Sob inspiração da música Joana Francesa
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Tu ris, tu mens trop (você ri/você mente demais)/Tu pleures (você chora…)… Os versos que abrem a música “Joana Francesa”, de Chico Buarque, brincam com a aproximação de brasileiros e franceses. Ao utilizar os dois idiomas na canção, Chico faz com que as duas culturas sejam inseridas em uma só obra e conversem naturalmente, em uma ponte cultural. Essas ligações não são restritas à criatividade do poeta brasileiro, que lançou a música no ano de 1990.
Os fluxos migratórios entre Brasil e França contribuem significativamente para o intercâmbio cultural entre as duas nações. No Brasil, de acordo com a Polícia Federal, aproximadamente 30 mil franceses residem no Brasil, já na França o Itamaraty estimou em 2020 que haviam cerca de 90 mil brasileiros vivendo lá. Essa movimentação populacional não apenas fortalece os laços históricos entre os países, mas também enriquece a diversidade cultural de ambas as nações, com a troca de costumes, idiomas e visões de mundo.
Na visão da historiadora Anaïs Fléchet, especializada nas relações culturais francesas e brasileiras, com foco na música, a inspiração de Chico para a canção foi o filme “Joana Francesa”, dirigido por Carlos Diegues. Segundo a pesquisadora, especialista em cultura brasileira e francesa, a canção foi feita para Jeanne Moreau, atriz que protagonizou Joana no filme. “Essa música é muito linda, porque ela joga com as línguas. É uma interpenetração das línguas”, explicou.
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Segundo a historiadora, a utilização da música pode auxiliar o aprendizado linguístico e é algo que também acontece historicamente na França. “A gente vê muito isso (na França), sobretudo a partir da década de 1970, quando os músicos brasileiros começaram a fazer sucesso na França por eles mesmos, e não adaptados com versões em francês”.
Essa, segundo ela, foi a primeira maneira de se apropriar da MPB, fazer versões. Mas, depois de um momento e da chegada física de artistas brasileiros na França, com o desenvolvimento das turnês e também o exílio — que foi um fator muito decisivo nesse encontro real entre as pessoas —, as músicas começaram a ser divulgadas em português, em versão original, explicou.
Ela relata que esse foi um fator importante para que a música brasileira fosse inserida em espaços de educação na França, e que esse acontecimento floresce a paixão pela cultura brasileira nos franceses. “A partir daí, vemos que em vários cursos de português, inclusive nas universidades, os professores começaram a usar bastante as canções como ferramenta para a aprendizagem da língua. E eu entrevistei várias pessoas para minha tese de doutorado que falaram justamente isso: Que se apaixonaram pelo Brasil a partir da música e que foi por meio dela que começaram a aprender o português e também a sonhar em viajar para o Brasil”, completou.
A historiadora contou que as duas culturas estão ligadas a muito tempo, essa relação entre os países acontece a mais de 200 anos, e citou que existe uma curiosidade e desejo mútuos de que elas se entrelacem.
2025
Para o adido cultural da França no Brasil, Brieuc Tanguy-Guermeur, a Embaixada da França no Brasil tem grande importância para o fortalecimento desse laço e das trocas culturais motivadas por esse interesse mútuo.
Ele identifica que os dois países têm esse desejo e interesse na difusão das ideias e das produções artísticas e as embaixadas devem criar caminhos de ligação para que não sejam apenas de difusão e divulgação.
“Mas para tentar criar uma história juntas, uma narrativa comum. Por isso, a gente está desenvolvendo bastante nossa ação. Estamos buscando promover a criação entre artistas franceses e brasileiros. Sendo assim, vamos lançar um programa de residência artística intelectual que se chama Vila Fatumbi.”
Brieuc contou que, agora em 2025, acontece o Ano Brasil-França para reforçar essa relação colaborativa e conjunta entre os dois países. “Vai ser um momento muito forte de cooperação cultural. Vai ter uma programação de artistas e pensadores brasileiros na França, durante os meses de abril até agosto de 2025. E uma presença muito forte de artistas franceses no Brasil, de agosto até o fim do ano”, explicou.
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Vivências
Para o francês Elyes Jedidi, que visitou o Brasil em 2024 e passou por cidades como Rio de Janeiro e Ubatuba (SP), as primeiras impressões sobre a cultura e o povo brasileiro foram “consideravelmente positivas”. “O que mais me marcou foi como o brasileiro tem mente aberta e aceita outros. A comida também me impressionou. Vocês comem arroz e feijão todos os dias”, sorriu.
Nem sempre as primeiras impressões são as melhores. O carioca Filipe Castanheira, de 20 anos, estudante de administração na Universidade de Brasília (UnB), morou em Aix-en-Provence, no sul da França, entre 2014 e 2016. Segundo ele, em um primeiro momento, o povo francês aparenta ser mais “frio”, mas, com o tempo, passa a se assemelhar mais àquilo que o brasileiro está acostumado à medida que se desenvolve uma relação mais calorosa.
Além disso, se disse impressionado com a quantidade de franceses que fumam, e com o hábito frequente das pessoas de caminhar. “Pelo menos nas cidades que visitamos e onde a gente morava, a galera caminha muito. Aqui no Brasil, a gente vê muita gente indo para qualquer lugar de carro. Vou na esquina, pego o carro. Lá eles costumam caminhar muito”.
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Desencontros
A troca cultural entre Brasil e França também está relacionada a estereótipos. Embora pareçam simplistas, esses estereótipos podem reforçar preconceitos e dificultar a compreensão mútua. A experiência de viver em um país diferente, portanto, envolve não apenas a descoberta de novas culturas, mas também a desconstrução de ideias preconceituosas.
Filipe contou que, ao chegar na França, foi recebido pelos nativos com questionamentos sobre três principais fatores: a música, o futebol e o jeito caloroso e extrovertido dos brasileiros. “Perguntavam muito sobre samba, bossa nova e funk. Diziam que o funk tinha ficado muito famoso lá. Futebol também, lá eles acham que todo brasileiro sabe jogar bola, principalmente os mais novos. E o trato humano mais caloroso, acho que eles têm muito forte essa imagem do brasileiro”, relembrou.
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As diferenças na forma que os franceses lidam com costumes e relações interpessoais também chamaram a atenção de Filipe. “A principal diferença nessas relações interpessoais é que eles tem um olhar de superioridade, tem esse olhar meio frio. Enquanto a gente parece estar tentando conquistar um espaço e ser mais amigável. Então, pode passar um ar de arrogância quando você está falando com a pessoa”, lamentou.
Já na visão de Elyes, as maiores diferenças estão na cortesia e na forma como os brasileiros lidam com a prestação de serviços. “A linguagem é muito informal, se comparada à França. Não há necessidade de dizer ‘por favor’ o tempo todo, e ainda assim o serviço é muito melhor do que na França. Nos restaurantes há sempre alguém cuidando de você para garantir que tudo esteja indo bem”.
Música para aproximar
A música é um exemplo de caminho de aproximação para franceses e brasileiros. É o caso do médico Celso Boianovsky, de 59 anos, que mora em Brasília, cujo interesse pela música e cultura francesas foi auxiliado pela tecnologia.
“O meu interesse pela música francesa veio da minha vontade de aprender a falar francês. Nesses tempos modernos, a gente consegue se cercar de uma série de ferramentas que, quando eu aprendi o inglês, não tinha. Então, por intermédio de um Spotify, do YouTube, eu consigo me cercar de cultura musical franecesa”, explicou.
Celso comentou, também, que o consumo de música o ajuda a aprender mais sobre a língua. “Quando a gente se apaixona por um cantor, por uma cantora, por uma música específica, a gente acaba reproduzindo aquilo e as expressões ficam memorizadas de maneira natural, sem você se dar conta. Desde que você vá atrás do significado real, não só da sonoridade da música, é uma arma poderosíssima! Isso me ajudou muito a aprender a língua”, relatou o médico.
Abaixo podemos conferir um episódio do quadro “Cultura Para Aprender” do Ceub, que fala sobre como a música e a cultura podem ser um pilar para auxiliar o aprendizado de uma nova língua.
Novos horizontes
Ao serem perguntados sobre as experiências que tiveram na França na cultura musical de cada país, tanto Filipe quanto Elyes citaram o rap, gênero musical muito ouvido em ambos os países e que têm destaque, principalmente, entre os jovens.
“Eles ouvem muito rap nacional e também internacional. Eu morei lá de 2014 a 2016, mas até hoje os mesmos artistas estão em evidência” Ele afirma que recentemente visitou um amigo na França e pediu uma relação de músicas que ele escutava normalmente. “Eles ouvem muito rap ainda e os mesmos artistas estão em evidência há muito tempo”, destacou o carioca.
O gênero já proporcionou, inclusive, algumas pontes entre Brasil e França. É o caso da canção “Bonjour“, colaboração entre o rapper brasileiro Emicida e o artista francês Féfé. Outro exemplo é o da música “Bécane”, do rapper franco-camaronês Yamê, que viralizou nas redes sociais. Uma parceria com o brasileiro DJ Zullu resultou em um remix da música, trazendo uma fusão do Funk brasileiro e das melodias de Yamê.
Para Anaïs Fléchet, o remix de “Bécane” é um perfeito exemplo de como devemos visualizar a relação Brasil-França daqui para frente. “Temos que pensar nisso não somente como uma relação bilateral entre os dois países, mas como uma relação multilateral que inclui a francofonia. Então, a África francófona e os músicos que tem essa relação com a África — sejam músicos franceses de origem africana ou músicos africanos mas com longas temporadas na França —, eu acho que eles vão ser muito importantes para o futuro dessas relações Brasil-França”, ressaltou a historiadora.
Celso Boianovsky, apaixonado pela cultura francesa, contou que o interesse passa, também, pelas canções da cantora franco-maliana Aya Nakamura, que se encaixa no R&B (rhythm and blues) — gênero com influências de soul, funk e hip-hop.
“Tenho curtido bastante cantores bem jovens, que fazem rap e alguns outros estilos também, que eu acompanhei a ascensão, e que se transformam em grandes ícones. Um exemplo é a Aya Nakamura, que é africana de origem. Ela, inclusive, foi uma das cantoras na abertura das Olimpíadas de 2024, em Paris”, destacou.