Já nas primeiras sequências do filme, “Sirat” te transporta imediatamente para essa imagem anárquica e quase fantasiosa de um mundo que é preenchido com uma sensação de liberdade e vazio. Durante a jornada que acompanha Luis (Sergi López) e seu filho (Bruno Núñez), que saem rumo ao deserto no norte da África, em busca de pistas da filha e irmã desaparecida, esses sentimentos se mantêm cada vez mais amplificados e complexos ao sugerirem as consequências (tanto positivas quanto negativas) que eles provocam na vida de alguém.

Quando os familiares chegam em uma rave apocalíptica no meio do deserto do Marrocos, só se sabe que estão à procura de sua parente desaparecida. Detalhes sobre a vida desses personagens antes do início do longa, ou qualquer contexto sobre sua situação é deixado de fora.
Menos ainda se sabe sobre o grupo de festeiros ao qual eles se juntam, em direção a uma outra rave, bem mais distante, que eles acreditam que possa ter pistas sobre a filha perdida. Essa falta de informação não é um simples descaso, ou preguiça, do roteiro, e sim uma lacuna proposital na história, pois pouco importa quem são essas pessoas, somente interessa a forma com a qual elas lidam com o mundo.
Confira o trailer de “Sirat”
A partir dessa premissa, inicia-se um trajeto brutal e carregado de metáforas mitológicas, que castiga de maneira severa os personagens pela exata maneira de vida que é romantizada durante a primeira metade da película.
Os festeiros são despreocupados e tiram proveito ao máximo do que lhes é proporcionado, impressionando o pai e filho com sua maneira livre e simples de viver, dançando sem pudor ao som de músicas eletrônicas imprevisíveis que “nunca emitem a mesma combinação de som”, de acordo com o filme. A fotografia e imersão do filme transmitem exatamente essa filosofia, sendo impressionantes e grandiosas, ao mesmo tempo que quase sempre vazias.
Entretanto, o tom da história muda completamente quando uma tragédia imensurável afeta o grupo, levando a uma sequência de infortúnios que castigam os personagens, por serem demonstrações e consequências diretas da brutalidade e guerra que perduram no mundo, mesmo que você as escolha ignorar.
Nesse sentido, o filme perde muitos espectadores, que encaram a escolha do diretor como uma maneira baixa e pouco respeitável de chocar quem está assistindo, o que não é absurdo de se concluir, pois o filme não abre espaço para desenvolver os personagens ou explicar suas motivações que os levaram a onde estão, e os usa somente para causar essas emoções perturbadoras em que está vendo a película. Portanto, não é difícil de perceber que essa é realmente a intenção do roteiro assinado por Santiago Fillol e Laxe, usar dessas figuras humanas como uma fábula moral que escancara os horrores da guerra.
Ao longo do filme é possível identificar inúmeras simbologias, desde as mais sutis, como a travessia de um rio e o próprio título da longa-metragem, que referenciam provações mitológicas, até as mais escancaradas e óbvias como as sequências finais, que de maneira extremamente literal dizem ao espectador que ele deve fechar os olhos e confiar no destino.
Essa diferença gritante entre o modo de usar metáforas no filme não é sua única dualidade contraditória pois, ao mesmo tempo que todos no filme que escolhem esse estilo de vida sem amarras, ignorante e leve, são punidos, a sua forma de encarar o mundo é quase idealizada ao longo da jornada.
Esse quinteto de festeiros por si só já transmite muito dessa visão, Jade, Steff, Josh, Bigui e Tonin são interpretados por eles mesmos, as mesmas pessoas do mundo real que Laxe conheceu em sua vida e que mesmo vistos como “quebrados” se reconstroem na companhia um do outro.
Esse poder de recomeçar junto de outras pessoas e a afeição que esse grupo começa a construir pelo pai e filho, e a confiança que eles passam a ter uns nos outros, é a parte mais bonita e interessante do filme. A sensação de liberdade que é transmitida para o público é de se invejar. Por isso é cruel que as maiores tragédias e castigos que acontecem sejam exatamente no momento de maior união.
“Sirat” é ao mesmo tempo surreal e realista, simbólico e literal, uma crítica dura a quem fecha os olhos diante dos problemas mundiais e uma homenagem a quem se deixa levar sem preocupações. Sua última cena é a maior demonstração de que os seres humanos carregam uns aos outros ao alimentarem mutuamente suas esperanças e ânsias, e a cena em que, no momento de maior desespero dos personagens alguém lhes dá as costas é uma forte representação de como nossas escolhas de como interagir com o mundo voltam para nos atingir. Gostar ou não do filme, achar ele uma primorosa fábula moral ou uma história incompleta que se sustenta com cenas fortes, até nas opiniões Oliver Laxe cumpre a essência dual e divergente que é sua obra.
Ficha Técnica
Título Original: Sirât
Direção: Oliver Laxe
Roteiro: Santiago Fillol, Oliver Laxe
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Stefania Gadda
Gênero: Ação/ Drama
Duração: 1h54
Classificação Indicativa: 16 anos
Por Rafael de Paula
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


