A mudança na cobertura fotojornalística 10 anos depois do movimento de Junho de 2013 e adoção dos EPIs

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Rafael Wallace/ Acervo pessoal

Já passaram 10 anos desde as manifestações de 2013. O movimento, iniciado por jovens insatisfeitos com um aumento de 20 centavos no valor da passagem, fez surgir no Brasil protestos para todos os cantos. Na época, para mostrar isso para o Brasil, jornalistas foram fundamentais. As cicatrizes do evento foram grandes e ocasionaram na mudança da cobertura fotojornalística, obrigando os profissionais, por exemplo, a adotarem a obrigatoriedade do uso dos chamados EPIs (Equipamentos de Proteção Individual).  

O fotojornalista Rafael Wallace, que cobriu os protestos de 2013 pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), lembra que o trabalho foi uma das experiências mais desafiadoras da carreira. 

“As manifestações começaram de forma espontânea e iam se espalhando pela cidade. Nessa época eu trabalhava na Alerj e dizíamos que ali era o olho do furacão, pois quase todos os movimentos de insatisfação começavam ou terminavam por lá”, explica. 

Wallace ainda lembra o principal desafio que os profissionais tinham na época: que era o de lidar com a imprevisibilidade dos eventos. “De um lado vinha pau e pedra; do outro bala de borracha, bomba de efeito moral e gás lacrimogêneo . Isso exigia um forte estado de atenção. Era importante estar perto o suficiente para capturar boas imagens enquanto, ao mesmo tempo, precisava garantir minha segurança.”

Outro ponto que ele ressalta é de que os profissionais de imprensa eram constantemente ameaçados. Além disso, devido às ruas fechadas e transportes públicos parados, era preciso fazer a gestão do risco e da logística. “Eu morava na Lapa, bairro próximo ao centro da cidade, mas precisava fazer longas caminhadas com todo o equipamento fotográfico à mostra. No Rio de Janeiro a gente não pode dar muito mole”, destaca. 

Adaptações ao trabalho da imprensa

Para o fotojornalista, após 10 anos dos episódios, é possível dizer que houve mudanças no processo de realizar a cobertura jornalística, mas a essência continua a mesma. Outro ponto é que a evolução da tecnologia e o crescimento das mídias sociais desempenharam papel fundamental nessa transformação. Não é à toa que a principal mudança foi a velocidade com que as informações e imagens são compartilhadas. 

“Hoje há uma pressão ainda maior para a gente capturar e divulgar imagens em tempo real. A edição de fotos também evoluiu, se tornou mais rápida e prática com celulares e softwares que oferecem ferramentas que aumentam bastante o trabalho, mas que também podem modificar muito uma imagem. Mas, independente disso, o limite ético precisa ser sempre ponderado e a responsabilidade precisa acompanhar essas mudanças,” destaca Wallace.

Além disso, o profissional reforça que com a redução dos canais de comunicação entendidos como oficiais, o ambiente digital passou a ser ainda mais usado por fotojornalistas como forma de divulgação dos trabalhos.  Uma consequência disso é que permitiu à classe que compartilhassem suas fotos diretamente com o público, proporcionando uma maior autonomia e também mais visibilidade.   

“Em resumo, fazer uma cobertura hoje é diferente do que era há 10 anos. A tecnologia avançou, as mídias sociais ganharam protagonismo e a velocidade da informação aumentou exponencialmente. Essas mudanças trouxeram desafios e oportunidades para nossa profissão, mas a base do fotojornalismo, que é a responsabilidade de documentar a realidade de forma ética e impactante, continua sendo um pilar essencial do nosso trabalho”, finaliza. 

Manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro/ Foto: Rafael Wallace


Cobertura com o uso de EPIs

Pedro Ladeira/ Acervo pessoal

Pedro Ladeira é fotojornalista da Folha de S. Paulo e começou a trabalhar no jornal em abril de  2013 e, em menos de três meses, cobriu um dos maiores protestos do Brasil. Ele lembra que o momento foi importante para a carreira. “ Em junho eu estava participando dessas coberturas que se mostraram relevantes. Jornalisticamente foi um momento muito rico e de muito trabalho.”

Devido aos episódios de violência policial, o Observatório da Imprensa junto ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) reconheceram os riscos da cobertura. Pedro lembra de ter buscado equipamentos de proteção antes da adesão em massa das redações. “A adesão dos EPIs foi acontecendo aos poucos. Primeiro eu e colegas compramos capacetes, porque era o mais preocupante”, relembra.  A urgência da proteção levou redações dos jornais a adotarem os EPI’s como regra. Os equipamentos hoje são oferecidos pelos veículos de comunicação e vão de colete à máscaras de proteção.

     Ladeira conta as estratégias que usa para garantir a segurança em grandes coberturas. “ Não ficar na linha de combate entre manifestantes e policiais é sempre importante, você precisa ficar de forma lateral, onde você tenha uma visão privilegiada, mas sem se arriscar”, reforça.

Fábio Pozzeboom/ Arquivo pessoal

Já  o fotojornalista Fábio Pozzebom conta que quando cobriu as manifestações de 2013 pela Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), o uso dos EPIs já era adotado pela empresa. “Em 2013, a EBC dispunha de um kit básico de proteção composto de capacete, máscara de gás e colete à prova de balas. E éramos instados a irmos para a rua usando os EPIs.”, lembra.

Quanto às alterações e mudanças ocorridas de lá para cá, Fábio faz um paralelo entre as manifestações de 2013 e os atos de 7 de setembro de 2022. “Na manifestação do 7 de Setembro, onde caminhões foram estacionados sobre o gramado da Esplanada, eu fui cobrir usando o EPI disponível (máscara, capacete e colete com identificação de imprensa). Mesmo assim, não me sentia seguro, pois o tempo todo era interpelado pelos manifestantes sobre o porquê de usar os EPIs se a manifestação era pacífica.”, relembra o fotojornalista.

Ministério Público e o uso de EPIs 

Diante dos problemas que profissionais de comunicação estavam sujeitos durante as manifestações, a exemplo do cinegrafista da Band, Santiago Andrade, que morreu após ser atingido na cabeça por um rojão durante um protesto no Rio de Janeiro em 2014, vários protocolos de segurança passaram a ser exigidos.  Em 2014, por exemplo, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), juntamente com empresas de comunicação, com o Governo do DF e com o Ministério Público do Trabalho (MPT), atuaram para garantir mais proteção aos profissionais de imprensa durante a cobertura de jogos da copa e manifestações. 

Na época, os veículos de comunicação e instituições foram notificados a obrigatoriedade de  garantir aos empregados os EPIs, auxiliares em equipes de TV e o direito dos funcionários se retirarem da cobertura caso considerassem possíveis riscos. 

Desde essa época o MPT recomenda o uso dos equipamentos de segurança por parte dos profissionais de imprensa, e de acordo com SJPDF, os principais itens são máscaras para gás, capacete e coletes à prova de balas.  

Por Luis Fernando Souza, Marco Antônio e Arthur Marquez

Supervisão Isa Stacciarini

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