“Neste filme, eu não queria questionar se a reconciliação é possível, mas mostrar o que tentar reconciliar nos ensina (…)”. Assim é descrita a dinâmica do longa de 2025, indicado a nove categorias no Oscar 2026, incluindo Melhor Filme.
Valor Sentimental acompanha a vida das irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter) após a morte da mãe e o reencontro com o pai Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um renomado diretor de cinema e emocionalmente ausente na vida das filhas, que decide realizar seu retorno à indústria cinematográfica com um filme pessoal. O longa explora a dinâmica familiar que se torna ainda mais conturbada após uma jovem estrela americana ser escalada para o papel que deveria ser da filha mais velha.

Direção
Com a direção de Joachim Trier, assim como em “A pior pessoa do mundo” de 2021, leva o espectador a refletir sobre dinâmicas interpessoais, defeitos e como eles refletem no meio social e individual.
Concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz, Renate Reinsve volta como Nora Borg, atuando como o eixo da narrativa e transmitindo sentimentos de frustração, rancor e luto da personagem. Nora é quem bate de frente com o pai não apenas pela ausência, mas pela forma como ele transformou a vida familiar em um espetáculo de autoglorificação.
Trier utiliza Rachel (Elle Fanning) como elemento de disruptura da trama. A estrela de cinema é uma personagem com um paradigma entre a sua persona energética e artificial de Hollywood e sua intensidade emocional e solidão.
Rachel personifica a atenção que sempre foi negada às filhas pelo pai, sendo uma espécie de “musa” que Gustav sempre buscou. Ao longo da história, ela é atraída pela intensidade e pela “verdade” da família Borg, sem perceber inicialmente o quão dolorosa essa verdade pode ser.
Durante o longa, não se identifica alguém do bem ou do mal, a trama se aprofunda no drama humano, nos silêncios e na complexidade de se abrir e reconciliar.
Confira o trailer de “Valor Sentimental”
A casa
Grande parte da trama se passa na residência da família, que abrigou diversas gerações. Aqui a casa é retratada de forma metafórica como um vínculo total entre as relações de mágoas e feridas emocionais da família. Serve estrategicamente como uma espécie de elo para a trama.
Essa relação se potencializa ainda mais a partir do momento em que nos é apresentado o passado, onde outros familiares que ali moraram lidaram com a morte, perseguição, intimidação e depressão.
Joachim Trier utiliza diversas cenas dos cômodos e close-ups de rachaduras presentes na casa para idealizar essas cicatrizes abertas, principalmente por meio da relação de Nora com a moradia.
Trilha
Um dos destaques da trilha sonora do filme é com certeza, “Cannock Chase”, de Labi Siffre. A faixa se destaca das outras que soam um pouco mais densas, provocando um sentimento de saudade e trazendo o lado terno e vulnerável do ser humano.
A música carrega um otimismo melancólico que se encaixa perfeitamente com os personagens. Uma letra soturna com uma melodia feliz, que valida a dor dos personagens sem a transformar em algo pesado e ruim.
Arte e dinâmica familiar
A performance é outra parte que rege boa parte da trama, Joachim constrói uma dinâmica dos personagens utilizando a relação da família com a arte.
Nora notoriamente joga seus sentimentos e frustrações na carreira de atriz em cima dos palcos, Gustav vive estagnado em um passado glorioso como diretor de cinema e transmite uma certa inverdade na sua reconciliação justamente por tentar conectar tudo a esse mundo artístico e passado.
Enquanto os outros personagens tentam “seguir em frente” ou transformar a dor em arte, Agnes vive a dor de forma silenciosa. Ela é quem organiza as caixas, quem ouve os discos, vai atrás do passado familiar e quem realmente sente o peso do “valor sentimental” de cada pequena coisa.
A melancolia é algo típico das personagens femininas de Trier: Agnes transmite uma esperança desesperada, ela é cercada por memórias, tentando entender se a sua identidade existe fora daquela estrutura familiar desfeita.
Ficha Técnica
Título Original: Affeksjonsverdi
Direção: Joachim Trier
Roteiro:Joachim Trier e Eskil Vogt
Elenco principal: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning
Gênero: Drama, Drama Psicológico
Duração: 2h 13 min
Classificação Indicativa: 14 anos
Por Mariah Mergener
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


