O longa-metragem, ‘Sabes de mim, agora esqueça”, de Denise Vieira, ovacionado pelo público durante exibição na semana passado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, venceu em duas categorias no evento. A obra traz um cenário distópico na Ceilândia.
“Eu acho que é emblemático a gente estar em uma sessão com a sala cheia para assistir um filme do DF na maior sala pública de cinema do Brasil . A gente fez o festival acontecer”, destacou.

Ceilândia é cinema
O longa acompanha Rúbia, uma mulher em fuga que encontra abrigo em um cabaré que sobrevive à repressão dos Lanternas, agentes de um regime que persegue mulheres que vivem do sexo.
A produção parte de uma pesquisa realizada por Denise sobre profissionais do sexo na época da construção de Brasília. Filmado no centro de Ceilândia, o filme concentra quase todas as suas cenas em um prédio que, anteriormente, funcionava como cabaré.
A escolha da região administrativa não é por acaso. A diretora mora em Ceilândia há 12 anos e compõe o Coletivo de Cinema em Ceilândia desde 2010. Ela enfatiza a importância do cinema produzido na região e a necessidade de políticas públicas que ampliem sua distribuição para o DF e o entorno.
“É a gente que faz acontecer esse festival. Ele está acontecendo e a gente precisa avançar. A gente precisa de uma sala de cinema pública na Ceilândia e em todas as RAs”, defende.

Para além dos estereótipos
O filme também busca romper com a associação recorrente entre pessoas trans e a prostituição, trazendo outras possibilidades de representação para essas personagens.
A presença de atrizes trans no elenco reforça essa proposta e coloca em discussão os espaços que elas podem ocupar dentro e fora das telas.
Pietra Sousa, que deu vida à protagonista Rúbia, vê a participação no longa como uma oportunidade de ampliar a presença de pessoas trans no cinema. Depois de experiências no teatro e em curtas-metragem, a atriz conta que chegar a um longa exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro trouxe um frio na barriga, mas também muita esperança.
“Muitas coisas estão mudando e outras já mudaram. Corpos parecidos com o meu já conseguem certo destaque, e eu espero que as portas se abram mais ainda” , afirma a atriz.
O olhar do público
O sentimento de que o festival representa muito para a cultura de Brasília é compartilhado por Mariana Nunes, de 45 anos, que acompanha o evento há 30 anos. Nesta edição, ela convidou a amiga Diana Cup para conhecer o evento.
“Sem esse festival aqui, eu nem sei o que seria. Realmente seria muito triste, poderia ser até uma fatalidade para o mundo da cultura” , destaca Mariana.
Ela acredita que a experiência cinematográfica pública fora do Plano Piloto ainda é insuficiente e defende que a divulgação e a programação do evento deveriam abranger mais cidades satélites.
“Ainda acho que é muito pouco. Acredito que tem que chamar mais o pessoal da periferia e das comunidades para vir pra cá e pra sentir isso aqui. Isso aqui é cinema, cinema do Brasil”, afirma.
Diana também compartilhou suas impressões sobre a realização e sobre o espaço que ela ocupa na cultura da capital.
“É um local especial, histórico, e eu acho que peca pela divulgação. Eu mesma vim porque ela falou, não vi nas redes sociais. Se passou na televisão, foi muito pouco. Acho uma tristeza, porque é muito importante para a cidade” , afirma.

Por Beatriz Ocké e Cecília Péres
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


