
As mãos ágeis preparam e cortam a peça de peixe com maestria. O preciso corte da faca e o bater de panelas ditam o ritmo da cozinha asiática, que não vive só de arroz, alga e peixe. Determinação e resistência também fazem do cardápio servido por Judineys Fernandes – uma das únicas sushiwoman do DF. A escassez de mulheres na profissão é resultado de uma antiga crença japonesa, segundo fontes ouvidas para esta reportagem.
No mundo nipônico, há pouco espaço para uma mulher dentro da cozinha, apesar destas comumente serem as responsáveis pelas tarefas de casa. Isso porque existe uma tradição que defende o homem como o responsável pelo preparo de sashimis e sushis.
Mas por que não a mulher? Pois, segundo o mito, quando uma sushiwoman estiver em período fértil, a irregularidade na temperatura de seu corpo interferiria no sabor do peixe quando o alimento é preparado por uma cozinheira. Para os japoneses, comer e cozinhar são rituais sagrados e tudo que interfere na sacralidade da comida deveria ser evitado.
Mas para a maranhense Judineys Fernandes, de 40 anos, isso pouco importa. Foi quando Judy, como gosta de ser chamada, desembarcou na capital federal em meados de 2001 que a então técnica de enfermagem teve contato com a comida japonesa pela primeira vez. Em relação de amor à primeira vista, ela logo se apaixonou e de imediato largou sua antiga profissão para estudar e aperfeiçoar as técnicas. A enfermeira Judy virou sushiwoman – profissão que exerce há mais de 16 anos.
Judy não é maioria e sabe disso, mas também não é a única a peitar a tradição e dedicar sua vida ao preparo dos pratos mundialmente consumidos. Porém, não quer dizer que seu caminho até chegar à sócia-proprietária de um restaurante especializado na culinária que tanto ama tenha sido fácil.
Segundo Judy, antes de abrir seu próprio negócio, a cozinheira fez testes em outros restaurantes e mesmo demonstrando técnicas aguçadas e habilidade no preparo, não foi aceita pelo fato de ser mulher. “Já sofri rejeição. Almejei trabalhar em lugares famosos de Brasília. Passei nos testes e não fui selecionada por ser mulher e por eles (proprietários) adotarem a crença da culinária japonesa que impede que mulheres exerçam a profissão”, conta a sushiwoman.
Mas quando pergunta sobre se sentir incomodada em ter como referências gastronômicas, uma cozinha e uma história culinária comandada de dominada majoritariamente por homens, responde como se não a afetasse a divisão desigual de hierarquias. “Sei que os maiores chefs de cozinha são homens e que tem habilidades para chefiar como ninguém, mas a presença da mulher na cozinha é fundamental”, acrescenta.
“Não altera sabor”
Mas será mesmo que existe diferença na temperatura do organismo entre homens e mulheres? Se existe, ela afeta no sabor do peixe? Quem esclarece é o endocrinologista Carlos Eduardo Corrêa, de 53 anos. Segundo o médico, há fundo de verdade na crença, mas isso não impede que uma mulher seja a responsável pelo preparo.
“Realmente há uma diferença na temperatura da mulher durante o período fértil. Ela apresenta uma temperatura um pouco mais elevada do que o homem, mas nada muito exagerado e nem capaz de mudar o sabor da comida. Usam do fato para justificar uma tradição”, explica.
Da cozinha para o cinema
Judyneis é uma das poucas, mas não é a única. Sua histórias de resistência de assim como de várias outras mulheres inspiram a ponto de virarem tema de filmes, que além da cozinha e sua cultura majoritariamente regida por homens, abordam questões como preconceito e discriminação.
Em “Sushi a La Mexicana”, de 2014, a comovente trajetória de Juana, personagem principal, em muito se assemelha ao caminho percorrido por Judy. Ela é uma mãe solteira, de hábeis mãos e cortes rápidos, mas precisos. Juana, que trabalhava em um mercadinho há anos, tem a chance agora de integrar um restaurante japonês, mas seu sonho esbarra no machismo enraizado na cultura gastronômica.
Por Victor Fuzeira
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira