
Um sonho que surge quando jovem, uma história romântica de objetivos claros. Ao contar histórias, novos cineastas trilham a própria narrativa. Ação! Esses personagens saem em busca do estrelato, vindos de Brasília, o caminho já se torna mais melancólico, a dramaticidade da história aumenta e atrai mais olhares. E é assim mesmo: os cineastas Rodrigo Peres e Ana Carolina Nicolau, dois representantes do arquétipo de guerreiro, jovens brasilienses em busca de um sonho, ambos premiados e conhecidos no circuito de Brasília. Mas como em toda jornada, existe o momento de crise, aquele que, quando superado, leva à recompensa.
Corta! Nessa história, a crise é representada pela burocracia e os custos para se inscrever e participar de festivais no Cine Brasília, “O templo do cinema brasiliense”, como diria o futuro conselheiro nessa jornada. Esses festivais, para essas pessoas, representam a porta de entrada para o glorioso mundo dos cineastas profissionais, que podem finalmente contar com incentivos para produção.
Close no Rodrigo
“Eu poderia ter investido em um curso, ou quem sabe em equipamentos, matérias, etc (…) mas tudo isso valeu a pena”. Com um investimento próprio de mais de R$ 6 mil, o cineasta brasiliense Rodrigo Peres conseguiu produzir um curta metragem premiado no Festival de curtas que ocorre no Cine Brasília. O curta campeão de Rodrigo surgiu como um trabalho de conclusão de curso. Foi um investimento que Rodrigo fez sem qualquer incentivo financeiro e que depois de ser nomeado campeão também não recebeu nenhum tipo de premiação.


“Sempre foi uma coisa dos meus amigos da faculdade. Criar um curta ou longa metragem universitário que fosse capaz de transcender o universo da faculdade”.
Mesmo sem a premiação, Rodrigo considera que ganhar um festival pode representar a abertura de portas para eventos maiores mesmo em Brasília, que já apresentam retornos financeiros. “Assim que você participa do primeiro festival grande, o resto fica mais fácil”. Para ele, mais importante do que o dinheiro, é a visibilidade. “Os festivais de Brasília são uma ótima forma de se lançar. Mesmo não ganhando o festival, só o fato de participar já te ajuda a mostrar seu filme para outras pessoas”.
Mas existe um grande obstáculo, principalmente para os amadores. “Os festivais de Brasília, em geral, são muito burocráticos”. Ele reclama que muitos festivais ainda pedem que os filmes sejam mandados em mídias físicas e que documentos sejam entregues impressos. “É um gasto muito grande”. Para ele, há um exagero no pedido de documentos, o que não ocorre em festivais internacionais, por exemplo.
A vontade de se tornar um cineasta não foi abalada pela burocracia ou pelos altos custos de se produzir um filme independente. Além de ter gasto os R$ 6 mil em um filme, há outras demandas que oneram a vida de um cineasta em início de carreira.
Close na Ana

Para Ana Carolina Nicolau, de 22 anos, tudo começou quando ela passou a comprar DvDs dos filmes, não para assisti-los, mas para acompanhar o making-off das produções. Como em um filme, ela percebeu que queria ser cineasta e a vontade de contar histórias a faz continuar lutando por um espaço no meio.
Ela já produziu um longa metragem e agora, mais recentemente um curta metragem, ambos para disciplinas da faculdade. O último “Como Largar de Palhaçada” (2015) foi premiado em festivais fora do DF e até no exterior, um festival na Espanha (Marbella) . Detalhe: ela nunca foi premiada ou foi selecionada para participar de algum festival brasiliense. Para Ana Carolina, isso se deve as limitações técnicas que um filme de baixa verba tem. “Sem apoio, é difícil ter bons cenários, equipe, etc”. O curta custou R$ 4 mil para ser produzido. A maior parte do recurso (R$ 3,3 mil) veio de um fundo coletivo na internet. Os R$ 700 restantes foram pagos por ela mesma.

Assim como Rodrigo, Ana reclama do processo de inscrição nos festivais da capital. No caso dela, se tornou algo completamente desestimulante, já que teve inscrições negadas por não ter todos os documentos necessários. Hoje em dia, tem evitado completamente os festivais que ocorrem no Cine Brasília. A cineasta trata disso abrindo uma grande pasta com todas as cópias e documentos que normalmente são pedidos… “ É difícil ter que recolher cópias da identidade de todos que participaram do meu filme”.
Verbas
O programador do Cine Brasília, Sérgio Moriconi, explica que toda essa burocracia existe, pois os festivais promovidos pelo espaço recebem verbas do governo e, como podem existir premiações em dinheiro, é importante que tudo esteja em ordem. “Sempre tem um braço do governo (…) É importante prestar contas”, explica. Ele assume que muitos filmes acabam não participando das seleções devido a problemas em inscrições. Ele nega que a burocracia exigida seja exagerada, como reclamam os cineastas entrevistados para esta reportagem.
Oportunidades no Cine Brasília
“O cine Brasília é um templo”. Para Moriconi, os prêmios são “grandes janelas” em Brasília para os jovens cineastas. Sérgio já foi da comissão de curadoria e da coordenação do festival de Brasília e ele enfatiza que são priorizadas as produções locais. O evento tem tido uma média de 300 inscrições por edição. Para ele, isso é um reflexo de como o festival inspira a produção cinematográfica no DF.
Sérgio explica que o Cine Brasília sempre busca trazer filmes e mostrar de países diferentes para Brasília e assim, “ajudar na formação do público”. Publico esse que também pode apoiar a cena local. “É um festival (O festival de Brasília) muito consagrado”.

O sonho continua
E é assim que a trilha continua a ser traçada. O guerreiro deve encontrar uma forma de superar a crise. Cineastas como Ana e Rodrigo têm buscado crescer diante de cada buraco. Eles são jovens, sabem que sempre pode existir outro caminho.
Para os entrevistados, as oportunidades aumentam. A própria internet ajuda as pessoas a mostrar seus filmes. A possibilidade de fazer e mostrar tem colaborado para elevar a paixão pelo cinema: festivais on-line, sem burocracia e sites especializados em unificar as inscrições são exemplos apresentados tanto por Rodrigo, como pela Ana.
Além disso, já surgiram em Brasília eventos focados em mostrar e difundir curtas e filmes da capital. “Cineme-se”, “Cine e cerveja” e o festival “Groselha” são alguns desses espaços onde cineastas podem mostrar seus filmes para um público que tem lotado as exibições, “ Meu filme já passou em alguns lugares aqui em Brasília e eu acredito que isso não teria acontecido há seis ou sete anos “, diz Rodrigo.
Fundo de apoio
Cerca de R$ 22 milhões foram disponibilizados em 2016 pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC) (foi a maior de todos os anos) para a linguagem audiovisual. Entretanto, a burocracia para o incentivo à distribuição do conteúdo produzido é evidente ao analisar a quantidade de medidas e processos necessários para se conseguir ajuda estatal.
O aluno de cinema João Pedro Mansur defende que existe a produção dos filmes, porém a reprodução é quase inexistente. “O FAC tem edital para os alunos, mas nunca vi edital para distribuição. Os filmes estão sendo feitos. Há editais para se fazer filme, mas não há o incentivo para a reprodução do conteúdo”, afirma.
De acordo com a Instrução Normativa (IN) de 01/2013 do Ministério da Cultura, as propostas culturais deverão conter medidas de acessibilidade e de democratização do acesso da sociedade aos produtos. A norma caracteriza como “medidas que promovam acesso e fruição de bens, produtos e serviços culturais, bem como ao exercício de atividades profissionais, visando a atenção às camadas da população menos assistidas ou excluídas do exercício de seus direitos culturais por sua condição socioeconômica, etnia, deficiência, gênero, faixa etária, domicílio, ocupação, para cumprimento do disposto no art. 215 da Constituição Federal”.
Para o incentivo à distribuição na Lei do Audiovisual, o projeto deve conter documentos que comprovem o interesse comercial do filme (carta de interesse no licenciamento da obra, carta de intenção de empresa distribuidora e carta de intenção de empresa exibidora), conforme disposto no Artigo 36 – C na IN 22 de 2003.
Por Arthur Menescal e Rodrigo Barreto
Sob supervisão de Luiz Cláudio Ferreira.


