Artistas e professores já aguardam há mais de dois anos o fim das obras no local
O Centro de Dança do DF, localizado no Setor Cultural Norte, permanece fechado e sem previsão de reabertura desde 2012. Professores universitários e dançarinos enquanto aguardam a reabertura do local, realizam mobilizações para divulgar a importância da dança e falta de espaço.
O professor de dança João Carlos Corrêa, 52 anos, é o coordenador do movimento Mexa-se: Brasília tem dança. O grupo surgiu no ano passado com o objetivo de tornar a dança no DF mais reconhecida e apoiar a decisão de políticas públicas na área.

Ele explica que o movimento foi inspirado pela mobilização dos alunos do IFB. “Se até os alunos estavam se mobilizando pela dança, nós que somos patriarcas da mobilização da dança aqui no DF, estávamos parados, resolvemos nos mexer”, conta João Corrêa.
O coordenador relembra que o início do movimento ocorreu nas mídias sociais. “No dia em que lançamos o grupo Mexa-se no Facebook, em fevereiro de 2014, anunciamos antes que ocorreria essa mobilização, chamamos algumas entidades. No mesmo dia lançaram o edital de reforma do Centro de Dança”. O professor acredita que foi uma tentativa de desmobilizar o movimento, mas, segundo ele, o efeito foi o contrário: “Funciona? Então vamos em frente!”.
O movimento este ano realizou um ato na Torre de TV no Dia da Dança. “Realizamos essas mobilizações nesses locais exatamente para mostrar que falta espaço para a dança. O fechamento do Centro de Dança é exemplo disto”. A necessidade de espaços, de acordo com os argumentos do movimento, influencia também na formação cultural de plateia. “O Dia da Dança é uma data distrital, baseado na Lei número 90 do ano de 1997, do Deputado Alírio Neto, além de ser uma data internacional. “É uma data que marca as nossas lutas. Uma data de celebração, mas que tem esse cunho político.”.
João Corrêa afirma que o diálogo com o governo está “muito bom”. “Neste ano o Dia da Dança entrou no calendário oficial das comemorações do aniversário de Brasília. Foi uma parceria com a Secretaria de Cultura, que, inclusive, certificou a participação dos artistas”.
Histórico
Usado desde o final dos 80 para oficinas, cursos e workshops, o Centro de Dança abrigava inicialmente a Fundação Ballet do Brasil. Nos anos 90 foi ocupado por três companhias de dança (Proposta, Bethon e Grupo Stillo). Já abrigou também a Fundação Athos Bulcão e a Associação Cláudio Santoro.
Em 2009 o Centro entrou no organograma da Secretaria de Cultura. A partir deste momento o espaço pôde começar a receber recursos para ser reformado.
Em 2010 o local foi incorporado ao GDF. Doado pela Petrobras, o Centro tornou-se uma diretoria.
Com 207 m², o Centro possuía quatro salas disponíveis a sociedade. O espaço contava com cinco salas, sendo quatro destinadas a ensaios, montagens, oficinas e cursos da área de dança; uma sala voltada a programação especial e projetos da Secretaria da Cultura (todos da área da dança); e uma videoteca para exibição de palestras, vídeos, pesquisas, estudos e mostras.
Reivindicações
No governo passado, o grupo Mexa-se solicitou a reabertura do diálogo, reforma do Centro de Dança, a retomada do FAC (Fundo de Apoio a Cultura) a sua função original de atender o artista, a regulamentação da profissionalização do dançarino e também apoio para inserção no mercado de trabalho. Porém, segundo Corrêa, não obtiveram respostas.
Atualmente o coordenador participa de outro coletivo, o Dança DF em pauta. “Unimos pessoas dos outros grupos, com perfil de poder trabalhar com políticas públicas, e montamos outro coletivo específico para escrever as demandas. Agora no dia 29 de Abril, foi entregue ao Governador do DF propostas de mudanças do decreto do FAC que atendam a nossa área.”. João afirma que este coletivo vai continuar unido para apresentar novas propostas que atendam as demandas da dança.
“A reforma começou no ano passado, e neste ano já foi interrompida. O governo alegou falta de recursos. Estamos aguardando agora que eles apresentem um plano de trabalho, um organograma, para sabermos em que momento isso vai ser retomado”, afirma João.
João Corrêa acredita que falta reconhecimento do papel da arte na vida do cidadão. “Falta o Poder Público reconhecer que a arte não é só evento, diversão, afinal essas coisas são consequências de um trabalho. Um trabalho que atrai turistas, que abre um mercado de trabalho”, defende.
O professor acredita que, a partir do momento que o Poder Público tiver consciência do apoio necessário para a dança, essa vai ser a ação transformadora que vai ajudar a cidade a “sair do buraco” que ela se encontra hoje em relação a arte e a dança.
Entenda o caso
O Centro de Dança foi fechado no início de 2012 quando parte do teto de uma das salas cedeu, com isso a estrutura ficou comprometida. A previsão de obras era de aproximadamente um ano.
Em 2013 as obras não haviam sido licitadas. E em março de 2014 foi publicado um novo edital, com previsão de um ano de obras.
Agora, maio de 2015, as obras estão paradas. O espaço não recebeu previsão de reabertura.
Mobilização estudantil

A ex-coordenadora do curso de licenciatura em dança e atual professora no IFB (Instituto Federal de Brasília), Susellaine Martinelli, 45 anos, relembra quando a instituição utilizava o Centro de Dança: “Utilizamos o Centro de agosto de 2010 a janeiro de 2012, enquanto o nosso espaço ficava pronto. Nosso curso só foi criado graças à disponibilidade do Centro”.
Segundo ela recorda, estudantes do IFB se mobilizaram no Dia da Dança em 2013 em frente à Secretaria de Cultura, reivindicando uma pauta, porém não foram recebidos. O grupo com mais de 50 alunos em seguida, juntamente com outros artistas, realizaram um abraço coletivo no Centro de Dança.
Susellaine conta ainda que a Instituição sempre apoiou as reivindicações dos alunos. “O movimento estudantil começou a crescer, começaram a ter uma formação mais política, entendendo a necessidade de reivindicar”.
O professor e ex-coordenador Diego Pizarro, 32 anos, conta que a estrutura do local, há cinco anos, já era precária no momento que o IFB utilizou. “O chão era muito ruim, era direto no cimento. Isso prejudica as articulações dos dançarinos, pois o chão não absorve o impacto. Além disso, era muito quente”, afirmou.
Diego Pizarro comenta que há falta de espaços para a dança na cidade, a exemplo disto, muitos artistas acabam procurando o IFB. “A comunidade fica sem espaço para fazer os projetos de dança, logo eles começam a pedir as salas aqui”. Por isso, eles tiveram que criar uma política interna de cessão do espaço. “Todos os dias chegam pedidos, desde fisiculturistas a companhias de danças já estabelecidas na cidade, a variedade também é surpreendente”, conta.
Coreógrafa sem espaço
A coreógrafa Gisele Santoro, viúva do ex-maestro Claúdio Santoro, 76 anos, também sente as consequências da falta do Centro de Dança. O Seminário Internacional de Dança, projeto dela dentro da Secretaria de Cultura, ocorria frequentemente no Centro de Dança do DF. Desde o fechamento do local, o evento ocorre em locais não apropriados, como na área externa do Shopping Pátio Brasil e no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil).
A coreógrafa só consegue dar aulas atualmente graças a um convênio com a Orquestra do Teatro Nacional, que cede uma sala, além de uma academia que lhe fornece também um espaço.
A estudante e bailarina Beatriz Montenegro, 23 anos, sente diariamente as consequências do fechamento do Centro de Dança. “Faz falta ter um espaço adequado. No Teatro Nacional, onde faço aula, a sala que usamos foi feita para receber orquestras, não aula de dança. Além disso, há uma única sala do Teatro destinada à prática da dança, ela não atende a demanda, que é grande”, conta. Ela relembra que o Centro de Dança tem quatro salas, o que aumentaria a capacidade de atendimento aos artistas.

Gisele Santoro diz não estar otimista em relação ao atual governo e a reabertura do espaço. Para ela o principal fator para mudar a consciência da população e a noção da importância do Centro de Dança e de vários outros locais fechados que valorizam a arte (como o Teatro Nacional, Espaço Cultural Renato Russo, Museu de Arte de Brasília e o Polo de Cinema de Sobradinho) é a educação. “Quando digo isso me perguntam: “Só educação?”. Sim, pois educação vai muito além de só saber ler e escrever”, afirma.
Proibida a entrada
A reportagem visitou o Centro de Dança, porém o segurança do local não permitiu a entrada. O funcionário, que não se identificou, afirmou inicialmente que o espaço estava em obras. Entretanto, em seguida, disse que os trabalhos estavam parados.
A Assessoria da Secretaria de Cultura informou que a agenda do Secretário Guilherme Reis estava cheia e solicitaram que perguntas fossem enviadas por e-mail, o que foi feito há 15 dias. Até o momento da publicação desta reportagem, não houve resposta.
Por Daniella Bazzi


