Ex-freira segue novo caminho após deixar vida religiosa

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Eram 4h30, o barulho de um sino se espalhou por todo o ambiente, mas logo se encerrou brevemente, o silêncio se alongou, ocupando cada fresta do espaço, não havia cumprimentos, nem qualquer tentativa de comunicação. 

O único que falava era o sino, demonstrando que era o momento de realizar as trocas de orações, até às nove da manhã. Após o fim do grande silêncio, que se iniciou nas vésperas do dia anterior, todas podiam tomar o café da manhã e desfrutar da companhia umas das outras.  

Com apenas 18 anos, Joelma de Sousa, decidiu que sua vida se iniciaria dentro do Mosteiro de Santa Clara de Deus Trino. Não havia passado por nenhuma frustração. Sentia que faltava algo em sua vida, apenas, como ela mesma diz, “eu ficava pensando que Jesus era o único amor verdadeiro da vida da gente”. 

Vida religiosa foi primeira opção

Faltavam 15 dias para a sua partida, o telefone tocou algumas vezes até que Cristina de Sousa, irmã de Joelma, atendeu. Do outro lado da linha, estava o frei Flávio, questionando se Joelma estava em casa, sua irmã informou que estava trabalhando – estava em um emprego de vendedora, em uma papelaria– o Frei achando estranho falou:

– Mas faltam 15 dias para ela ir para o convento e ainda está trabalhando? 

Cristina, ficou surpresa com aquela notícia, pois a irmã não tinha dito para ninguém da família. ‘’ A ida dela para nós foi como se estivéssemos enterrando alguém’’.

 Na saída de casa, sua família sofreu com a escolha que ela fez para a própria vida. Os parentes só conseguiriam vê-la novamente depois de três meses, em visitas restritas, atrás das grades. 

‘’Com o tempo me entreguei ao consolo de Deus e aceitei a escolha dela, que apesar de incomum, era algo que a fazia feliz e realizada’’ informa a irmã. 

Partiu com o coração apertado, ciente de que sentiria saudade dos familiares, mas com a mente e o coração tranquilos, certa de que aquele era o caminho que desejava para a sua trajetória.  

A Irmã Maria Beatriz de Deus Trino, que antes se chamava Joelma de Sousa Guimarães, deu início à sua rotina das primeiras orações do dia, os sacrifícios em prol da santificação da Igreja, pela conversão dos pecadores e pelas almas do purgatório. Após o café da manhã, vinham as atividades: limpar os ambientes, cozinhar, costurar, fabricar velas e design simples. 

Em um mundo onde só existiam a rotina e as orações, era difícil estar antenada às novidades. O sino voltava a tocar, anunciando o momento da leitura que uma das irmãs faria. ‘’Não tinha televisão, notícias e TV. Mas tinha um jornal, que é o Jornal do Vaticano, que se chama Observatório Romano’’ ressalta a irmã Maria.

A rotina seguia inalterada ao longo dos dias comuns da semana, mas havia um encanto particular nos domingos e quintas-feiras, dias festivos da igreja, quando as irmãs podiam desfrutar de uma pizza bem recheada, pastéis e chocolates. 

Aos poucos, algo mudou, e o que antes era convicção começou a dar lugar a um cansaço difícil de explicar. Nem o eco do sino era capaz de despertá-la como antes, fazendo com que levantar-se da cama fosse uma tarefa cada vez mais árdua.

 Antes, tudo era leve e cheio de disposição; agora, até as atividades mais simples que exigiam esforço pareciam inalcançáveis. Seu sofrimento nem sempre era compreendido, muitas vezes interpretado como falta de esforço ou de fé.

‘’Pensei que era só uma crise, uma dificuldade que todo mundo passa’’ com o pensamento de que era algo normal, ela queria lutar todos os dias para que acabasse tudo que estava sentindo. 

Foi nesse período que, diante do agravamento do seu estado emocional, Joelma começou a se medicar. Passava longos períodos deitada, sem forças para se movimentar ou realizar as tarefas do dia a dia. O maior esforço era rezar, todos os dias, a todo momento, na esperança de melhorar logo. 

‘’Não consigo mais, eu tô ficando cada vez pior’’ após perceber que não estava mais servindo, no dia 14 de janeiro de 2019 pediu uma licença do convento para a recuperação. 

A resposta, no entanto, não foi a que esperava: foi transferida para São Paulo. Permaneceu ali por cerca de três meses, mas ainda carregava um abatimento profundo, pesar por dentro e não se dissipou com o tempo, estava com depressão.  

Observando sua situação, decidiu que iria direto para a casa de sua família, foi recebida de braços abertos, se tornou seu lugar de aconchego e lugar de recuperação.  

 ‘’Nunca imaginávamos que após 16 anos ela sairia, não sabíamos que ela estava tão doente’’ Cristina ressalta. 

Ainda cumprindo o compromisso da profissão solene, vestindo o hábito, decidiu dar início à reconstrução da própria vida, sem se importar com os olhares que a cercavam. 

 ‘’Com amor e o apoio da minha família, principalmente da minha irmã, eu fui melhorando’’dizia a jovem.

Sem renegar sua história, carregava consigo cada passagem vivida, mas entendia que precisava seguir adiante por um novo caminho. 

Havia um quarto sem uso na casa, e decidiram prepará-lo para Joelma. Compraram uma cama box e, aos poucos, transformaram o espaço em um ambiente mais aconchegante. No entanto, pouco tempo depois, o quarto que prepararam acabou ficando com a irmã Cristina, enquanto o dela passou a ser o de Joelma.

Toda a ajuda que teve veio da família, que a incentivou a tirar a carteira de motorista.

Mesmo fora do Mosteiro, continuou respeitando e seguindo as suas crenças. Depois de alguns meses solicitou a permissão para tirar o hábito.  

 Com a permissão, teve que realizar compras de roupas e decidiu voltar aos estudos, as atividades que exercia dentro do convento foram essenciais para se tornar a mulher que é hoje. 

Agora, sua rotina já não era mais guiada pelos sinos que marcavam cada atividade. Ainda assim, cada tarefa que realizava passou a ter um novo significado para ela — e uma delas, em especial, fez Joelma abrir os olhos para o dom de trabalhar com design.

‘’Nosso mundo é muito visual, então, eu realmente me realizo fazendo o que eu faço’’ ressalta.  

Iniciou os estudos e, com muito trabalho e esforço, conquistou o primeiro estágio na Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Aos poucos, compreendeu que era chegada a hora de encerrar sua trajetória como freira, após 5.844 dias de vida religiosa. 

‘’Eu queria lutar, é como se fosse um casamento, você pensa que não vai desistir por qualquer coisa. Então, eu lutei para que eu não precisasse, para que eu fosse fiel ali,  mas chegou um momento que eu vi que realmente não era para mim e teve sempre aquela culpa “, confessa. 

Com o passar do tempo, formou-se também em Publicidade. A vida parecia se organizar em novos contornos, embora ainda não tivesse se permitido viver o amor. 

Durante o período em que esteve na PRF, não chegou a manter contato com o seu contratante, apenas uma vez, em setembro de 2021:

-Como posso realizar a troca do termo aditivo, por conta que mudei de faculdade? disse ela.

-Você deve solicitar a atualização junto ao setor responsável, apresentar o comprovante de matrícula da nova faculdade e assinar o novo termo aditivo, informou ele.

 Em agosto de 2025, uma mensagem inesperada surgiu como resposta a uma publicação em sua rede social “Não parece que você tem 41 anos”, disse. “Obrigada, inspetor”, respondeu.

“Outro dia, postei uma foto de lembrança, de quando estava no convento e outra nos dias atuais com a legenda: Duas páginas, mesmo livro”. 

Surgiu outro assunto que Thiago Condé, respondeu:

– Nossa, que interessante essa história!

  Dali, entre conversas e encontros simples e contínuos, Joelma percebeu que estava se apaixonando por Thiago. 

             Após 3 anos que tinha saído do mosteiro, a profissional de design decidiu que estava aberta ao amor “Jesus, meu período de luto acaba aqui’’.

Assim, abriu-se diante dela um novo caminho, feito de escolhas, afetos e recomeços. 

Hoje, estão noivos e se preparam para o casamento em agosto deste ano. 

Por Ana Luísa Pereira

Fotos: acervo pessoal

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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