O músico brasiliense LyNDoN Lima Fraser, de 30 anos, filho de mãe solo, cresceu no Riacho Fundo. Na memória, ficaram os sinais de um tempo duro: a violência bateu perto de casa, o tráfico ao lado do quintal, a mãe sustentando sozinha dois filhos, o medo como companhia cotidiana.
Diante disso, a mãe de LyNDoN tomou a decisão que tantas mulheres brasileiras conhecem na pele: sair para salvar. Mudou-se com os filhos para uma quitinete na 504 Sul, um cômodo pequeno onde cabiam apertados os móveis, os sonhos e a coragem.

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Foi ali, em poucos metros quadrados, que começou a se desenhar o artista. Na quitinete não havia luxo, mas havia som. Um rádio cinza, de duas caixas embutidas, tocava CDs e fitas. Era suficiente para abrir janelas invisíveis. Whitney Houston, George Benson, Tim Maia. Depois viriam Michael Jackson, Akon, 50 Cent, Kanye West. A música entrava pela sala e ocupava tudo. Enquanto o mundo oferecia limites, aquelas canções ofereciam horizonte.
Sem computador em casa, sem videogame, sem acesso fácil às novidades, LyNDoN desenvolveu outro tipo de riqueza: o anseio cultural. Ia à casa de amigos que tinham internet, gravava músicas em CDs virgens comprados nas Americanas, voltava para casa e ouvia repetidamente cada faixa. Decorava horários de rádio para esperar tocar o que gostava. Em tempos de abundância digital, parece pouco. Naquele tempo, era devoção.

A escola pública do Plano Piloto lhe deu algo raro: oportunidades. A Escola Parque ampliou seus sentidos. Entre aulas de teatro, pintura, música e esporte, LyNDoN percebeu que a arte não mora só no palco, ela também vive no gesto, no corpo, na cor, na palavra.
Fez aula de pintura em tecido em Santa Catarina, experimentou escultura em argila, recitou poemas em sala de aula. Uma professora ou outra, uma diretora, uma coordenadora, uma funcionária simpática: pequenos encontros ascendeu o que ainda não tinha nome.
Rap do Lyndon
Na adolescência, o rap chegou não como trilha sonora, mas como chamado. Primeiro veio a MTV, os clipes, a estética, a força visual. Depois veio o impacto maior: ouvir Emicida rimar em português. Ver um homem negro no palco, dono da própria narrativa, senhor da própria inteligência, foi mais que entretenimento. Foi espelho. O show de Emicida em Brasília, assistido quase por acaso, virou rito de passagem. Depois dele, nada seria igual.
No CEMEB, o tradicional Elefante Branco, começou a rimar com colegas na sala de aula, ao improvisar sobre batidas de funk feitas na boca. Criou a Batalha da Rampa, participou de batalhas pelo Distrito Federal, enfrentou nomes da cena local, perdeu, ganhou, voltou, insistiu. Como acontece com tantos jovens periféricos, a rima virou linguagem antes de virar profissão.
Mas houve também perdas. Um dos amigos que o apresentou a esse universo morreu depois de se envolver com o crime. A vida, como sempre, cobra caro dos meninos pretos.

Em 2019, no Rio de Janeiro, sozinho numa praia, tomou a decisão definitiva: faria música. Não como passatempo, não como fantasia, mas como destino escolhido. Entrou em estúdio, gravou pela primeira vez, lançou singles em 2020 e começou a construir carreira em plena pandemia. Vieram prêmios, reconhecimento local, shows, viagens, parcerias importantes e o nome crescer na cena do Distrito Federal.
Nenhuma conquista explica completamente quem Lyndon se tornou porque sua história não é apenas sobre vencer é sobre transformar carência em linguagem. Fazer da ausência paterna uma busca por identidade. Fazer da quitinete uma escola estética. Fazer do racismo estrutural uma fonte de autoestima ao reconhecer a grandeza negra dentro da cultura hip-hop. Fazer da dor matéria-prima sem permitir que ela vire cárcere.
Ato político
O cantor aprendeu com o rap que conhecimento também é elemento da cultura. Aprendeu com Racionais que narrar a realidade é um ato político. Aprendeu com Emicida que somos o que somos e que inteligência preta pode ocupar qualquer palco. Aprendeu com a própria mãe que amor, muitas vezes, tem a forma prática de pagar aluguel, mudar de bairro e não desistir.
Hoje, fala de música, como que de uma velha amiga estranha do cantor porque sabe tudo sobre sua vida enquanto ele ainda sabe pouco sobre ela. Talvez seja essa a definição mais bonita de arte: aquilo que nos conhece antes mesmo de nos entendermos.
E se existe um fio invisível que costura toda a trajetória do Riacho Fundo à Asa Sul, do rádio cinza ao palco, da batalha escolar aos prêmios culturais esse fio atende por persistência. Num país onde tantos talentos morrem anônimos, Lyndon escolheu sobreviver em voz alta.
Por João Pedro Carvalho
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


