Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, A voz de Hind Rajab, dirigido por Kaouther Ben Hania (O homem que vendeu sua pele), reconstrói um episódio real ocorrido durante a guerra em Gaza, em janeiro de 2024. A produção acompanha o trabalho de atendentes do Crescente Vermelho Palestino durante uma tentativa de resgate que mobilizou equipes de emergência e ganhou repercussão internacional.
Ambientado na maior parte do tempo dentro de uma central telefônica de emergência na Cisjordânia, o longa utiliza uma ligação real como eixo narrativo para acompanhar os esforços de socorristas que tentam resgatar uma criança presa em um carro após um ataque.

Trama
Na central de atendimento do Crescente Vermelho Palestino, operadores recebem chamadas vindas da Faixa de Gaza. O ambiente apresentado ainda no início do filme revela uma rotina marcada por ligações constantes, pedidos de ajuda e a tentativa de resgates em meio a uma infraestrutura fragilizada pela guerra.
Confira o trailer de “A Voz de Hind Hajab”
A voz de Hind
Entre os atendentes está Omar (Motaz Malhees), que atende a uma ligação envolvendo uma família escondida dentro de um carro no bairro de Tel Al-Hawa. Durante a chamada, tiros interrompem a comunicação e os passageiros do veículo são mortos, encerrando abruptamente o contato.
Pouco depois, surge a informação de que uma criança de seis anos permanece viva dentro do automóvel. Ao conseguir contato novamente, Omar escuta, pela primeira vez, a voz de Hind Rajab Hamada.

A partir desse momento, o roteiro organiza a narrativa em torno dessa ligação — baseada no telefonema real feito por Hind durante o ocorrido — que passa a estruturar a narrativa. A voz da menina passa a conduzir o desenvolvimento dramático do filme enquanto a equipe tenta organizar o resgate.
Direção e Roteiro
A escolha de acompanhar os acontecimentos, principalmente a partir do interior da sala de atendimento, cria uma perspectiva guiada pelos relatos da própria menina e pelas informações que chegam aos operadores.
O uso de espaços restritos e da construção de tensão por meio do som — com telefones tocando, explosões ao fundo e diálogos simultâneos — contribui para criar a sensação de urgência que atravessa a narrativa.
Enquanto Hind descreve a situação dentro do carro, a equipe tenta obter autorização para deslocar a última ambulância disponível no norte de Gaza. A operação envolve protocolos de coordenação, comunicação com equipes de campo e a definição de rotas consideradas seguras para o deslocamento dos socorristas, processo que depende da liberação do Exército israelense, da mediação da Cruz Vermelha e de um sinal verde para a circulação da ambulância.
A interpretação dos atores é fundamental para traduzir a tensão e a vulnerabilidade presentes na história. A atuação de Motaz Malhees (Omar) mostra um personagem que reage de forma impulsiva diante da urgência da situação, mas que, ao longo do filme, se revela profundamente humano. É impossível não se comover com esses sentimentos que parecem fluir naturalmente diante da tragédia que se assiste.
A supervisora Rana (Saja Kilani) assume a condução da chamada em diversos momentos, tentando manter a menina calma enquanto as negociações para o resgate se prolongam. Paralelamente, o filme também apresenta o impacto emocional desse tipo de trabalho sobre os profissionais da central. A atuação de Kilani mostra uma tentativa frustrada de manter a criança calma enquanto sente a própria ansiedade crescer junto. É visível que ela se envolve profundamente, tornando a emoção da cena quase sufocante. A atriz faz sentir o desespero de querer sustentar alguém em meio ao caos e não poder.
O papel da terapeuta Nisreen (Clara Khoury) é fundamental para intermediar a situação e oferecer apoio à equipe, que, após aproximadamente três horas de ligação tentando acalmar a criança e coordenar o resgate, também demonstra sinais de desgaste emocional. Khoury revela em cada gesto e olhar a luta para não se deixar consumir pelo sofrimento ao redor, tornando palpável a humanidade da personagem diante do caos.
O longa constrói uma experiência marcada pela tensão constante e pela sensação de impotência que acompanha esses atendentes. Nesse contexto, a presença de uma criança descrevendo o cenário ao telefone reforça o contraste entre a inocência da infância e a violência do ambiente em que a história se desenrola.
À medida que a ligação continua, a equipe finalmente consegue definir uma rota para o envio de uma ambulância. O deslocamento, no entanto, enfrenta novos obstáculos ao longo do trajeto. Nesse contexto, Mahdi (Amer Hlehel), responsável pelo departamento, transmite a frustração de coordenar um resgate que depende de tantas variáveis fora de seu controle. Cada decisão e hesitação refletem o peso da responsabilidade e o cuidado em proteger as equipes enviadas ao campo. A atuação deixa evidente a urgência e a impotência que invadem toda a operação, reforçando o desgaste emocional que ecoa em todos os personagens.
A espera se transforma em um processo progressivamente angustiante, reforçando a sensação de demora e incerteza que atravessa toda a sequência. A narrativa expõe o conflito e acompanha personagens que, mesmo limitados por protocolos e riscos, tentam manter a comunicação e a esperança.
O resultado é um retrato duro de uma realidade em que o horror da guerra se revela de forma direta, sustentando uma atmosfera de desconforto que atravessa o filme até os créditos finais.
No desfecho, o filme incorpora registros e informações documentais sobre o caso. Ao mesclar a narrativa ficcional com imagens reais do ocorrido, a produção amplia o impacto emocional da história e reforça que o episódio retratado não pertence apenas ao passado recente, mas a um conflito que permanece em andamento.
Ficha técnica
Título: A voz de Hind Rajab
Direção e Roteiro: Kaouther Ben Hania
País: Tunísia
Ano: 2025
Duração: 1h29
Elenco: Motaz Malhees, Saja Kilani, Amer Hlehel, Clara Khoury
Gênero: Drama / Guerra
Classificação indicativa: 14 anos
Por Cecília Péres


