
Sete contos e o suporte de apenas uma estrutura feita de bambu como cenário. É assim que os atores-palhaços Rodrigo Matheus e Ronaldo Aguiar, da companhia Circo Mínimo, narram as aventuras do marujo árabe Simbad. Durante o espetáculo, os bambus se transformam em navio, baleia, asas de pássaro, canibais e gigantes. Os atores criam mundos, ilhas, tempestades e perigos com a manipulação das varas, que também são utilizadas como suporte para acrobacias circenses. Tudo isso é feito com a intenção de estimular a criatividade e imaginação da plateia, formada principalmente por crianças acompanhadas de seus familiares. “Teatro lida com imaginação. A gente tem que brincar com a imaginação do público”, explica Rodrigo, que interpreta Simbad no espetáculo. Ronaldo é o responsável por dar vida a todos os outros personagens.
Eles passam a apresentação toda se confrontando, com jogos de adivinhações e combinados, em um clássico conflito de dois artistas mambembes que passam por várias cidades contando histórias e brigando para ver quem será o herói. Segundo os atores, a peça trabalha com desejos capitais, trazendo ao final a reflexão sobre a ambição material. “A maior riqueza são as aventuras e os aprendizados”, finaliza Simbad, ao voltar pra casa e dividir toda sua riqueza com seu povo.
A ideia de montar um cenário todo de bambus foi inspirada por um brasiliense. Rodrigo conheceu o projeto de Marcelo Rio Branco, o Integral Bambu, e decidiu criar um espetáculo só com as estruturas feitas pelo brasiliense. Após passar três dias estudando cortes, formas de queimar e de tratar o bambu, veio a construção da arquitetura que auxilia os artistas na peça. Confira entrevista com os artistas da peça:
“Fazer teatro é um ato político”, afirma Ronaldo. Para ele, a cultura enfrenta constantes dificuldades. Ele lembra da problemática do fechamento do Ministério da Cultura e sua reabertura motivada por pressão popular. “A gente precisa de uma mudança para fazer com que a arte chegue a todos os lugares”, sugere, ao criticar a atual forma de atuação da Lei Rouanet. “A arte é o espaço da aceitação e o teatro é o lugar do diálogo”, conclui Ronaldo.
“A cultura é a alma de um País”
Apesar de não ter nenhuma pretensão diretamente política, em meio aos jogos de combinados entre os personagens, Ronaldo não deixou de alfinetar o Congresso Nacional. “Quem não cumpre o combinado é o Congresso Nacional, né?”, instigou a plateia e recebeu aplausos. O espetáculo é cheio de mensagens sobre a preocupação com o próximo e traz questionamentos como “de que adianta toda a riqueza se a gente não tem água nem comida?”
“Algumas coisas só existem para serem admiradas”, diz o personagem Simbad, ao contar uma de suas aventuras. No entanto, o espetáculo vai além da admiração da plateia. O público participa e completa as falas dos atores, em meio a risadas contagiantes. As crianças aprendem com as aventuras de Simbad e com a relação entre os atores.
Simbad, o Navegante é um espetáculo inspirado pelas aventuras descritas na história clássica de As Mil e Uma Noites, de Laurence Housman e Muhsin Mahdi. O texto é assinado por Alexandre Roit, Rodrigo Matheus e pela também diretora do espetáculo Carla Candiotto. Assim como o marujo Simbad, que sempre retornava para Bagdá mais rico, seja de tesouros ou experiências, após o espetáculo, o público volta para casa com muito mais riqueza que quando partiu.


