termino de atravessar o Conjunto Nacional, rumo à plataforma superior da rodoviária do Plano Piloto. Uma delas olha para mim e faz um sinal com a mão, como se dissesse “vem cá”. Eu paro. Estava diante de uma cigana.

Foto: Ministério da Igualdade Racial/Divulgação

Ela se aproxima e pede para falar rapidamente comigo, e eu deixo. Logo pega na minha mão, passa o dedo indicador pela minha palma e começa a falar – de forma quase frenética – sobre vários pontos da minha vida: como sou brilhante, minhas dificuldades no amor e como devo me blindar da inveja no ambiente de trabalho. Confusa, agradeço a mensagem e pergunto seu nome.

Patrícia Ramos, 41 anos, apresenta-se como cigana, natural de Salvador (BA). A cigana mora hoje no Núcleo Bandeirante e vai diariamente à rodoviária abordar homens e mulheres que passam, apressados para o trabalho, oferecendo leitura de mãos e bênçãos em objetos pessoais em troca de um pix (sem um valor específico). Uma rotina itinerante, atravessada pelo vai e vem de quem chega e parte.

Sol da cabeça aos pés

A saia longa, branca e cheia de babados deixa à mostra apenas os pés, calçados por um chinelo com a sola desgastada pelo calor do asfalto. Usa brincos grandes, dourados como o único dente da frente que exibe ao sorrir. O cabelo longo, escuro e cacheado cai sobre os ombros queimados de sol – o mesmo sol que a expulsa da calçada, logo após o almoço, onde permanece desde cedo. Carrega apenas uma bolsa tira-colo, com o celular e alguns trocados.

Assim que fecho a mão, Patrícia pede 50 reais – ou a corrente que uso no pescoço – para ajudá-la a comprar leite para Samuel. Digo que não posso.

Samuel tem quatro anos. É fruto do casamento de 25 anos de Patrícia, submetida ao matrimônio aos 16.  Na família dela, a virgindade antes do casamento é tratada como valor esperado, uma tradição que ela apresenta como parte de sua formação e de seu modo de vida.

Apesar da centralidade dada à família e à criação dos filhos na maioria dos grupos ciganos – que são imensos em diversidade – ela me garante que a maternidade encerra em Samuel. Ter criança exige dinheiro e muito trabalho debaixo do sol na rodoviária, avalia.

Preconceitos

Mulheres como Patrícia são mal vistas por muitos dos que passam por ali. Os artesãos hippies que dividem a plataforma superior com as ciganas me avisam para tomar cuidado pois “nada de bom sai dessa gente” e “ou é mentirosa, ou é ladra, ou os dois”. Não é raro ouvir respostas como “tá repreendido” ou “eu creio em Deus, moça”. Isso quando não a ignoram por completo.

Pergunto sobre as reações que recebe. Como quem já está acostumada, diz: “As pessoas têm muito preconceito por não seguirmos o mesmo modo de vida que elas. Acham que somos do demônio. Minha religião é Deus. Sem Deus, não somos nada.”

Peço para registrar uma foto. Nem que seja sem o rosto. Patrícia recusa. Diz que não pode. Que é coisa da família, que o marido e o sogro “ficam em cima”. Não insisto. Fico apenas com o que ela me deu: a mão aberta, a fala apressada, a fé repetida como proteção. Algumas histórias, como a dela, não cabem em imagem. Passam, como ela, no fluxo da rodoviária, sem nunca se deixar capturar por completo.

Vulnerabilidades

No ano passado, um levantamento do Instituto de Pesquisas do Distrito Federal mostrou que o Cadastro Único aponta os ciganos como um povo com profundas vulnerabilidades sociais, tanto nos aspectos domiciliares quanto pessoais. Há preocupação, entre eles, de não se permitir que as tradições acabem e com os preconceitos do dia a dia, tais como os relatados por Patrícia.

Há 10 anos, o perfil de ciganos no DF era formado na maioria por pardos (81%) e por jovens: 80% têm até 34 anos e 45%, até 15 anos. Segundo os registros, eram 113 pessoas distribuídas em 38 famílias inscritas no Cadastro Único de Políticas Sociais do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (antigo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome). 

Estima-se que, no Brasil, a população cigana (também conhecida como romani) seja de 800 mil a 1 milhão de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Por Ágata Vaz

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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