Um biombo e um cabide preenchem o palco. As luzes se apagam e o suspense toma conta do ambiente. Olhos perdidos se encontram na figura central: Javier Liñera Peñas. Embalado por um sobretudo preto e um lenço na cabeça, a mala que antes era carregada por ele, descansa no colo de diferentes espectadores, até ser trocada de lugar novamente. O ator espanhol domina o tablado sozinho interpretando todos os papéis apresentados. O espetáculo “Barro Rojo” (barro vermelho), encenado inteiramente em espanhol, denuncia a LGBTfobia do regime franquista no período ditatorial daquele país e integra o festival Cena Contemporânea, que vai até o dia 3/9.
A peça espanhola “Barro Rojo” foi escrita e interpretada unicamente por Javier Liñera Peñas. Com direção de Daniela Molina e Linda Wise, a montagem foi premiada como Melhor Espetáculo do Festival Indifest em 2016. Surgiu pela curiosidade do ator em denunciar campos de concentração da Espanha de Franco. “Depois da Camboja, a Espanha é o segundo país com mais mortos na ditadura, e nós não estudamos isso. Até existe lei de memória histórica, mas não há recursos econômicos para ser executada”, explica Javier.
Memória
No enredo, passado e presente são intercalados pela história do protagonista e seu tio, ambos gays. A história se passa principalmente em flashback, recheado de simbologias e semiótica. Para o ator, a importância da criação de um paralelo temporal é auxiliar os espectadores nas reflexões. “É importante ter memória do passado para conseguirmos pensar no futuro”.
A conexão com os espectadores é feita desde o início, com a quebra da quarta parede. Ao longo da peça, objetos como lagartixas de borracha e gelo são utilizados discretamente para representar presos das ditaduras. Com música, emoção e alívios cômicos, a obra acaba com um balde d’água fria e ao mesmo tempo uma crítica contundente às estruturas familiares tradicionais.
Turnê
Para a estudante de artes cênicas Marianne Marinho, 24 anos, a obra pode ser descrita como bonita, forte e chocante. Para ela, a construção poética da peça ajuda na experiência de quem está assistindo. “É um comparativo. Ao mesmo tempo que as agressões aconteceram nas duas histórias em contextos diferentes [do protagonista e do tio], é como se os dois tivessem vivido a mesma represália”.
Além do Brasil, o espetáculo vai ser apresentado, neste ano, no Chile, Equador e França. Apesar de diferentes contextos políticos-econômicos, Javier acredita que as relações estabelecidas em cada apresentação são positivas, pelo fato de que a maioria dos países latino-americanos terem sofrido ditaduras. “No Chile, campos de concentração eram muito parecidos com os espanhóis, e os espanhóis copiaram os alemães. Lembrando que agentes alemães iam para a Espanha e prisioneiros espanhóis iam para os campos nazistas, era uma festa ditatorial”.
Por Beatriz Castilho
Imagem: Divulgação