Uma obra cinematrográfica a serviço da memória. “Honestino” é um filme majoritariamente caracterizado como documentário, produzido com imagens e depoimentos raros, e com acréscimos de cenas ficcionais tendo o ator Bruno Gagliasso no personagem-título. A direção é de Aurélio Michiles. Ele e o ator apresentam o filme em pré-estreia no dia 12. A obra entra em cartaz no dia seguinte.
A prisão, desaparecimento e morte do universitário goiano Honestino Guimarães, da Universidade de Brasília (UnB), em 1973, marcou a história de um dos momentos de maior recrudescimento da ditadura militar no Brasil. A principal pauta de reivindicação de Honestino, como presidente da UNE inclusive, era a manutenção da universidade pública gratuita.
Depoimentos raros
A trajetória traz cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos, políticos e companheiros de militância, como Almino Afonso, Jorge Bodanzky, Franklin Martins e Betty Almeida, biógrafa do líder estudantil.

Um dos depoimentos raros é da mãe de Honestino, Maria Rosa Leite Monteiro. Ela é a principal vítima de uma ação cruel de agentes da ditadura que chegam a trazer esperanças de uma visita na cela,quando o rapaz estava preso. Mas os militares mostram uma sala com sangue.
O filme foi premiado já com o Troféu Redentor de Melhor Montagem no Festival do Rio. No 20º Fest Aruanda, conquistou os prêmios de Melhor Longa Nacional pelo Júri Popular, Melhor Edição, o Prêmio Abraccine de Melhor Longa-Metragem e o Prêmio Vladimir Carvalho, concedido ao melhor documentário do festival.

Os depoimentos reconstituem os momentos de tensão que viveu o aluno Honestino Guimarães e seus colegas. O rapaz loiro, de 18 anos de idade, de óculos de lentes grossas, olhos verdes e baixinho, é incorporado pelo ator entre as cenas documentais.
Os mais próximos mostram que Honestino ficou conhecido por ser carismático e engajado politicamente. Era inconformado com as injustiças e com a extinção de liberdades desde o golpe militar do ano anterior.
Pesquisa
A pesquisadora Betty Almeida, biógrafa do líder estudantil, no livro Paixão de Honestino, é uma das entrevistadas.
Ela avalia que Honestino quis tomar uma posição de luta pela defesa da universidade pública e gratuita contra os chamados acordos MEC-USAID, para encaminhar a universidade para privatização.
Para a biógrafa, os atos de memória, verdade, justiça e reparação ajudam a fazer com que a sociedade tenha conhecimento de que existiram essas pessoas. Na UnB, além de Honestino, há mais dois desaparecidos, Ieda Delgado e Paulo de Tarso Silva.
Assista ao trailer
Honestino nunca pegou em armas, mas seus protestos foram a “acusação” para que, quase quatro anos depois, fosse preso e expulso da universidade em que um dia sonhou estudar.
Por Luiz Claudio Ferreira*
Assistiu ao filme a convite da Sinny
“Ele era um estudante inspirador, que lia jornal todos os dias e devorava os livros. Boa parte daquilo que motivou o Honestino a se insurgir contra a ditadura, e a se tornar o líder, foi justamente a defesa do projeto da Universidade de Brasília”, afirma o sobrinho. Honestino, segundo aponta Mateus, defendia a universidade utópica, genuinamente brasileira, voltada para os problemas dos povos oprimidos ao redor do mundo. Com a homenagem, Honestino deve voltar aplaudido mais de 50 anos depois de ameaças, violências, prisões, morte e silêncios.


