Já rompeu com alguém por causa de política? Confira histórias e riscos

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A sociedade brasileira convive com um drama social e político agravado na última década. As manifestações de rua de 2013, as disputas eleitorais do ano seguinte, o impeachment de Dilma Rousseff, e a vitória nas urnas de Jair Bolsonaro foram motivos de discussões que esquentaram nos grupos de whatsapp, nas festas de família ou nas reuniões de amigos. Quem rompeu nessa situação sabe a dor do momento. Rupturas com pessoas que antes eram próximas causam situações inesperadas que abalaram relações interpessoais. 

Segundo o historiador Frederico Tomé, pesquisador em ciências sociais, a situação não chega a ser uma novidade. Ele explica que o  Brasil foi marcado por polarizações que deixaram arranhões sociais.

“Depois das eleições, a tendência é que os grupos voltem a conversar, mas se não houver esse espaço de retorno, estamos falando de um risco social”, explica antropólogo

“Cada momento tem suas peculiaridades, Momentos como o da pandemia geram mais acirramento dos ânimos. Em termos políticos, essas rixas estiveram presentes em vários momentos históricos, como os episódios no período entre 1808 a 1822”, afirma. O professor exemplifica ainda períodos de divisão como das disputas entre Arena e MDB.

“No espaço democrático, é necessário que as instituições estejam intermediando essas rixas”

“A lógica do segundo turno é que tenham dois adversários. O brasileiro sempre foi ao segundo turno em eleições presidenciais. Então ocorre essa polarização”, diz. Ele explica que as instituições precisam agir para que as rixas sociais não provoquem rupturas e riscos à sociedade. Confira abaixo trecho de entrevista

 

Em 2018, durante as últimas eleições presidenciais, a polarização política do Brasil foi destaque na imprensa internacional. 

Ele explica que os cidadãos podem e têm o direito de expressar suas opiniões em debates, mas, muitas vezes podem chegar ao extremo e afetar as relações entre familiares e amigos. Assista a trecho de entrevista

Leia mais sobre polarização política 

As redes sociais também influenciam nos assuntos políticos. Ainda de acordo com Frederico Tomé, o espaço virtual transformou a forma das pessoas se manifestarem sobre esse tipo de assunto, uma vez que abaixo-assinados, por exemplo, agora são feitos nas plataformas online. Além disso, ele acredita que as redes sociais equalizam as vozes e facilita o conhecimento da opinião do outro.

Leia reportagem sobre risco das redes sociais

“Os novos manifestantes, geralmente, ficam em casa e não colocam o corpo em evidência. A participação é virtual”, explica

Para ele, esse tipo de comportamento gera uma ideia de que todos estão participando politicamente, mas na forma superficial do discurso e sem a ação em si.

Não é raro ouvir histórias de rompimentos dolorosos por causa das posturas que nascem com discordâncias políticas e acabam por resvalar em ofensas de caráter pessoal. Por isso, buscamos ouvir relatos dessas dores que se tornaram rotineiros em volta de nós. Confira abaixo:

Família

A estudante Iasmin Morena, de 17 anos, rompeu relações com a própria tia, após uma discussão em um aplicativo de mensagens. A garota divergia com as opiniões da parente, que segundo ela, apoiava o então candidato Jair Messias Bolsonaro. 

“Em 2019, depois da época das eleições, tinha um grupo de família e ela postava umas matérias e piadas de mau gosto, como homofóbicas e machistas”, comenta

Iasmin conta que o ápice do rompimento ocorreu quando a tia se posicionou a favor do armamento, uma das ideias defendidas pelo político, o que gerou uma longa discussão no grupo da família e ela optou por sair. Desde então, nenhuma das duas teve a iniciativa de tentar uma possível reconciliação. 

Violência física

Isabel Martinello Valente, de 18 anos, recorda como uma amizade de escola acabou em violência física em decorrência de uma grande discordância política. Numa roda de conversa no colégio, Isabel e seus amigos começaram a conversar sobre igualdade de gênero e como esse tópico era tratado pelo presidente da república. 

Ao expressar sua opinião, a menina foi agredida por uma das integrantes da turma. 

Na ocasião, ela tinha 15 anos e a agressora 17, e explica que isso aconteceu porque o discurso da colega feria a existência de muitas outras pessoas, inclusive a de Isabel. 

“Prezo acima de tudo o respeito e a liberdade das pessoas. O ideal da outra pessoa ia totalmente contra a ideia de liberdade de escolhas e do respeito. Duas ideias totalmente contrárias que acabaram se chocando. Eu defendia uma coisa e ela defendia que o que eu acredito não deveria existir”, desabafa.

A jovem considera  ter passado por essa experiência foi importante na consolidação de seus posicionamentos políticos e como nenhum relacionamento, seja de amizade ou familiar, torna aceitável esse tipo de atitude. Apesar de toda essa situação, Isabel ainda tem disposição de conversar e explicar suas perspectivas a quem quiser debater, desde que haja respeito.

Desconvite de casamento

Raphaella Andrade, professora de filosofia e sociologia, também enfrentou um rompimento causado por divergências políticas. A jovem de 24 anos foi desconvidada de um casamento, no qual seria a madrinha, ao se mostrar contra o atual presidente. O noivo era um amigo que Raphaella conheceu na igreja, lugar em que começaram desentendimentos motivados por diferentes opções de voto nas eleições de 2018, provocando um afastamento temporário entre eles.

Apesar desse distanciamento inicial, a brasiliense foi surpreendida com um convite para prestigiar os noivos de uma forma especial, e afirma que foi um momento especial para ela. Contudo, ao manifestar apoio à soltura do ex-presidente Lula, o amigo retirou o pedido e a bloqueou nas redes sociais.

Diante da situação, a socióloga ficou abalada e não acreditou que um posicionamento político seria capaz de desfazer uma amizade

O fato ainda prejudicou o convívio comum, uma vez que os membros da igreja ficaram incrédulos com o posicionamento dele, levando a um constrangimento que o fez abandonar a comunidade.

“Como professora, o meu maior papel e objetivo era entender porque as pessoas pensavam daquela maneira, então percebi que ele não estava aberto ao diálogo, só a opinião dele importava”, explica

Raphaella conta que superou o ocorrido, dizendo que o usa como exemplo em sala de aula. Ela ainda relata que, de sua parte, poderia ter uma convivência novamente, porém não sente que seria algo recíproco, visto que seu amigo, apoiador do presidente Jair Bolsonaro, considera o posicionamento dela ‘absurdo’.

Todavia, a professora não se arrepende da maneira como agiu na época e acredita que ele também se sinta assim. Não houveram tentativas de reconciliação, sendo que ela considera a ignorância o traço mais forte da personalidade dele: “Não vale a pena tentar debater com quem não quer ouvir outra opinião, o torna ignorante”.

Por Alexya Lemos Rocha, Filipe Fonseca, Isabela Donamico, Maria Eduarda Bacellar, Maria Paula Meira, Maria Tereza Castro, Mayariane Castro, Rayssa Loreen, Rebeca Kemilly e Saulo Branquinho

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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