Apesar de ter passado despercebido pelas categorias de melhor filme e direção do Oscar de 2026, Blue Moon (2025), longa de Richard Linklater, lança o já renomado Ethan Hawke para sua quinta nomeação pela Academia, mas, desta vez, como o candidato azarão ao prêmio de melhor ator.

Hawke já havia participado da premiação anteriormente como candidato a ator coadjuvante, por seus papéis em Dia de Treinamento (2001) e Boyhood: Da Infância à Juventude (2014), e melhor roteiro adaptado por Antes do Entardecer (2004) e Antes da Meia-Noite (2013) — respectivamente, os capítulos dois e três da trilogia “Before”, na qual também atuou, em parceria com Julie Delpy e sob direção de Richard Linklater.
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Desta vez, a parceria Linklater-Hawke aparece mais uma vez no Oscar, com o objetivo de surpreender o público e superar os favoritos Timothée Chalamet, por Marty Supreme, Michael B. Jordan, por Pecadores, Leonardo DiCaprio, por Uma Batalha Após a Outra, e o brasileiro Wagner Moura, por O Agente Secreto.
Apesar de inesperada, a indicação de Blue Moon não ocorre por acaso: Ethan Hawke se destaca em um roteiro repleto de diálogos bem pensados (que também rendeu uma indicação na categoria de melhor roteiro original para Robert Kaplow), mostrando que uma boa atuação não depende de uma narrativa estimulante e, neste caso, nem mesmo de um filme robusto.
Música e solidão
Blue Moon mostra uma noite da vida de Lorenz Hart (Hawke), compositor e letrista de peças da Broadway. Metade da dupla Rodgers e Hart, o protagonista se encontra na estreia do espetáculo Oklahoma!, o primeiro trabalho independente de seu parceiro Richard Rodgers (Andrew Scott), após 25 anos de colaboração entre os personagens.
Enquanto lida com o sentimento de abandono profissional, Hart, homem de 47 anos, espera entusiasmado pelo encontro que terá com a estudante de Yale Elizabeth Weiland (Margaret Qualley), de 20 anos de idade.
O filme, apesar de seguir personagens que trabalharam no show business americano dos anos 40, adapta a história real de Lorenz Hart para as telas de forma ficcional.
Assista ao trailer de Blue Moon:
A estética do diálogo
Oposto às fórmulas de filmes hollywoodianos, Blue Moon faz parte do gênero pouco explorado de filmes de conversação, onde a história é mediada pelas interações entre personagens. Não há reviravoltas, apenas diálogos.
O diretor Richard Linklater é uma das principais referências deste tipo de narrativa, responsável pela trilogia Before Sunrise, Sunset e Midnight, que segue as conversas de um casal em diferentes cidades europeias.
Já em Blue Moon, a proposta de Linklater é conter o filme a apenas uma localidade: um salão de hotel que recebe os diferentes personagens e acontecimentos. Além disso, as conversas também são restritas — Lorenz Hart, apesar de muito bem interpretado, sobrepõe qualquer outra participação e conduz a narrativa quase em forma de monólogo.
A ideia de fazer um longa-metragem de conversação dentro de um único espaço não é nova, e já foi cumprida com maestria em My Dinner with Andre (1981), de Louis Malle, onde o reencontro de dois antigos amigos rende devaneios profundos e filosóficos, criando na mente do espectador universos que dispensam a exibição de flashbacks em cenários muito elaborados.
Com seus filmes de conversação, enquanto Linklater prospera em locações abertas e urbanas, como na trilogia Before, em que os arredores agregam valor às ideias representadas nos diálogos, ele tropeça nas limitações auto impostas em Blue Moon e cria um sentimento claustrofóbico para o espectador.
O desconforto do diretor é aparente e transborda para a câmera, que alterna constantemente em seus enquadramentos e forma uma filmagem viciada, sem intenção.
Enquanto isso, na narrativa, momentos raros de interação com personagens além do protagonista trazem perspectivas novas para o público e um ar fresco ao imaginário do filme, mas, no geral, apesar de Ethan Hawke mostrar as emoções de Lorenz Hart de forma meticulosa, a onipotência de seu papel afoga a tela.
Muito além de um “underdog”
Em um personagem extrovertido, brilhante, verborreico e profundamente depressivo, o azarão do Oscar de 2025, Ethan Hawke, mostra mais uma de suas faces como ator. É nas expressões do protagonista que o longa se constrói, e entendemos melhor o drama do compositor da Broadway.
Com um ano de 2025 muito produtivo, Hawke estrela em três produções distintas. Além de Blue Moon, vive o papel coadjuvante de vilão na sequência O Telefone Preto 2, destacando-se na caracterização de serial killer.
Também protagonizou a série de televisão Verdade Oculta (disponível no Disney+), que, apesar de ser bem recebida pela crítica, passou despercebida pelo público nos catálogos de streaming. Nela, Hawke vive um jornalista investigativo obcecado, que se vê no meio de uma conspiração sinistra no estado de Oklahoma.
É nessa sequência certeira de produções que o ícone cult volta a competir no topo do prêmio da academia, que ocorre em 15 de março, com a esperança de se consagrar entre os gigantes da atuação norte-americana e ultrapassar os novatos que tomaram conta da corrida de premiações neste ano.
Ficha técnica
Título original: Blue Moon
Direção: Richard Linklater
Roteirista: Robert Kaplow
Elenco: Ethan Hawke, Margaret Qualley, Andrew Scott
Gênero: Drama psicológico
Duração: 1h54
Por Artur Maldaner
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


