Somando mais de 3 mil anos de tradição literária, é inegável que “A Odisseia”, escrita pelo poeta grego Homero, é um poema de diferentes possibilidades de leituras.
Só no último século, foram ao menos 15. Sem falar das traduções do texto original. Adaptações marcaram a evolução da linguagem cinematográfica.
Desde L’Odisseia (1911), mudo e em preto em branco, até E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), a releitura do clássico em uma viagem ao country dos Estados Unidos, já foram muitas versões.
Tendo isso em vista, a pergunta que fica é: o que o diretor Christopher Nolan pode trazer de novo para seu público em A Odisseia (2026), longa considerado um dos mais aguardados do ano?
Será que basta um elenco carregado de astros, ou até mesmo uma fotografia panorâmica capturada em câmeras IMAX, basta para fazer jus à mais conhecida história da Grécia antiga?
No final das contas, o cineasta não decepcionou as enormes expectativas que vinha alimentando.
A Odisseia é um longa com qualidade técnica impactante, atuações marcantes e um roteiro robusto, que entrega de forma coesa, mas não simplória, a história da volta de Odisseu a Ítaca.
Nolan, como esperado, não se reinventa. E isso pode causar a rejeição de espectadores pouco interessados pelo estilo cético do diretor.
Mas isso não tira o mérito de A Odisseia, nem como adaptação à obra original, nem como um épico digno de se assistir nas telonas.
Assista ao trailer de A Odisseia:
Viagem de um herói
Para quem não conhece a Odisseia, nem mesmo a sua premissa mais familiar, segue a sinopse da aventura épica: após batalhar na Guerra de Tróia, o rei de Ítaca Odisseu — desta vez interpretado por Matt Damon — enfrenta uma jornada árdua com o objetivo de voltar para casa.
Durante a peregrinação, que se estende por uma década, o herói enfrenta figuras da mitologia grega como o ciclope Polifemo, as sereias e a serpente de seis cabeças Cila.
No que diz respeito à narrativa, a principal característica positiva do longa “A Odisseia” é a forma como o roteiro de Christopher Nolan mescla tanto elementos da Odisseia original quanto da Ilíada, que também possui autoria atribuída à Homero.
Parece que, para Nolan, não bastava a peregrinação de Odisseu. O diferencial da sua visão é trabalhar os eventos, tanto políticos quanto psicológicos, que seguem à vitória dos gregos na Guerra de Tróia.
É o momentos onde o ator Elliot Page brilha, interpretando o guerreiro Sinão (que curiosamente não aparece na obra de Homero, e sim na Eneida, de Virgílio), representando a culpa de Odisseu pelos homens que morreram na guerra.
Também se destacam a interpretação dos pretendentes ao trono de Ítaca, em especial Antínoo, interpretado por Robert Pattinson.
Na nova versão da Odisseia, os interesseiros aspirantes ao trono abusam da chamada “Lei de Zeus”, princípio sagrado da hospitalidade, para festejarem e se aproximarem da rainha de Ítaca, Penélope (Anne Hathaway), dentro do próprio palácio.
Odisseu reimaginado
A impressão que fica é que Nolan, por meio do roteiro, busca criar uma história mais compatível com os dilemas morais modernos, sem necessariamente se preocupar na retratação fidedigna da cultura dos gregos antigos.
A realidade é que, nas histórias da antiguidade, Odisseu, Telêmaco, Penélope, Aquiles, que seja, não correspondem à ética da modernidade. Mas, mesmo assim, são retratados como exemplos de caráter a serem seguidos.
A modernização da Odisseia, portanto, não é movida só por uma filmagem mais tecnológica. Também é uma crítica daquilo que era utilizado como exemplo na Grécia, por interstício das próprias culpas de Odisseu.
Aqui, portanto, a Odisseia não é só a viagem do grandioso rei de Ítaca. É a jornada espiritual do homem que deve lidar com a responsabilidade da queda de Tróia, da morte de seus soldados e de ser o único homem a retornar de uma campanha militar avassaladora para o seu povo.
Por Artur Maldaner
Repórter assitiu ao filme a convite do EspaçoZ
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


