Golpes on-line afetam jogadores de Minecraft

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Após um longo dia de aula em frente ao computador, Daniel ainda tinha energia para mais algumas horas sentado. Uma breve pausa para esticar as pernas e buscar algo para comer na cozinha foram o bastante para o jovem de 20 anos voltar para o “terceiro turno” do dia.

Suas duas faculdades impediram que ele se comprometesse com um estágio formal, porém ele havia achado uma solução para conseguir um dinheiro: um de seus jogos favoritos da vida, o Minecraft. Ele não imaginava que o jogo ainda o traria tanta dor de cabeça.

Daniel diz que a origem do problema se deu quando ele aceitou um contrato vindo de um site malicioso que era semelhante ao site por onde ele criou sua carteira virtual e se conectou ao Minecraft.

Phishing

Essa é uma técnica comum utilizada por golpistas online, o phishing. Ao utilizar estratégias de enganação, como fingir ser quem não são,os golpistas induzem as vítimas a passar dados valiosos, como senhas, para assim obter acesso às contas e roubar o dinheiro inserido nelas, quando não é a própria conta o bem roubado.


A popularização das criptomoedas induziu desenvolvedores a promover jogos em formato de NFT. Ou seja, a possibilidade de jogar e receber tokens que poderiam ser trocados por dinheiro na vida real.

Nesse caso, servidores específicos do jogo da Mojang começaram a ser vendidos, sendo que neles os jogadores acumulavam os pontos que podiam ser trocados posteriormente.

Para Daniel Brito de Melo Pontes Cunha, mais cinco horas diárias no PC não o impediriam de minerar alguns blocos; de forma lucrativa como nunca antes em sua história com o jogo.

O que é NFT

Para quem não está familiarizado, os Tokens Não Fungíveis (NFTs) são ativos que podem ser usados como moeda, mas que não podem ser substituídos por ativos semelhantes.

Eles circulam por meio das blockchains, que é um sistema compartilhado que armazena os registros das transações digitais.

Diversos itens digitais podem se tornar NTFs, como artes, itens de jogos, vídeos e até mesmo os próprios jogos, como o servidor de Minecraft que Daniel decidiu experimentar.

Mais especificamente, o NFT Worlds, que Daniel chama de “uma espécie de metaverso dentro do Minecraft”, ou seja, um universo compartilhado entre os jogadores, em que NFTs circulam como itens do jogo.

Imagem: Pixabay



Ao mesmo tempo que ganhava pontos jogando no servidor, Daniel acompanhava o valor de mercado dos tokens para saber o momento certo de fazer a conversão de valores e finalmente mandar o dinheiro para sua conta no banco. Para conectar a carteira real com os servidores do jogo, é necessário que o jogador assine um “smart contract”, que por sua vez cria uma carteira virtual onde os pontos ficam armazenados até que o usuário resolva resgatá-los.

Em abril de 2022, num momento de valorização das criptomoedas, o estudante de nutrição e educação física decidiu que era a hora de realizar o procedimento. Ele movimentou uma pequena quantia do que havia ganhado, apenas como teste. Porém, dois dias depois, quando pretendia sacar o resto de seus ganhos, eles haviam desaparecido.



Imagem: Site NFT Worlds, site por onde Daniel acessava o servidor NFT

Brecha para o golpe


Em 2021, a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC) registrou 200 ocorrências de crimes cibernéticos, a maioria vindas do jogo de celular Free Fire.

O principal crime detectado nas ocorrências é o de estelionato, que geralmente ocorre quando um jogador procura por itens dentro do jogo por um preço melhor do que o que é ofertado internamente, e assim caem em fraudes.

Os golpistas utilizam métodos de engenharia social para fazer a vítima transferir dados, senhas ou benefícios dentro do jogo, de acordo com o delegado do DRCC Luiz Lyra:

Confira trecho de entrevista


Com o contrato firmado e com acesso liberado à carteira de Daniel, o único trabalho do golpista é mover o dinheiro para sua conta, e depois para outra, e depois para mais outras, na intenção de dificultar o rastreio, mas principalmente repartir o dinheiro para que este seja movimentado de forma mais discreta. O sistema da blockchain também não facilita o acesso a contas suspeitas.

O valor total roubado de Daniel foi de R$ 1,5 mil. Apesar da quantidade considerável, o prejuízo não foi tão grande, pois o investimento de Daniel foi somente o valor que o jogo disponibiliza: “Eu não perdi. Eu deixei de ganhar R$1500,porque meu investimento foi só o valor do jogo”. De acordo com uma pesquisa do portal Techtudo, ao menos 180 milhões de jogadores ao redor do mundo já tomaram um golpe pelo menos uma vez na vida. Os prejuízos já chegam a US$ 347 bilhões (em torno de R$1,8 trilhão).

Passado o choque de ter tido horas e horas de dedicação tomadas subitamente, Daniel procurou os desenvolvedores do NFT, mas sem sucesso. Por se tratar de um universo relativamente novo, o policiamento e a segurança de toda plataforma NFT não oferece muito suporte para os usuários. Vale lembrar que esses não são os desenvolvedores do Minecraft em si.

Os desenvolvedores da metamask, que elaboraram as carteiras virtuais, até conseguiram localizar a carteira para onde o dinheiro foi transferido, mas que naquela altura os tokens provavelmente já tinham sido passados para outras contas. Eles também fizeram o questionamento padrão para quando essas situações acontecem, que é perguntar se ele compartilhou sua senha com terceiros, o que não foi o caso. Ambos os desenvolvedores não se responsabilizaram pelo ocorrido, segundo Daniel, que não recebeu o dinheiro de volta.


Prevenção


Dois meses após o episódio, mesmo não sendo tão lucrativo como antes, Daniel não abandonou o servidor. Ele toma precauções maiores agora, como sacar o dinheiro imediatamente depois que recebe. Ele também utiliza um antivírus da empresa produtora de softwares de proteção Kapersky, apesar de que ele mesmo acredita que isso não o ajudaria em seu episódio.

O que mudou é que com o mercado de criptomoedas em baixa, os lucros já não são mais tão grandes. Os R$ 1,5 mil que Daniel conseguiu foram obtidos em um mês, por volta de cinco horas diárias. Hoje, nesse período, ele acredita que se chegar à metade do valor roubado já é ótimo, afinal ainda é uma forma de conseguir uma grana, mesmo sem um estágio.

A investigação necessita do máximo de informações por parte da vítima já no boletim de ocorrência (contatos, marcadores etc), para assim conseguir rastrear a fonte e o fluxo delas. As empresas responsáveis pelo jogo costumam facilitar a operação, porém nem sempre elas atendem os prazos que a delegacia pede.

Ouça trecho de entrevista

Ouça trecho de entrevista


De acordo com a DRCC, as ocorrências patrimoniais envolvendo criptomoedas são registradas quando ultrapassam o valor de 20 salários mínimos (o equivalente a R$ 28,8 mil), o que não significa que a delegacia não pode ser acionada, desde que outras delegacias não tenham competência para prosseguir as investigações.

Desconfiar é a regra

Já a companhia de segurança de dados ESET, em nota para a reportagem, recomenda que é preciso desconfiar de procedimentos não solicitados pelos usuários, como o envio espontâneo de links, por exemplo.

Prestar atenção nos arquivos que estão sendo baixados, assim como a origem deles é necessário, pois essa é uma das principais formas que softwares maliciosos, como vírus, chegam aos aparelhos.

Além da instalação de antivírus, o que também ajuda é a atualização dos próprios softwares, pois assim assegurará que todas as correções de eventuais vulnerabilidades encontradas pelo fabricante já estejam ativas nos equipamentos, diminuindo as chances de comprometimento.

Entretanto, como no caso de Daniel, todas essas precauções não servem de nada se os usuários não tiverem o mínimo de atenção com os acordos realizados nas redes. Segundo a empresa, os métodos que os golpistas utilizam são variados, mas o mínimo de conscientização, como não compartilhar senhas ou conversar somente com pessoas conhecidas, evita dores de cabeça geradas por golpes.

O estudante pelo menos conseguiu tirar algo de positivo da situação. “Quando aconteceu eu não acreditei que pudesse ser culpa minha, mas eu consegui usar de aprendizado sobre criptomoedas e blockchain, e agora eu até estou conseguindo tirar um bom lucro”, diz Daniel.

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 Por Vinícius Pinelli
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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